Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Sejam bem-vindos. Começa agora um novo episódio de "Filhos da Nação", o programa da Rádio Observador que lhe mostra como nenhum outro as origens familiares dos candidatos à Presidência da República. Eu sou o Pedro Rainho, aqui em estúdio comigo está o Rui Pereira, secretário-geral da Associação Portuguesa de Genealogia e o homem que passou os últimos meses a revirar arquivos, a consultar registros de nascimento, certidões de casamento e outros documentos oficiais desse país fora. Rui, muito bem-vindo.

Obrigado.

Esta investigação permitiu ao Rui elaborar o relatório genealógico de oito candidatos às eleições de 18 de janeiro e com isso ficamos a conhecer pais, avós, bisavós e antepassados de há mais de quatro séculos. Como se chamavam, por onde andavam, o que faziam, por aí fora. Também ficamos a conhecer os primos famosos dos vários candidatos. No programa de hoje vamos conhecer mais em detalhe as raízes, as origens de Jorge Pinto e a trabalheira que este candidato deu. Rui, um dos problemas com a árvore de Jorge Pinto foi o timing, porque o candidato apoiado pelo Livre só apresentou formalmente a candidatura já no início de novembro e isso deixou muito menos tempo pra investigação. Mas também houve, creio eu, outro problema relacionado com os arquivos em Amarante. Pode explicar-nos melhor qual foi a dificuldade aqui?

Sim. Para que os ouvintes percebam, por motivos de privacidade, perfeitamente compreensíveis, não é possível a qualquer pessoa aceder indiscriminadamente aos registros mais recentes. No caso dos registros de nascimento, essa limitação aplica-se até aos 100 anos, o que atualmente significaria até 1925. Na prática, por uma série de razões, as coisas acabam por levar mais tempo e ainda há pouca coisa disponível para consulta online posterior a 1911. O problema aqui é que na zona de Amarante é pior. Só há registros online até 1893. Ora, para se procurar um batismo, temos que saber os pais da pessoa, o que significa que a pesquisa em si só podia avançar a sério quando conseguíssemos pedir e obter do registro civil os nascimentos de todos os antepassados nascidos daí pra frente.

De 1893 pra frente.

Exatamente. Junte-se a isto a combinação quase explosiva deste ser o trabalho em que tínhamos menos tempo e aquele em que o candidato era mais jovem.

Pois, essa particularidade faz.

Portanto, com mais antepassados recentes em que precisávamos desses registros. Precisávamos pedir os registros dos bisavós, pessoas que ainda nem sabíamos quem eram, nem muito menos as datas, portanto, precisávamos pedir registros para depois ver o que lá estava e pedir mais registros e só depois começar a pesquisa a sério e já estávamos a começar em novembro.

Lá foi possível chegar aos registros com a colaboração também da jornalista Maria Rego e a partir daí, como dizia, a investigação avançou. E uma das primeiras constatações ao que vamos recuando de geração em geração, é que fica cada vez mais claro que esta é uma verdadeira família amarantina, ali da zona de Amarante, porque durante centenas de anos andaram todos ali pela mesma zona.

Sim. Sem deixar de dar os meus parabéns à Maria Rego, que segundo percebo, teve um curso acelerado de pesquisa genealógica no Arquivo Distrital do Porto. Nós aqui, quando falamos de António José Seguro, dissemos que ele tinha a ascendência muito concentrada, porque até os três avós, todos os antepassados eram do mesmo distrito. Ora, no caso de Jorge Pinto, eles são todos do mesmo concelho.

Ainda mais concentração.

Embora de nove freguesias diferentes, mas são todos do mesmo concelho. Realmente é uma ascendência muito concentrada, o que é já relativamente invulgar já pra uma geração mais recente, como é este caso.

Ou seja, que não teve uma migração pras zonas mais litorais ou mais populacionais. Se bem percebi pelo relatório que o Rui elaborou, há ali referências a Luís da Costa Cotoviu. Ele é tetravô do Jorge Pinto, nasceu em 1856, também natural de Amarante, mas tinha uma ligação a uma freguesia, Lageosa d'Odělo. Quem também tem antepassados ali é Henrique Gouveia e Melo. Isso quer dizer que os dois são primos?

Pois, há aqui uma situação, porque nós temos José Luís da Costa, o filho de Luís da Costa Cotoviu, que já nasce na freguesia da Várzea, concelho de Amarante, como todos os três avós. Este é um bisavô, como todos os três avós de Jorge Pinto, que nós conhecemos. E ele nasce, curiosamente, na quinta do doutor Gil da Rocha Cardoso e Melo. E nós depois vamos perceber, por consulta aos registros de Lageosa d'Odělo, que o doutor Gil da Rocha Cardoso e Melo tinha vindo de Lageosa d'Odělo. E, portanto, percebe-se que os pais de José Luís da Costa, que vieram da zona de Lageosa d'Odělo, vieram já casados, com certeza trabalhariam para este senhor Gil da Rocha. E realmente, Luís da Costa Cotoviu, o marido deste casal, ele era natural exatamente da freguesia de Lageosa d'Odělo, que é onde nasceu o bisavô Melo, de Henrique Gouveia e Melo. Poderia eventualmente aqui haver alguma ligação distante entre os dois candidatos, só que infelizmente há uma falta de registro em Lageosa d'Odělo que não nos permite saber muito sobre a ascendência de Luís da Costa Cotoviu, só conseguimos saber os pais e portanto ficamos aqui, se calhar, com uma linha por explorar.

Ok, não é possível fechar essa linha de investigação, pelo menos por agora. Há uma certa curiosidade pra perceber qual é a história dos apelidos com que os candidatos se apresentam, não só agora, mas na sua vida política e profissional anterior, claro. Neste caso, não estamos a falar de um apelido propriamente incomum. Isso torna a investigação mais difícil ou até mais fácil? Ou pode dizer-me que não há aqui qualquer relação entre o apelido em si e a maior ou menor facilidade de investigação? Como é que é isto?

Às vezes há alguma relação. Por um lado, nos nomes menos comuns, quando se faz uma pesquisa em grandes listas de pessoas, grandes listas de registros, se se encontrar alguém com o mesmo apelido, especialmente se se souber que é da mesma terra, provavelmente é parente. Com os nomes comuns, já não é nada assim. Por outro lado, há um inconveniente que é: os nomes menos vulgares tornam-se mais complicados, porque se estivermos a consultar algum índice, alguma base de dados, vamos muitas vezes encontrar o nome mal escrito.

Variações, não é?

É mais do que variações. Por exemplo, imagine uma pessoa de apelido Parreira. É um apelido que existe. Não é assim muito comum, mas também as pessoas de vez em quando ouvem falar desse apelido. Um Parreira, salvo erro, é o José Roquete, o empresário, é o apelido materno dele, salvo erro. Mas se uma pessoa estiver a consultar, uma pessoa que não conheça nada da zona ou da família, estiver a indexar registros com 200 ou 300 anos e a letra não for muito fácil de ler, ou até que seja, se calhar está borrado, olha para lá, Parreira, a primeira coisa que pensa é: se calhar é Pereira ou Ferreira. Não vai pensar que é Parreira. E depois a pessoa está à procura de um Parreira e não encontra por causa disso. Esse tipo de situação pode acontecer.

E pode criar esse tipo de dificuldades. Então vamos aqui ao caso concreto. Pinto, o apelido deste candidato. De onde é que ele surge? Qual é a origem deste apelido?

Este é um bom exemplo de que ter um apelido comum não ajudou a pesquisa, porque os livros existem. Nós conseguimos chegar ao sexto avô João Pinto, que deve ter casado por volta de 1800 com Maria Cerqueira. Este casal viveu na freguesia de Telões, no Conselho de Amarante, claro, como não podia deixar de ser. E depois, realmente, digamos que não há falta de registro, há excesso de registro, há muitas pessoas chamadas João Pinto, de tal forma que se tornou ali uma confusão que não foi possível apurar qual era exatamente o João Pinto correto para continuar a linha de ascendência. Ao certo, sabemos que este João Pinto é o sexto avô de Jorge Pinto, teve um filho chamado Gaspar Cerqueira Pinto e depois um neto, Joaquim Pinto. Este Joaquim Pinto nasceu em 1829 e é ele que vai para a freguesia de Cepelos, onde a partir daí nascem todos os membros desta linha. Ernesto Pinto em 1870, outro João Pinto em 1906. Depois nasce Álvaro Ernesto Pinto em 1929, que foi presidente da Junta de Freguesia de Cepelos, e tinha provavelmente o Ernesto por causa do nome do avô. E depois nasce Eduardo Jorge de Medeiros Pinto e, finalmente, Eduardo Jorge da Costa Pinto, que é mais conhecido pelo segundo nome, Jorge Pinto, e que, tal como dissemos no caso de António Filipe, não será para se distinguir do pai, porque este Eduardo Jorge é filho de outro Eduardo Jorge, tal como António Filipe é filho de outro António Filipe.

Estava com esperança que encontrasse algum João Pinto com cruzamento notável com este Jorge Pinto já no século XX, seria de boa memória, um grande jogador de futebol. Não foi o caso. Nós estávamos ainda agora a falar da concentração geográfica na história familiar de Jorge Pinto, mas de repente somos obrigados a dar um salto gigantesco, vários milhares de quilômetros, e vamos parar ao Uruguai. Consegue explicar-nos por quê?

Consigo. Nós somos obrigados a ir para essa distância toda, porque se recuarmos algumas gerações num ramo materno da ascendência de Álvaro Ernesto Pinto, o tal avô presidente da junta que acabamos de falar, nós chegamos a Manuel António Ribeiro e Ana Maria de Jesus Álvares, que são os sextos avós de Jorge Pinto. Eles são os pais de uma quinta avó chamada Quitéria Ribeiro, mas também são os pais de António Ribeiro da Silva Bastos, que emigrou para o Uruguai e se estabeleceu como negociante em Montevidéu.

Então, a partir dessa imigração dos sextos avós de Jorge Pinto, vão acabar por surgir ligações familiares a várias figuras, diríamos, até alguma relevância social e política no Uruguai. Consegue dar-nos alguns exemplos de quem são essas figuras?

Sim, temos o caso de um neto deste António, que emigrou pro Uruguai, chamado Ricardo Ribeiro da Silva Bastos Peltzer, ou Ricardo Bastos Peltzer, como era mais conhecido. Este nome Peltzer é de origem alemã.

Era o que ia perguntar precisamente.

Porque quando vamos para fora da Europa, naturalmente começam a aparecer estas famílias com uma origem. Enfim, não são todos de Amarante, digamos.

Certo, têm outras origens.

E este senhor, Ricardo Bastos Peltzer, foi médico e chegou a ser presidente do Sindicato dos Médicos do Uruguai na primeira metade do século XX.

Mas eu recordo-me de ver referências a outras figuras políticas uruguaias. Conseguiu encontrar uma relação familiar com outras personalidades do país?

Sim. Portanto, este médico, Ricardo Bastos Peltzer, teve uma irmã chamada Maria Angélica Bastos, ou Maria Angélica, como provavelmente diriam no Uruguai, que casou com Raul Costemalle, engenheiro. Este Costemalle é francês. E deste casamento de Maria Angélica com Raul Costemalle, nasceu em 1924, Susana Costemalle Bastos, que faleceu ainda não há muitos anos, já com mais de 90 anos de idade, e casou com Rodolfo José Raffo. Este apelido Raffo é de origem italiana. Rodolfo José Raffo pertencia a uma família de empresários, mas já com ligações à política. O pai dele foi senador e chegou a ser presidente do Senado do Uruguai. E a tradição política deste lado paterno prosseguiu, porque tiveram um filho, Juan Carlos Raffo. Tiveram e têm, o senhor ainda é vivo. Nasceu em 1946 e já foi deputado, senador e ministro dos Transportes e Obras Públicas do Uruguai. A tradição ainda não para aí, porque Juan Carlos Raffo tem três filhos, sendo a filha do meio Laura Raffo, que nasceu em 1973 e foi candidata nas mais recentes eleições presidenciais do Uruguai em 2024. Ficou em segundo lugar das primárias do seu partido, que é o Partido Nacional de Centro-Direita, e que tem sido nas últimas décadas o segundo maior partido no Uruguai. Portanto, Jorge Pinto nem sequer é o primeiro candidato presidencial nesta família.

Com um posicionamento político claramente diferente da prima afastada, mas ainda assim dois candidatos presidenciais, um de cada lado do Atlântico. Rui, só a título de curiosidade, António Silva Bastos é, de alguma forma, o culpado destes parentescos de Jorge Pinto com as tais figuras no Uruguai. O apelido português, esse apelido Silva Bastos, desaparece rapidamente nesta fusão cultural?

Nesta linha que eu estive a falar, a última geração que usa o Bastos, neste caso, é a Susana Costemalle Bastos, que é portanto a mãe de Juan Carlos e avó de Laura Raffo. Nas primeiras gerações, é curioso que eles mantinham como apelido, em Espanha ou nos países de língua espanhola, usa-se sempre um apelido paterno e um apelido materno. Eles durante duas ou três gerações fizeram questão de manter o bloco completo como apelido paterno, Ribeiro da Silva Bastos, embora, por exemplo, Ricardo Bastos Peltzer o abreviasse por motivos práticos. A certa altura começaram a usar só Bastos. É possível, até provável, que haja alguns ramos que ainda possam usar o apelido, mas foi algo que não tivemos ainda oportunidade de explorar.

Que acabou por... ficamos com essa dúvida. Rui, entre os amarantinos que estão na origem da família do candidato e essa migração para o Uruguai O que distingue este relatório? Vou dizer de outra forma: o que é que o surpreendeu?

Há duas coisas que me surpreenderam aqui. A primeira tem a ver com o Uruguai. Não é a existência de um ramo nas Américas, um ramo da família, isso é algo muito comum. Praticamente todas as famílias portuguesas têm pessoas que emigraram para a América do Sul, para a América do Norte, ao longo dos séculos 19 e 20, mas normalmente, é muito difícil seguir esses ramos a partir da Europa. Só que aqui tivemos o tio do Uruguai a ser padrinho de uma sobrinha neta em 1859, com o registo a dizer expressamente que o senhor era negociante em Montevidéu, que foi uma sorte. Normalmente, seria o contrário. Seria alguém do Uruguai que ao fazer a pesquisa, descobria antepassados portugueses e nos vinha contar que havia lá descendência dessas pessoas. E depois tivemos também, para podermos fazer esta pesquisa, enfim, estas coisas que acontecem na era da internet, que é mais fácil descobrir pessoas de Montevidéu do que de Amarante. Parece um pouquinho paradoxal, mas não é.

Uma pesquisa rápida e se houver alguma notoriedade da pessoa, rapidamente se encontra essa referência.

Não, o que é espantoso é que mesmo no final do século 19, estão online registos da mesma época que nós não temos online os registos de Amarante, mas temos os registos de Montevidéu, mais facilmente pesquisáveis.

E nesse caso deu-

E deu imenso jeito.

Deu imenso jeito. Rui, obrigado. Diga.

A segunda coisa foi o fato de uma sexta avó de Jorge Pinto, Maria Luísa, que nasceu em 1764, ser afilhada de um padre natural de Amarante, como não poderia deixar de ser, chamado Paulino António Cabral de Vasconcelos, que era o abade da paróquia em que ela nasceu, Jazente. E este padre, geralmente conhecido por Abade Jazente, é um poeta famoso do século 18, que é o autor de um soneto, que é provavelmente o mais famoso poema português sobre a genealogia, em que se refere o fato de sermos todos parentes de gente rica e de gente pobre.

Sim, senhor. Rui, muito obrigado.

Obrigado eu.

Nós num próximo episódio vamos voltar a percorrer os ramos familiares de outro candidato às presidenciais de 18 de janeiro. Voltamos por isso em breve. Muito obrigado.