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Sei que ainda não era meia-noite. Já tínhamos as crianças a dormir e deitámo-nos e passada meia hora, acordamos com o rebentamento.
São Mansos, Évora, 30 de abril de 1984. As FP 25 de Abril acabam de cometer o crime mais chocante da sua história.
Nem eu nem o pai vimos exatamente o estado em que o bebê estava, porque ele só me dizia: "Traz o menino", dizia ao meu marido. E eu disse: "O menino está morto".
A história de Nuno Dionísio é apenas uma entre 13 histórias de pessoas assassinadas pelas Forças Populares 25 de Abril. Nos anos de chumbo das FP 25, explicamos como nasceu e atuou a organização terrorista que cometeu centenas de crimes de norte a sul de Portugal nos anos 80. As jornalistas Sónia Simões e Tânia Pereirinha consultaram centenas de documentos e fizeram cerca de 30 entrevistas aos protagonistas deste caso, entre polícias, magistrados, advogados, familiares das vítimas e antigos operacionais. Esta série de podcast do Observador é o resultado dessa investigação, dividida em três episódios. Esta é apenas uma parte de um trabalho multimídia muito profundo e recheado de pormenores sobre as FP 25, que pode ser encontrado no Observador. Neste primeiro episódio, seguimos guiados pela jornalista Tânia Pereirinha, pelas histórias das vítimas, da organização e dos membros que mataram e roubaram no Portugal de 80, em nome de um ideal de sociedade que foi rejeitado nas urnas pelos portugueses.
Esta família era composta por um casal, que tinha dois filhos, a Sara de dois anos e o bebê Nuno, que tinha apenas quatro meses. Eles, na altura, estavam a morar numa casa que pertencia ao sogro de Delfina.
Era uma casinha pequena.
Era uma casa muito modesta, que basicamente tinha um quarto.
Era só aquele quarto. Tinha um corredor na entrada, tinha o quarto onde dormíamos e tinha a cozinha e a casa de banho. Ainda dormíamos todos no mesmo quarto, mas já prevíamos que um dia íamos precisar de quarto para os filhos. Então já andávamos a construir dois quartos, mas estava mesmo só ainda as paredes levantadas. Não estava mais nada feito. Quando isso aconteceu.
E foi esse quarto, a parede exterior desse quarto, que na noite de domingo, dia 30 de abril de 1984, passava pouco da meia-noite, estavam eles todos a dormir, explodiu e provocou a morte ao bebê. Foi a morte mais infame, a morte mais cruel das FP 25.
E a gente lamenta. A gente fez um comunicado ao fim dois dias. Fui eu que entreguei na Lusa. Ali foi uma coisa que lamento muito, mas aquele avô fez um caudal de tropelias a outras gentes, foi igual. Eu lamento muito a morte do bebê, como é evidente. Então, mas não lamenta a morte do Casquinha Caravela? Não lamenta aquela da manifestação do Hienas?
José Ramos dos Santos é o operacional das FP 25 que ordenou o ataque que resultou na morte de Nuno Dionísio. Recebeu a jornalista Tânia Pereirinha em casa, em Grândola.
Nunca vi lamento nenhum aí do filho do Castelo Branco a dizer que lamentava a morte dos outros gajos. Do padre Max. Eles avisaram o padre Max e a Lourdes? Não avisaram. Eles mataram! Sem dó nem piedade.
Vocês também.
Não, a gente avisou sempre.
Não houve um telefonema, não houve o mínimo indício de que a nossa vida corria perigo. Para mim, eu só perguntava: por quê? Porque eu nem associava à situação do que se tinha passado com o meu sogro. E é incrível o requinte da maldade.
Estivemos com a Delfina Batista, que na altura tinha 24 anos e agora tem 61, na casa onde ela agora mora, com o novo marido. Ela, entretanto, ficou viúva, teve mais um filho antes disso, o Marco, e foi uma das entrevistas mais difíceis, porque passaram estes anos todos e ela diz que continua a ouvir o som da explosão.
Todos os dias, porque vejo os meus filhos e principalmente quando vejo o meu netinho, sempre. Ele está sempre na minha mente. Aquele filhinho que ia crescer, que ia ser um homem hoje e sempre. E quando chega aquele dia e aquela hora, é como se eu tivesse a ver um filme a passar na minha frente e revivo cada minuto daquela noite. E por quê?
Este atentado aconteceu por causa do sogro ou era dirigido ao sogro da Delfina, que era o Luís Dionísio Cirola, como era conhecido na terra. Esta era uma alcunha, que se pegou como um nome, e que era acusado pelas FP 25 de ser um grande latifundiário, de ter muitas terras
Percebemos, e isso ficou provado na altura, ele era um rendeiro, ele nem sequer tinha terras em nome dele. José Ramos dos Santos, ex-operacional das FP, que entretanto admitiu ter sido ele a ordenar este ataque, diz-nos que não é assim. Diz-nos que ele não só era latifundiário como era um jagunço dos grandes proprietários. Diz que ele perseguia trabalhadores em nome dos proprietários das terras ali da zona.
A seguir das desocupações, começou a haver as praças da jorna.
O que era isso?
Praças da jorna era uma coisa que havia antes do 25 de Abril, em que os agrários e os patrões iam buscar à praça pessoas para trabalhar. E ele dizia: "Tu não vais se tiveres na cooperativa. Tu não vais se tiveres na outra cooperativa de Monterigo". Ele dizia isso, que era ele que arranjava os trabalhadores para as herdades que eles tinham, que tinham sido desocupadas. E ele foi avisado por alguém: "Estás a dizer uma coisa mal, alguém estava a beber mas empregado. Tu estás a dizer isso, um dia desses aparece algum amigo deles e leva-te na tromba".
E nessa fase é que o meu sogro recebeu ameaças por telefone e pintaram o monte todo com letras vermelhas a dizer que o iam matar, matavam ele e o filho, o meu marido era filho único. Nessa altura, em 78. Eu, em 79, começámos a namorar, só casámos em 81, portanto, nessa altura já não se falava em nada, em 81.
O atentado tem lugar anos depois, a 30 de abril de 1984. Delfina Batista e o marido ficam a saber da autoria do crime através de uns panfletos deixados no local.
Pode ler.
Eu?
Sim, pode ser.
O comunicado das FP 25 reivindicaram assim o atentado em São Mansos. E o atentado dizia: "Os trabalhadores organizados nas Forças Populares 25 de Abril levaram a cabo uma ação de retaliação contra os bens da família do latifundiário Dionísio Luís Sirola. Este fascista deve à cooperativa de São Mansos milhares de contos e roubou terras, com cobertura do Centro Regional da Reforma Agrária". Ele é que tinha sido roubado a terra. "Esta é uma forma de luta que os trabalhadores usam para que os fascistas vejam que não ficam impunes face à repressão que recai sobre os camponeses e trabalhadores. Lançamos um sério aviso aos agrários e fascistas para que não peçam mais reservas, pois o povo trabalhador não esquecerá os crimes que esses fascistas têm feito com a cobertura do governo e seus lacaios".
Teve para se lhe queimar a carrinha, nem era para atentado contra um filho. Para lhe queimar a carrinha, para arrumar-lhe um carro, porque ele fartou-se de trabalhar para ter o Mercedes, acho que era um Mercedes ou um Towns, um carro assim. E depois optou-se, o melhor, é porque aquela casa tem N bronzes e N coisas que eles tinham de bens, para destruir aquilo. Então direcionou-se a bomba. E a criança, como choveu, ele averou o carro e a criança não ficava lá. A habitação, eles a ficarem era ao lado, que tinham coisa e depois tinha um corredor e ele se ficava lá para o fundo. Aquilo estava direcionado para o leque não fazer assim.
Como é que foi um erro? Se não deixassem lá aqueles papéis, ainda podiam dizer que tinha sido um erro, mas deixaram lá os papéis a dizer que era retaliação contra o latifundiário, sabendo que ele não morava ali. Ele morava no centro da vila. E foram pôr a bomba precisamente na parede em que sabiam que era o nosso quarto. Só erraram, se calhar, por um metro, porque aquilo rebentou no enviamento da cama do bebê e eles queriam era matar todos.
Durante muitos anos correu que a avó do bebê morreu ao saber da notícia. Não foi a avó, mas sim uma vizinha. Na pequena vila de São Mansos, Rosária não resistiu à comoção. Ninguém foi condenado pela morte de Nuno Dionísio, de apenas quatro meses. Mas essa é uma parte da história que vamos contar mais à frente. Para já, importa perceber como nasceram, afinal, as Forças Populares 25 de Abril, as FP 25.
Forças Populares 25 de Abril. Manifesto ao povo trabalhador. Um: o processo desencadeado no 25 de Abril constitui esperança para todos nós, trabalhadores explorados.
Elas apresentam-se ao país a 20 de abril de 1980, era um domingo, com uma série de explosões de petardos de norte a sul do país. Conforme explodiram os petardos, explodiram também os papéis, os panfletos, com o Manifesto ao Povo Trabalhador, onde as FP 25 se apresentavam e diziam ao que vinham.
Quatro: militantes que de armas na mão lutaram contra a ditadura, o imperialismo, o colonialismo, vindos de várias organizações, ARA, LOAR, BR, grupos autónomos, entendem ser este o momento de avançar organicamente com um exército revolucionário dotado de direção política autónoma, capaz de, com a força que lhe advém da razão e da justeza da sua luta, responder com a violência revolucionária à violência que diariamente se abate sobre quem trabalha.
A malta disse: "Está na hora", e começámos. Quando a gente sabe que eles vão tirar o tapete ao hotel. Que era para não haver a segunda candidatura. Nós, dois meses antes, ou três ou quatro, germinamos o manifesto que é das FP-25. Organizamos cerca de 315 ou 325 petardos. Cada equipa tinha cinco, é multiplicar. Estiveram envolvidos no lançamento das FP-25, 300, acho que são 325 pessoas do país todo. É multiplicar.
Sendo que o José era uma dessas pessoas.
Eu era dirigente dessa estrutura já na altura.
As FP-25 nascem de radicais de esquerda, de vários partidos e movimentos, mas em especial do PRP e das Brigadas Revolucionárias do Carlos Antunes e da Isabel do Carmo, que reafirma hoje que depois do 25 de abril, entenderam que deviam acabar as ações violentas. A Isabel do Carmo explicou-nos que quando estavam presos, em 78, este regresso à luta armada voltou a ganhar força. Uns meses antes de as FP serem lançadas através dos petardos, foi assassinado um antigo militante do PRP, o José Plácido, que é considerado uma espécie de vítima zero da organização terrorista.
Enquanto estávamos presos, formou-se, de facto, uma corrente fora da nossa direção do PRP, fora da nossa perspectiva, que fez uma execução, que nós só soubemos depois dela ter sido praticada e com a qual discordamos e discordamos publicamente. Claro que apesar de estarmos presos, fomos chamados à polícia, à PJ, para saber se nós éramos os mandantes daquele assassinato. Fomos interrogados separadamente, eu e o Carlos Antunes, mas ambos demos a mesma resposta: os mandantes foram vocês. Vocês, Polícia Judiciária, e não sei se não foram. Podia haver infiltrações. Havia, de certeza, infiltrações.
Ele andava a apontar quem é que andava a fazer. Houve alguém, e provavelmente veio dizer: "Estancar aqui, temos que acabar com isto". Senão ele continuava. Eu conheço, sei quem foi a equipa que fez, tenho a certeza que aquela gente foi falar com ele pessoalmente: "Tu acabas com isto".
E essa equipa tem ligação às FP?
Vamos lá ver. Isto são militantes que já trabalhavam numa estrutura clandestina, a qual lançou depois uma estrutura armada publicamente.
José Plácido é assassinado em novembro de 1979. A primeira vítima oficial das FP é um sargento da GNR, Henrique Hipólito, de 28 anos. É morto a 5 de maio, num confronto com os operacionais da organização terrorista, na sequência de dois assaltos a bancos no Cacém. Os assaltos prosseguem e dois civis morrem na tentativa de os evitar. José Lobo dos Santos, de 33 anos, estava acompanhado pelo filho de sete. Foi abatido numa agência bancária na Malveira, na manhã de 6 de outubro de 1980. Outro civil, Fernando Abreu, foi morto a tiro enquanto tentava impedir o assalto ao Fonseca's & Burnett, na Póvoa de Santo Adrião, a 13 de outubro de 1981. Além do sargento Henrique Hipólito, foram assassinados outros três militares da GNR até 1984. Agostinho Ferreira, de 42 anos, em Martim Longo, Alcoutim, a 13 de maio de 80. Evaristo Ouvidor da Silva, de 25 anos, e Adolfo Dias, de 41, morreram na sequência do rebentamento de um carro armadilhado perto da Malveira a 3 de outubro de 1981. Diamantino Monteiro Pereira, de 43 anos, administrador da fábrica de louças de Sacavém, é o primeiro empresário assassinado pelas FP-25 a 6 de dezembro de 1982. É morto a tiro quando saía de casa em Almada.
Eles despediram a maioria dos operários. Só os lembres-botas é que não foram despedidos.
O primeiro empresário assassinado aconteceu bastante mais tarde, em dezembro de 1982, e foi Diamantino Monteiro Pereira, que era administrador da fábrica de loiças de Sacavém, que na altura também estava a passar por um período muito conturbado. Nós falámos com o Luís Monteiro Pereira, o filho, que na altura tinha 13 anos e que nunca tinha aceitado falar publicamente sobre o assunto. Não aceitou gravar, infelizmente. O pai foi morto de manhã, quando saiu de casa, eles moravam em Almada, e o pai saiu de casa para ir para uma reunião. E foi um dia diferente, porque como tinha essa reunião, o filho não foi com ele. Ele costumava apanhar boleia do pai pra escola e durante anos, o Luís Monteiro Pereira questionou-se sobre se o pai estaria vivo, se ele tivesse saído com ele de casa naquela manhã. Se os operacionais que o esperaram para o assassinar, se não teriam dado os tiros se vissem a criança.
Foram cinco pessoas. Um distribuiu os comunicados. Outro cobriu quem deu o tiro. E o outro, eram cinco. Não é importante quem deu o tiro O importante é que a organização em si deu um salto importante, que hoje, neste contexto, não será muito entendível, mas na época haviam dezenas de pessoas a dizerem: "Vocês têm que fazer mais".
Luís Monteiro Pereira, o filho, também nos disse que entretanto já chegou à conclusão de que não, porque os operacionais das FP 25 fizeram coisas horríveis à frente de outras crianças, fizeram coisas horríveis a outras crianças. E há também a história da Susana Soto, filha de outro empresário assassinado, que estava ao lado do pai. Ela era um pouco mais velha, tinha 20 anos na altura, mas estava ao lado do pai quando ele foi morto em plena fila de Lisboa.
Na Nauticampo.
Na Nauticampo, sim. Ele tinha uma empresa de autocaravanas e foi assassinado.
Entre fevereiro de 1980 e abril de 84, foram praticados mais de 40 crimes violentos, incluindo sete homicídios. Paramos em abril de 84, porque neste ano há um marco na história das FP 25, o Conclave.
Começou a aparecer muita prova, à medida que se ia lendo os documentos.
Esta é a voz de Cândida Almeida, a procuradora responsável pela acusação no caso das FP 25.
Refere-se a uma reunião que houve na Serra da Estrela, em que as pessoas estavam todas encapuzadas e o hotel tinha o número sete.
Tânia Pereirinha, o que é o Conclave?
O Conclave foi a única reunião magna do Projeto Global, do Otelo Saraiva de Carvalho, onde se englobavam as FP 25. Foi a única vez que toda aquela gente da parte legal e da parte ilegal do projeto se reuniu. E aconteceu num fim de semana de abril de 1984, portanto, escassos meses antes de serem detidos na Operação Órion, numa casa alugada na Serra da Estrela. E foi uma cena de filme. Foi reconstituído através dos depoimentos de pessoas que lá estiveram, de operacionais que lá estiveram, e também dos famosos cadernos do Otelo Saraiva de Carvalho. Terão sido 30 pessoas, mais coisa menos coisa, naquela casa. Estas pessoas chegaram por grupos. Só horas antes e a meio do caminho é que souberam qual era a morada final onde se deviam dirigir. Quando chegaram à casa, foram encaminhados diretamente para os quartos onde iam ficar alojados. Por grupos, não havia quartos individuais, claro. E a partir daí, só saíam dos quartos de capuz. A ideia era que não se reconhecessem uns aos outros.
Cara tapada.
Cara tapada, sim. E o Otelo, em tribunal, admitiu ter participado nesta reunião e ter estado de cara tapada e disse até que não tinha sido a primeira vez que o tinha feito. Portanto, eles saíam de cara tapada para fazerem as refeições em grupo. E aí podiam tirar o capuz e comer, e para se reunirem na cave, num piso térreo da casa, e para discutirem aquilo que os levava ali.
E como é que sabiam quem é que era quem?
Cada um tinha um número. O Otelo era o sete.
Aliás, na altura não havia exame do ADN, de certeza, mas ele não negou. Era o número sete e no papelzinho onde tinha o número sete, escreveu coisas à mão.
A procuradora Cândida Almeida e os investigadores cedo iriam perceber que Otelo Saraiva de Carvalho tomava notas sobre quase tudo em que participava. Os cadernos apreendidos ao militar foram prova crucial neste caso, e vamos voltar a eles ao longo destes episódios.
O Conclave serviu para fazer uma espécie de balanço da organização. O que tinham feito no passado, de bem ou de mal, e o que iam fazer no futuro. Na altura, havia muito mal-estar no seio do projeto global. Tinha saído muita gente da FUP para as FP 25. Portanto, tinha saído muita gente da parte legal para a parte ilegal e os operacionais queixavam-se de que eles é que corriam os riscos e que depois passavam o dinheiro para cima e não sabiam o que era feito com aquele dinheiro. Por outro lado, os da parte legal diziam o contrário, diziam que os operacionais podiam ter a tentação de ficar com o bolo. A citação que há numa das atas ou num dos cadernos é que como eles tinham acesso ao naco, podiam ter a tentação de ficar com ele.
Havia um tesoureiro nacional, havia tesoureiros regionais, havia uma estrutura de controle, senão isto era uma anarquia terrível. E quero dizer que o dinheiro nunca foi desbaratado. A gente tem esse arquivo, não foi apanhado.
Ainda têm isso?
Temos.
Mas é o José que tem?
Alguém tem.
Apesar de terem sido avisados, aconselhados a destruir provas. Isto tudo foi escrito. Havia atas e apontamentos disto tudo.
Atas de uma reunião secreta.
Certo, com números em vez de nomes. Mas depois, a partir do momento em que se foi sabendo quem é que estava lá e quem é que tinha determinado número, foi fácil perceber a quem eram atribuídas as citações. Mas foram apreendidas notas ao Otelo Saraiva de Carvalho, que ele reconheceu como suas, portanto, não há dúvidas disso. Há uma frase muito reveladora. Otelo sempre se disse contra qualquer tipo de violência e também disse sempre que não tinha nada a ver com as FP 25. Aquilo que ele escreveu foi: "Contento-me com perfil na definição dos inimigos a abater". Portanto, o Otelo que sempre se disse contra a violência e que não tinha nada a ver com isto, disse: "Por mim não precisam de dizer quem é a pessoa, nem onde mora, nem o que fez. Basta um perfil, não muito detalhado".
Esta reunião, o conclave, serviu para tomar decisões.
É no conclave que se aprova uma série de documentos que esquematizam a violência das FP 25. Que tipo de atos é que dão direito a tiros para as pernas, que era o chamado ajoelhar do capitalismo, que tipo de atos é que dão direito a execuções sumárias e que pessoas ou que organismos dentro da estrutura legal e ilegal é que podiam autorizar esses atos.
E como é que isso funcionava, então?
Se fosse tiros para as pernas, então tinha de ir à estrutura intermédia das FPs. Mas tiro para as pernas também não precisava de ir à DPM, nem nada. Eles fizessem, era responsabilidade. "Sim, senhor, vocês fazem". Se fosse morte, então tinha de ir à DPM.
DPM quer dizer Direção Político-Militar.
Portanto, para um assassinato de um empresário ou do que fosse, a ordem tinha que vir da cúpula. Não podia ser decidido por um comando operacional. Para atacar um industrial que, por exemplo, tivesse salários em atraso e que eles quisessem avisar, apenas, entre aspas o apenas, para dar os tais tiros nas pernas, podia ser uma coisa decidida a nível regional.
Estas normas passam a escrito em 1984, mas as práticas já vinham de trás. Na manhã de 28 de outubro de 1981, João Mesquita Oliveira, administrador de duas empresas têxteis, a Carides, em Pousada de Saramagos, e a Caneiro, em Bragança, é atingido com tiros nas pernas à saída de casa, em Areias, Vila Nova de Famalicão. A história é aqui recordada por duas das filhas, em conversa com a jornalista Tânia Pereirinha.
E depois os vizinhos, que foram eles que primeiro chegaram e acudiram. Acudiram o meu pai. Porque entretanto o meu irmão ia para a universidade, vinha. Para trás, o meu pai no outro carro. Saíram de casa ao mesmo tempo. O meu pai arrancou e ele estava a arrancar quando ouviu os tiros, sem imaginar o que se tinha passado. Estava já na rampa com acesso ao portão, onde tudo se passou. Os vizinhos já o tinham posto dentro do carro, no banco de trás, o meu pai, depois foi o meu irmão que levou o carro do meu pai e foi para o hospital. Nem chamou a ambulância nem nada. Eles usaram armas de guerra, que as balas rebentam, explosivas. Explodiu dentro da perna e o fêmur ficou em não sei quantos bocados. Estilhaçado.
A Maria Helena e a Maria Cristina Mesquita de Oliveira são dois dos quatro filhos de João Mesquita de Oliveira, que foi um dos empresários que sofreram na pele o tal castigo do ajoelhar o capitalismo.
Essa altura foi a altura pior, sinto muito. Quantas vezes meu pai vinha para casa, tinha que o trazer a casa, que ele vinha completamente nervoso, incomodado. Que era greves, eram manifestações. Era tudo. Esse era um grupinho, mas que os sindicatos depois os picavam e faziam aquele tumulto todo.
O autor do atentado foi João Macedo Correia, ele que viria a ser um dos arrependidos deste caso. É também autor do livro "As Cinzas de um Tempo Perdido: Ascensão e Queda das FP 25".
Foi um dos arrependidos que colaborou com a polícia para desmantelar a rede. Foi um dos principais que- Um dos principais que ajudou a desmantelar toda a rede e o Otelo, e que deu documentos e que deu as informações todas que permitiram desmantelar tudo.
O João Mesquita de Oliveira ficou internado e acamado durante três meses e depois teve que fazer fisioterapia durante meio ano. Andou de canadianas durante imenso tempo, mas conseguiu finalmente voltar a andar e acabou por perder a fábrica, porque ficou demasiado tempo afastado e a fábrica acabou por falir.
O mesmo aconteceu à Ivima, uma fábrica na Marinha Grande, que exportava para grandes armazenistas como a Macy's, a Bloomingdale's e a Ikea, que poucos conheciam no Portugal de janeiro de 1984.
Ele esteve três dias fechado na fábrica. A fábrica era parecida com a cordoaria e a administração estava por cima do portão principal. E o meu pai está há três dias fechado no gabinete. A minha mãe telefonava, falava com ele e de trás ouvia-se: "Matem-no, matem-no".
Esta será talvez uma história menos conhecida porque não culminou em morte. O Jorge Sampaoli Mou Raposo de Magalhães era filho do Jorge Raposo de Magalhães, que em 1979 assumiu a gestão da Ivima, que era uma das grandes vidreiras da Marinha Grande e que na altura já tinha meses de salário em atraso. E a Marinha Grande era uma zona muito politizada, muito à esquerda na altura. Havia muitos sindicatos, havia muita coisa a acontecer ali. Portanto, quando o Jorge Raposo de Magalhães chegou à fábrica, que já era da família, teve que se debater com muitos problemas. Havia muitas greves, havia muita contestação por parte dos trabalhadores. E aquilo que o filho dele nos relatou foram vários anos, cinco anos, se não estou em erro Em que eles viveram com algum medo, com algum terror. Ele era pequeno, tinha nove anos quando se mudou para lá, vindos da Quinta da Marinha. Ele lembra-se de ser avisado pela mãe que se estivesse a brincar na quinta onde moravam e se encontrassem um pacote, ele e os irmãos, se encontrassem um pacote, não podiam mexer, tinham que chamar. Ou seja, eles corriam o risco de dar com uma bomba colocada na propriedade.
Havia ameaças reais. Eu acho que a nós, quando percebiam que era uma criança a atender o telefone, se calhar não diziam nada, mas à minha mãe, havia ameaças. O meu pai, diretamente, era seguido, perseguido constantemente. Depois havia os tais sequestros, havia um atraso nos salários, havia alguma instabilidade na Marinha Grande, lá o fechavam dentro da fábrica. O meu pai, eu me lembro de uma vez contar que quis sair da fábrica e que lhe levantaram o carro. Estava rodeado de gente. E depois, eu acho que estupidamente, havia uma empregada que vinha durante o dia lá trabalhar em casa e que era mãe de dois ou três operários da fábrica. Não sei se faria por mal, mas vinha dar recados. Dizia à minha mãe: "Ah, dizem que vão raptar os meninos. Veja lá, cuidado, não os deixe andar à solta na quinta".
Portanto, eles viveram durante muito tempo com esta espada em cima da cabeça. Na noite de 25 de janeiro de 84, o Jorge Sampaulo Morra Raposo de Magalhães, o filho, foi acordado com rajadas de metralhadoras que foram disparadas contra a sala de estar da casa deles.
Os meus irmãos e eu, por termos uma casa grande, dormíamos os três no mesmo quarto e eu fui o único que acordou com barulho, que eu não percebi o que era, mas que eram rajadas de metralhadora. E eu levantei-me, saí do quarto, fui andando até o fim do corredor e havia um quarto que dava para a entrada, não para a entrada da quinta, mas para a parte onde havia as adegas. E os meus pais estavam os dois em pé, com sirenes. Eu via as luzes da polícia, fiquei completamente atordoado, tinha acabado de acordar. E o meu pai gritou comigo e mandou-me a correr, meter debaixo da cama e não chegar ao pé das janelas, porque tinham dado tiros contra a casa.
Ninguém ficou ferido neste atentado. Foram interrompidos por um caseiro que chegou e tiveram que fugir e deixaram abandonados uma grade de coquetéis Molotov e uma série de autocolantes das FP 25.
Que eu passei anos a pedir ao meu pai para me dar um. Fazia coleção e nunca tive um autocolante das FPs, fiquei bastante irritado.
E como é que acabou a relação da família com essa empresa?
Não foi logo, porque eles resistiram e ficaram lá depois do atentado. Até que dois anos depois, o pai voltou a ficar preso na fábrica durante três dias, teve de ser retirado pela polícia por uma janela e ele tinha prometido, ele tinha um orgulho imenso. E ele tinha prometido se alguma vez saísse da fábrica, que não fosse pelo próprio pé, que não voltava lá.
O meu pai perdeu com esta situação, obviamente, perdeu tudo. Tem a sorte, isso eu não vou negar, tem a sorte de ter uma rede de salvação da família da mulher, da família dele, mas ele pessoalmente perde tudo e perde os trabalhadores e tenho a certeza que perdeu o país.
Ele entregou a Ivima, que acabou por falir. Para pagar todas as dívidas que tinha à banca e à Segurança Social, teve de alienar todo o património que tinha, teve que dar a Quinta de Leiria, teve que entregar uma série de outras propriedades que tinha herdado de um tio-avô e vender o carro de que tanto gostava.
E para ele foi uma coisa traumática ter que vender um Porsche que tinha, castanho, que era uma coisa típica dos anos 70, já tinha uns anos, mas para ele, aquele carro era um símbolo da sua derrota.
Entre 1980 e 87, as FP 25 fizeram dezenas de assaltos. Assaltos a bancos, assaltos a empresas em dias de pagamento, alguns deles com consequências fatais. O dinheiro servia para pagar salários aos operacionais, para apoiar as famílias dos membros da organização e para financiar a luta armada. Os operacionais usavam um termo herdado dos tempos das BR, as Brigadas Revolucionárias, de Carlos Antunes e da médica Isabel do Carmo. Os assaltos eram designados por recuperação de fundos.
Eu acho graça, noutro dia a minha neta disse: "Mas o Carlos Antunes assaltou bancos antes do 25 de abril. Mas seu avô", ela tem seis anos, "seu avô assaltou bancos, não é bom assaltar bancos". E eu disse-lhe: "Bom, eu tenho que te explicar isso muito melhor. Tenho que te explicar isso muito melhor, porque naquela altura tinha que se ir buscar o dinheiro a algum lado". A verdade é que eu não tenho nenhuma repugnância por quem assalte bancos fora do balcão, mas tenho bastante repugnância a quem assalte os bancos atrás do balcão.
Ainda hoje?
Ainda hoje, pois claro.
E era assim que funcionava, não podiam ir contra o consenso.
Não, a questão é assim: havia autonomia, havia uma caracterização das ações. Recuperação de fundos. Podia ser uma lota do peixe. Fez-se uma delas.
Lotas de peixe e empresas em dia de pagamento de funcionários, isso não vai um bocadinho contra as coisas?
Espera uma coisa. O capital tem mais dinheiro
Só não o recebiam nesse dia. Havia um comunicado a esclarecer que o dinheiro ao fim de 15 dias era gasto e que eles tinham mais dinheiro no banco.
As FP 25 fizeram 99 assaltos a bancos em todo o país e isto era dinheiro que servia para financiar a organização, que tinha gastos com funcionários. Os operacionais eram pagos, recebiam um salário, recebiam subsídio de Natal, recebiam abonos para os filhos. Quando havia alguém que era detido e por isso ficava fora de combate, as famílias eram ajudadas e era dinheiro que depois também servia para organizar outros atentados e outras ações.
Há ideia do valor total que foi roubado?
Sim, segundo as contas do Ministério Público, até o assalto dos 108 mil contos, que é uma parte muito importante que ainda não falámos, que foi um assalto, que foi o maior deles todos e que aconteceu em fevereiro de 1984, foi um assalto a uma carrinha de valores do Banco Fonsecas & Burnay, ali no Marquês de Pombal, que as FP 25 conseguiram assaltar sem disparar um único tiro. Portanto, este foi o maior. Até essa altura, o Ministério Público estima que a organização tinha roubado cerca de 121 mil contos. Portanto, a juntar aos 108 mil, serão uns 230 mil contos, mais coisa, menos coisa, que pelo menos até à Operação Orião, que vá não acabou com os assaltos, mas tornaram-se menos frequentes. Segundo a calculadora da Pordata, com o valor da inflação, isto dá cerca de cinco milhões e meio de euros ao longo de quatro anos. Parece imenso, mas tanto segundo o Ministério Público como a DINFO, que na altura os serviços secretos militares que na altura também andavam a investigar, era pouco dinheiro. Isto seria cerca de 1 milhão e 400 mil € por ano, 114 mil e 500 € por mês, a dividir por dezenas largas de operacionais, salários, famílias e tudo mais. Portanto, tanto o MP como a DINFO achavam que nesta altura, na altura em que foram presos os operacionais, que as FP tinham pouco dinheiro.
Mas também há suspeitas de que parte do dinheiro tenha sido utilizada em proveito próprio.
Claro que sim. Há suspeitas e há mais do que isso. A Cândida Almeida, a procuradora do Ministério Público, que na altura recebeu o processo, contou-nos como foi feita, por exemplo, a divisão do produto deste assalto dos 108 mil contos.
Há também um documento após o assalto dos 108 mil, em que eles decidem numa reunião estar a dividir para que era o dinheiro e portanto tinha ações num bar, comprar um jornal e depois há um que pergunta se aquilo é uma empresa ou se é uma organização revolucionária, porque eles estavam a dividir dinheiro. Depois era os óculos para um senhor, um deles, que tinha partido os óculos. 140 escudos para os óculos. Depois eram as pontes. Já não sei na altura, mas 10 escudos para atravessar a ponte de lá para cá. Depois foi atribuído um montante para um indivíduo do norte recuar, portanto, esconder-se, e ele usou o dinheiro para fechar uma varanda. Mas o Otelo tem, deixe-me cá ver se eu me lembro onde. Não, é num papelinho, num papel com o timbre do quartel. É um documento que ele tem e nas costas está a dividir o dinheiro para o bar.
As FP 25 mataram um único alto funcionário do Estado, o diretor dos serviços prisionais. Gaspar Castel-Branco foi condenado à morte pela organização quando muitos dos seus elementos já estão presos e a ser julgados no Tribunal de Monsanto. Gaspar Castel-Branco é assassinado à porta de casa com dois tiros na nuca. O filho, Manuel Castel-Branco, encontra o corpo do pai caído no passeio à porta de casa a 15 de fevereiro de 1986.
Fui eu que descobri. Sim, tinha 17 anos. Desci cá abaixo, reconheci. Desci cá abaixo a prestar ajuda, estava com um amigo meu, que me disse: "Está uma pessoa caída aqui no chão, anda cá abaixo". Fui lá abaixo e percebi que era o meu pai, mas reconheci pelo casaco, porque todo o resto não era reconhecível. Enfim, é a vida, mas apesar de tudo, eu tive mais sorte do que a Susana Souto, porque ela estava abraçada ao pai quando o pai foi morto. Ainda avisávamos. Eu pessoalmente dizia: "A gente avisa, mas eles não mudam". E não mudavam. Castel-Branco não mudou, Castel-Branco foi avisado.
Castel-Branco foi uma das pessoas que vocês condenaram à morte?
Não. Ele é que se condenou ele.
O Gaspar Castel-Branco era o diretor-geral das prisões, dos serviços prisionais na altura, e estava a ser muito ameaçado, tanto que quando ele foi morto a 15 de fevereiro de 1986, num sábado, num final de tarde de sábado, ele já estava com escolta policial e andava armado. Aliás, já tinha trocado a arma que ele costumava usar por outra um pouco mais potente.
Numa conversa que eu tenho com o Luís, ele diz-me: "Na sequência da fuga, eles começaram a ser maltratados dentro da prisão". Os guardas, aqueles que ficaram, começaram a tratá-lo mal. E ele diz: "Isto ainda vai dar mau resultado".
António Coutinho, o homem da Judiciária que coordenou a Operação Orion, de que falaremos mais à frente, diz que percebeu o que ia acontecer e tentou avisar.
Cheguei lá à polícia e disse: "Eles estão errados, mas, se calhar, vão fazer um atentado contra o Castelo Branco". Por que o Castelo Branco? Porque o Castelo Branco, entretanto, nesse espaço de tempo, foi nomeado diretor-geral. Ele era o diretor da prisão no momento da fuga, mas a seguir ele é o diretor-geral. Eu avisei. E, por isso, até fiquei revoltado quando o facto veio.
Avisou a direção da prisão.
Avisou a direção. A direção avisou o ministro. Eu sei que fiquei revoltado nessa altura e perguntaram-me, aquilo era num domingo ou sábado, não me lembro bem.
Nesta altura, em 86, ele já tinha nas cadeias, no estabelecimento prisional de Lisboa, muitos operacionais das FP 25 e já tinham fugido também do EPL 10 operacionais numa fuga que ficou muito conhecida.
Este homicídio é justificado pelas FP com a forma como Gaspar Castelo Branco tratava os detidos no EPL, em Lisboa.
Exatamente, sim. Aliás, ficaram célebres algumas declarações de alguns ex-FP, com quem falámos também agora, que na altura, e ainda agora, é acusado de maltratar os detidos.
Ainda não falámos da situação do Castelo Branco e não sei se quero falar nisso.
Quer, claro que quer.
Mas é um caso muito delicado. Se calhar, voltamos à tal situação do contexto. Estamos a falar de um diretor dos serviços prisionais, que o aparelho de Estado não tratou de substituir no pós 25 de abril. E talvez falte fazer a conta dos presos que morreram em resultado da sua gestão prisional. Talvez falte fazer essa conta. Voltamos à mesma conversa que estava a fazer agora. Claro que eu hoje olho a realidade das ações de violência com um distanciamento que implica os 63 anos que tenho.
Helena Carmo passou cinco anos na cadeia. Foi acusada de ser dirigente das FP 25. No passado, chegou a admitir ter pertencido a esta organização, mas hoje não confirma nem desmente.
Portanto, quando falamos da realidade vivida pelos presos, talvez o doutor Castelo Branco de então, e não estou a falar só dos presos das FPs, dos presos das prisões portuguesas, ele não é visto da mesma maneira pelos presos que pela família, por exemplo, sei que há aí agora um livro, ou vai sair.
O meu pai tinha um sentido de missão. Sentido de dever público. E, portanto, um bocadinho de orgulho de servir o país. Eram isso os valores dele, os valores de justiça, de defesa. E era uma pessoa acarinhada nos presos.
Acontece a um sábado. Ou seja, ele, Gaspar Castelo Branco, aceitou reforçar a segurança e andar com segurança pessoal, mas não queria incomodar a família, não queria macular o dia a dia da família com aquele peso, aquela sombra atrás. Portanto, achava que ao fim de semana não precisava, porque não tinha rotinas. Portanto, neste dia, neste sábado, que foi a véspera da segunda volta das famosas eleições Freitas Soares, ele tinha ido visitar um amigo ao hospital, uma coisa que não fazia habitualmente, ia dar um jantar em casa, tinha ido a uma mercearia comprar queijo e foi apanhado neste hiato de tempo.
Nós tínhamos a noção, o que não tínhamos a noção é que era uma coisa tão possível, que estava tão próximo da realidade.
Nas contas feitas já neste episódio por José Ramos Santos, o ex-operacional que temos estado a ouvir, centenas de pessoas aderiram, num primeiro momento, à luta armada. Alguns vindos do PRP, das Brigadas Revolucionárias e de outros partidos e movimentos mais radicais. Em meados de 80 seriam largas dezenas, organizados por regiões e coordenados por uma cúpula dirigente. Num Portugal que respirava os primeiros anos de democracia, com uma Constituição aprovada, com Parlamento eleito pelo povo, com um sistema estabelecido de pesos e contrapesos, de fiscalização política e institucional, o que levaria, afinal, um grupo de pessoas a querer impor uma visão do mundo que tinha sido derrotada nas urnas? Vamos ouvir Isabel do Carmo, médica, ex-dirigente do PRP, partido do qual viria a ser expulsa.
No outro dia, numa conversa com um deles, é uma pessoa muito calada, muito discreta, mas a certa altura disse-me isto: nós pensávamos que o capitalismo podia cair assim.
Tento recuar e perceber que algumas daquelas pessoas não eram bandidos e queriam e tinham uma utopia. Embora não a descrevessem, tinham uma utopia e andaram por caminhos péssimos para atingir essa utopia, que naturalmente não foi atingida. Muitos eram marginais, tinham revolta política, a tal revolta de classe. Eram contra os ricos, eram contra os poderosos, mas eram marginais.
Estas pessoas eram ativistas ou militantes, terroristas seguramente de uma esquerda mais radical, que resolveram pegar em armas e pela violência resolveram tentar reverter o rumo da democratização.
Passado todo este tempo, há algum arrependimento ou não?
Acho que essa será uma das palavras que nenhum dos operacionais com quem falámos, em on ou em off, admite proferir. Arrependimento é demasiado forte. Há alguns que até podem dizer que, à vista daquilo que sabem hoje, se calhar alguns atos não se justificaram, mas ninguém diz estar arrependido.
A história está cheia de situações de contradição. Eu continuo a pensar que enquanto houver exploração e injustiça, é justo a revolta, e portanto, não ouvirão de mim a ideia de que os injustiçados e os explorados não podem resistir.
Nós sabíamos que o 25 de Abril, tal como se estava a dar, ia dar no que é hoje.
Mas vocês tentaram evitar.
Evitar que a festa não acabasse. É evidente que havia os céticos. E havia aqueles como eu, que diziam assim: "Eles tinham que levar uma lição. Por isso, simplesmente, a gente vai acabar presos ou mortos, mas isto vai acabar". Introduziu-se que não era possível resistir de armas na mão e exterminar o capitalismo em social-democracia. Hoje já começa a haver uns pozinhos por causa das redes sociais. Mas até aqui, há 15 anos, 20 anos, 25 anos. Mesmo aí a malta antiga: "Vocês são doidos, vocês são completamente malucos".
Por exemplo, um ex-operacional dirigente das FP 25 disse-nos o seguinte: "A questão das mortes é tão subjetiva, as mortes são todas relativas". Ou seja, sempre que olharmos para uma morte de uma vítima das FP, temos que olhar para todas as outras que eles defendem que na altura aconteceram e que os levaram a agir. Ou seja, há muito também essa teoria, essa ideia de que as FP 25 são uma reação àquilo que estava a acontecer no país nessa altura. E falam nos despedimentos, falam na pobreza, falam nos suicídios, que na altura começaram a surgir como resposta de muita gente desesperada, sem dinheiro e sem trabalho também.
Há sempre um ângulo quando observamos um acontecimento. O acontecimento não é absolutamente neutro, há sempre um ângulo. E a realidade das FPs tinha um contexto mundial, europeu e português. E podíamos passar os dias, já tenho refletido muito sobre isso, como compreenderá, faz parte da minha vida, mas a realidade é que isso tinha um contexto. E tinha um contexto dos dois lados. A situação que se vivia em Portugal era uma situação de enfrentamento e de vários ajustes de contas. As mortes nunca se justificam, mas acontecem em contexto.
José Barradas foi o primeiro arrependido do processo e o único operacional a ser morto pelas FP 25. A filha, Paula, tinha oito anos.
Sei que a minha mãe foi-me buscar ao restaurante e que íamos ter ao carro onde estava o meu pai. Ouvi os tiros, a porta a abrir-se, o meu pai a cair e foi isso. Não vi nada porque aquilo era só arbustos. Primeiro era uma estrada que agora não está fechada, mas era a vala, ele foi encontra o poste e vi isso tudo. Eu e a minha mãe.
E depois, na altura, seu pai foi para o hospital.
Sim.
Onde ainda esteve...
Em São José.
Ainda esteve bastante tempo internado.
Sim. E a minha mãe também diz que mesmo aí tentaram não matar.
Como?
Desligando as máquinas. Não sei se é verdade, se é mentira. Foi o que ela me disse.
E a verdade é que seu pai acabou por morrer no hospital. Só houve um operacional das FP 25 a ser assassinado pela organização, apesar de vários terem deposto em tribunal contra os antigos camaradas de armas. Esse operacional foi o José Manuel Barradas, foi o primeiro arrependido, que foi perseguido e foi morto com uma série de tiros de metralhadora num descampado que havia atrás da casa onde ele morava, na Costa da Caparica.
Pelo que a minha mãe diz é que ele estava farto de ficar longe da família e queria estar na casa dele e perto da família.
Não queria estar fugido.
Ele não devia ter vindo à casa da Costa da Caparica, mas ele quis vir e ligou de tarde, talvez.
António Coutinho, da Judiciária.
Eu não tenho agora muita certeza, mas acho que ele ligou já estando na casa dele na Costa da Caparica. Ele sabia que tinha vários indivíduos na Costa da Caparica que o conheciam. Esses indivíduos vieram e foram diretamente para lá. Verificaram que o carro dele estava lá e era só esperar por ele. Quando ele vinha a sair, metralharam-no.
E a Paula, que na altura tinha oito anos, era filha deste antigo operacional. Ela nunca tinha falado, aceitou falar conosco e partilhou o trauma que isto lhe causou e que perdura ainda hoje.
A minha mãe mostrou-me os jornais de antigamente e as minhas tias, porque dantes eu não conseguia nem sequer abrir a boca. Tive em psicólogos e agora esse problema já consigo, já desabfo.
A Paula assistiu a tudo?
Sim.
As FP-25, que entre 1980 e 1987 foram responsáveis por 13 homicídios, 66 atentados à bomba e 99 assaltos a bancos, só viriam a cessar oficialmente a atividade em maio de 1991, quando chamaram os jornalistas para uma entrega simbólica de armas à porta do Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. 30 anos depois, Tânia Pereirinha, onde estão estas pessoas?
Estão em todo lado. Estas pessoas estão perfeitamente reinseridas na sociedade e encontramos, não que tenham querido falar conosco, mas encontramos professores do ensino básico, encontramos professores do ensino superior, encontramos intelectuais, encontramos empresários, encontramos candidatos partidários. Há até um antigo jornalista, o Luís Filipe Goberne Lopes, que era conhecido nas FP-25 como o Anarquinho, que é o principal organizador de um almoço anual que desde 2014, se não estou em erro, junta os ex-operacionais e as suas famílias e que acho que foi interrompido agora durante a pandemia.
Já disse ao Luís: "No final do ano temos que apoiar os jornais que estamos a organizar". Isso também não gosto. A gente já não organiza nada. A gente pode dar a opinião, certo? E podemos, numa organização legal, ter alguma influência de linguagem. Isso podemos ter.
Por exemplo, o António Manuel Batista Dias, que de acordo com a acusação do Ministério Público, participou em vários assaltos e vários atentados à bomba e que foi um dos últimos operacionais a cair, já em agosto de 1987, no dia em que morreu o agente da Polícia Judiciária, Álvaro Militão, que foi a última vítima mortal das FP-25. Este ex-FP-25 é um elemento que já recebeu várias distinções municipais. Aliás, em 2001, 10 anos depois de ter saído da prisão, recebeu a Medalha de Ouro da Cidade, na categoria Cultura. E depois há o José Soares da Silva Neves, o Tozé, que também era conhecido por alguns como Conceição, que foi um dos dirigentes das FP-25. Era a pessoa responsável por escrever as atas da direção político-militar do Projeto Global, na altura. Hoje, o Tozé é doutorado em Sociologia da Comunicação, da Cultura e da Educação, é professor do departamento de Sociologia do ISCTE, em Lisboa, é investigador e subdiretor do CIES, o Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, também do ISCTE. E mais do que isso, entre 2017 e 2019, ele foi, por quatro vezes, parte de júris que avaliaram e elegeram os novos candidatos a juiz e magistrados do Ministério Público no CEJ, o Centro de Estudos Judiciários. Nós contactámos este ex-operacional, não obtivemos qualquer resposta. Contactámos também o CEJ para perguntar se não há aqui um conflito de interesses. Quer dizer, um ex-condenado por terrorismo a escolher magistrados e juízes, mas não obtivemos resposta também.
Álvaro Militão, de 32 anos, foi a última vítima mortal das FP-25. A 16 de agosto de 1987, exatamente um ano e meio depois do homicídio do diretor-geral dos Serviços Prisionais, Gaspar Castelo Branco.
A última vítima foi um agente da Polícia Judiciária, o agente Álvaro Militão, que acabou por sucumbir no último grande embate entre os operacionais das FP e as forças de segurança. Isto aconteceu bem depois da Operação Órion, aconteceu em agosto de 1987, portanto, três anos depois. Estavam em liberdade alguns operacionais das FP, que eram perseguidos, mas ainda não tinham sido apanhados. Foram detetados em Lisboa nesse dia de agosto, foram perseguidos, houve um tiroteio e o agente Álvaro Militão, que na altura tinha 30 anos, pouco mais do que isso, acabou por morrer.
E alguém foi condenado ou houve indenização?
Alberto Teixeira de Carvalho, que foi o operacional das FP-25 que foi considerado culpado por este homicídio, foi condenado a pagar-lhe uma indenização, coisa que nunca fez, e a Comissão de Proteção às Vítimas de Crimes Violentos estabeleceu isso mesmo, que ele não tinha condições para pagar Ainda assim, este ex-operacional candidatou-se a fundos do Ministério da Agricultura quando saiu da prisão. Foram-lhe concedidos cerca de 30 mil contos na altura, com os quais ele fez as empresas que ainda hoje tem. Aliás, ele hoje é um empresário de sucesso no ramo da agricultura e é presidente de uma série de associações na zona de Barcelos. Para vermos como isto é paradoxal, Alexandra Abreu, que é viúva do agente que foi morto pelas FP 25, que estava grávida na altura, que chamou Álvaro ao filho que nasceu e que veio a perder dois anos depois, apenas, com problema cardíaco, nunca recebeu indenização e anos depois, contou a nossa colega Rita Tavares no "I", em 2015, ela tentou candidatar-se a uma linha de crédito para novas empresas e esse pedido foi recusado.
Alexandra Abreu não recebeu o dinheiro para criar o próprio negócio. As irmãs Maria Helena e Maria Cristina e os outros dois irmãos, e também a viúva de João Mesquita Oliveira, não receberam qualquer indenização, porque o pai já tinha morrido quando o caso se resolveu. Manuel Castelo Branco ainda hoje não compreende os valores das indenizações que foram pagas, nem o esquecimento coletivo em relação às vítimas. Também não perdoa que o Estado não se tenha feito representar ao mais alto nível no funeral do pai, onde esteve o ministro da Justiça. Delfina Batista, que perdeu o filho de quatro meses, recebeu anos mais tarde alguns euros pela destruição da casa. Estes são apenas alguns dos casos que ilustram o sentimento de injustiça que perdura até hoje e que é partilhado pelas vítimas. Neste episódio, fomos referindo o nome de 12 das 13 vítimas mortais das FP 25. Falta o nome de Rogério Canha e Sá, de 63 anos, morto a 29 de maio de 1984, em Santo António dos Cavaleiros. Era um dos três administradores indicados quatro anos antes pelo Estado para gerir a nacionalizada Gelmar, a empresa gigante dos congelados. Como todas as manhãs, Rogério Canha e Sá encaminhou-se para apanhar o autocarro para o trabalho. Foi baleado na paragem. Sobre a investigação, o processo, o julgamento, a anistia e os indultos e também o papel de Otelo Saraiva de Carvalho nas FP 25, vamos falar noutros episódios desta série. As entrevistas e a recolha de informação para este trabalho foram feitas pelas jornalistas Tânia Peirinhas e Sónia Simões. A sonoplastia é do Diogo Casinha, da Beatriz Martel Garcia e do Bernardo Almeida. Eu sou o Ricardo Conceição.