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"Esplendor e a Infâmia" com Pedro Jorge Castro, diretor adjunto do Observador. Bem-vindo, Pedro.
Olá, como é que estão? Têm visto os jogos do Mundial até tarde ou têm tido mais que fazer?
Até tarde, não. Aqueles mais tarde não consigo, mas vou vendo alguns. Geralmente os que metem seleções mais pequenas. É a poesia do futebol.
Eu tenho visto. No meu primeiro trabalho, no meu primeiro emprego, quando eu tinha 17 anos, já lá vão uns quantos, o meu chefe, que era o senhor Luís, na tipografia, disse-me que ia pôr férias para ver todos os jogos. Achei aquilo estranhíssimo, este homem vai pôr férias, vai gastar as férias para ficar em casa a ver os jogos. Hoje compreendo um pouco melhor, porque sou um nótivo, tenho tentado ver os jogos com a companhia do meu filho, que é fanático por estas coisas, mas isto é difícil, acabar de ver jogos às 16h30 da manhã e depois acordar às horas normais.
Acho que ainda vamos voltar ao futebol e ao Mundial neste "Esplendor e a Infâmia", mas para já vamos para a infâmia. Ontem o primeiro-ministro Luís Montenegro esteve em Houston a assistir à goleada de Portugal frente ao Uzbequistão. Tem falado várias vezes na necessidade de o país ter uma mentalidade vencedora, uma mentalidade Ronaldo. Encontras infâmia aqui neste apelo à ambição, Pedro?
Falar é fácil, dar bitaites da bancada. Outra coisa diferente é entrar em campo e marcar golo. Se calhar, a primeira coisa que temos que ver é o que é exatamente a mentalidade vencedora aplicada à política portuguesa. Eu creio que estamos aqui no equívoco. Acho que a mentalidade vencedora é mudar, de facto, o país para melhor. Estão identificados os problemas do país, estão identificados os nossos bloqueios. É mais ou menos claro aquilo que deveria começar a ser feito para tentar melhorar algumas destas coisas, para tentar melhorar as condições de vida das pessoas, em todas as áreas que são importantes para ela e de que se fala amplamente. Mas Montenegro tem-se comportado como se a mentalidade vencedora fosse fazer o que pode para não perder a hipótese de ganhar as próximas eleições. Ora eu creio que está a dirigir as energias e a tal mentalidade vencedora para o sítio errado. Isto é quase como se estivesse a jogar para não perder. E quem entra em campo para não perder, para o empate, complica as coisas e arrisca-se, de facto, a uma grande derrota. Estamos todos aqui em suspense, à espera de ver o que é que vai dar esta votação da Prestação Social Única, depois de termos tido no fim da semana passada uma surpresa, creio eu, apesar de tudo relativa, com o chumbo do Chega à proposta de reforma laboral. O Chega já disse que se o PSD e o PS se entenderem, estão muito bem. Isto é um problema que não é do Chega, é quase como se nenhum problema do país fosse do Chega. Ele põe-se de fora de tudo. De facto, também se percebe, ele também está a aplicar a mentalidade vencedora para resultados eleitorais e não para a melhoria do país. Temos a situação política bloqueada neste momento, com três grandes blocos com muita dificuldade em entenderem-se no Parlamento para tudo aquilo que é importante. Eu fiquei chocado, posso dizer, com o artigo que publicámos na semana passada do Miguel Carapatoso, com os bastidores do governo, com a forma como todos os ministros estão a vigiarem-se uns aos outros, a controlar as fugas para a imprensa, as invejas que dominam ali, a forma como há ministros que têm um alvo nas costas vindo do próprio governo. Isto dá-me a ideia que neste momento aquilo que Luís Montenegro pode ir buscar à mentalidade vencedora de Cristiano Ronaldo é imitar um gesto dele, que é aquele das bolas paradas, de recuar três passos e respirar fundo. Mas antes disso, há uma coisa muito importante, que é aquilo que eu mais gostei de ver no jogo da seleção de ontem: precisamente a preparação das bolas paradas. Temos um treinador adjunto especialista nisto, que é também do Aston Villa, e ontem houve de facto uma série de jogadas, que era uma coisa rara de nós vermos, e que foram preparadas em laboratório, como costuma dizer o Gabriel Alves, para meu grande encanto. E de facto, aquilo é trabalho feito ao longo de muito tempo, que implica muitos ensaios e eu creio que esse trabalho, se calhar, não está a ser feito neste momento por quem rodeia o primeiro-ministro. Portanto, a primeira coisa é definir bem quem são os seus treinadores de bolas paradas, acabou de juntar na vice-presidência do partido os presidentes das Câmaras de Lisboa e do Porto e também depois tem o Mugalho, não sei se eles vão começar também a dar os seus beatites sobre isto. A bola está de facto parada, e ver se conseguem preparar jogadas de laboratório para marcar golo finalmente. Creio que está difícil. Nós tivemos um podcast, que era o "O Escândalo que Destruiu a Seleção", na semana passada, sobre Portugal no Mundial de saltiro. Quem não ouviu, recomendo vivamente que vá ouvir. E conta-se uma história espetacular, que é a entrada para o terceiro jogo contra Marrocos. O selecionador de Marrocos quis combinar o resultado com a equipa portuguesa, porque bastava o empate para ambas seguirem em frente. Isto foi verbalizado através dos jornalistas, que foram de facto falar com o José Torres, que depois não deu vazão a esta ideia. Ainda bem, porque seria antidesportivista. Das coisas que, apesar de tudo, menos nos envergonham nessa participação nesse mundial. Mas neste momento, temos um primeiro-ministro que tem que combinar o resultado com dois adversários que não têm interesse nenhum em aceitar qualquer combinação de resultado, porque estão todos focados nas próximas eleições, que deveriam ser só daqui a três anos, mas que se calhar vão-se precipitar já para o próximo orçamento de Estado.
Vamos agora ao esplendor.
E continuamos à volta do Mundial de Futebol, também no Esplendor. Uma vez que estamos na tarde política, presumo que não vás agora elogiar o 4-4-2 e outras artes do futebolês. Qual é o esplendoroso lado que queres realçar hoje?
Não vou estar aqui a falar de táticas futebolísticas, mas eu estava à espera de muito pior. De facto, havia muito más expectativas sobre aquilo que poderia ser este mundial, por ser nos Estados Unidos e pela situação geopolítica que o mundo tem estado a enfrentar, mas também por características da própria prova. A quantidade de jogos, a quantidade de seleções, isto induziria que haveria jogos com menor qualidade, as horas a que isto se iria jogar. Para quem está cá, ter de ver de madrugada. Ninguém vai esquecer estas complicações de ter o Irão obrigado a dormir no México ou do árbitro impedido de entrar nos Estados Unidos. Nada vai apagar isso, mas apesar do preço dos bilhetes altíssimo, temos visto estádios cheios e temos visto momentos extraordinários dentro de campo, com as estrelas a aparecer. Esta luta titânica entre Messi, Haaland, Mbappé e agora que se junta também Ronaldo. Vamos esperar que isso se confirme assim. Mas também fora de campo, com a fã de Messi. Não sei se viram aquela cena no fim do jogo em Dallas, que apareceu com um cartaz a dizer que é fã de Messi, que tem 100 anos. E também as celebrações dos adeptos noruegueses.
Eu estava lá no estádio.
Estava lá no estádio?
Exatamente, é espetacular. Ela já tinha ido ver um treino do Inter de Miami e tinha pedido Messi em casamento, dizendo que a idade não conta. E também estas celebrações dos adeptos noruegueses, que também têm produzido imagens virais, da tal "romhada viking". Ainda vamos ter quase mais um mês disto e eu espero que seja mais dominado por este lado da paixão dos adeptos do que pelas controvérsias que rodeiam uma competição realizada nos Estados Unidos neste momento.
Vamos a vólu. E que história trazes do passado relacionada com mundiais de futebol?
Fui ao primeiro mundial, e a história do Uruguai, 1930, e a história do rei selecionador, o rei Carol da Roménia. Isto foi poucos dias depois dele iniciar o seu reinado e empenhou-se para levar uma seleção romena ao mundial do Uruguai, em 1930. Então foi ele próprio que escolheu os jogadores. Obrigou as empresas em que eles trabalhavam a libertá-los durante três meses para os deixar ir à competição. Fizeram uma viagem no navio que durou 16 dias e havia treinos no próprio navio. Ele participava nos próprios treinos. Depois chegaram lá, ganharam o primeiro jogo contra o Peru, mas depois perderam o segundo com o próprio Uruguai e foram eliminados. Carol foi depois forçado a abdicar do trono em 1940 e acabou por se exilar em Portugal, numa casa no Estoril, onde morreu de ataque cardíaco em 1953. O Diário de Lisboa encheu páginas sobre a morte do rei Carol da Roménia, descrevendo pérolas do estilo: "O rosto continua de uma serenidade impressionante, em nada dando a sensação de morte". Depois também relataram que o filho do rei Carol estava em Lausanne e não viria ao funeral do pai porque horas antes do falecimento tinha nascido o seu terceiro filho. Conclusão sábia do Diário de Lisboa: "A vida continua".
Exatamente. O Uruguai que foi o primeiro vencedor da primeira Copa do Mundo.
Já ganharam, sim. E temos lá o Maxi Araújo neste momento.
E salvo erro, foi disputado no Estádio Centenário, em Montevidéu, este primeiro mundial, já lá vão uns anos. O Esplendor e a Infâmia regressa para a semana.