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Começa agora mais um "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de adolescentes sem Photoshop. O Eduardo escreveu um texto em que refere que as redes sociais se transformaram no negativo do espelho mágico da madrasta da Branca de Neve, onde falta sempre um bocadinho aos adolescentes pra se sentirem perfeitos. Por que a beleza acaba por deixar estes adolescentes se sentirem quase feios diante desse ecrã?
Judite, porque aquilo que eles veem nas redes sociais tem toneladas de Photoshop. Porque, afinal de contas, também lhes traz um conjunto de adolescentes da idade deles, muito mais ousados, muito mais produzidos, muito mais capazes aos olhos de quem os observa. E porque, de fato, aquilo que aparece, aparece de uma forma que se calhar acaba por ser transversal a todas as revistas cor-de-rosa. Isto é, de repente, as pessoas parecem não ter perplexidades, sobressaltos, dúvidas, os seus momentos assim assim, os seus medos e outras coisas do gênero. E, portanto, ao pé do lado humano de cada adolescente, estas imagens que lhes são trazidas são tão inacreditavelmente perfeitas que mal eles olham pra elas. Às vezes não é um bocadinho, Judite, são realmente muitos bocadinhos. Começando pelo corpo, por causa das medidas mais ou menos exatas de uns ao contrário dos outros, à maneira como se produzem, àquilo que vestem, àquilo que dizem, àquilo que fazem, à maneira como se exibem. E, portanto, nessas circunstâncias, é claro que confrontar-se com esses adolescentes deprime-os um bocadinho.
Menciona com preocupação neste texto que o Botox e as pequenas cirurgias estéticas são cada vez mais frequentes entre os jovens.
Isso é outra história. Sim, desculpe.
A minha pergunta era se na adolescência tudo se compreende na forma como constroem o corpo, o que é que nesta procura pela perfeição cirúrgica deve inquietar mais os pais?
A procura da perfeição, Judite. Evidentemente que eu gosto que eles se sintam bonitos, que fique claro e que trabalhem pra isso, se for o caso. Mas está a chegar a Portugal aquilo que eu vi durante muitos anos no Brasil, que são os adolescentes a recorrerem à cirurgia plástica e à cirurgia estética de uma forma às vezes obsessiva.
E com o beneplácito dos pais.
A todos os níveis, porque ainda por cima pagam tudo isso. Portanto, não só autorizam, como pagam. Eu lembro de uma adolescente de 17 anos, que me confessaram num congresso no Brasil, que com 17 anos já tinha feito 17 cirurgias plásticas. Era um umbigo, um centímetro espalado, era uma rinoplastia, era o volume mamário, era mais Botox nas nádegas. Eu tenho sempre muito medo disto, porque enquanto este tipo de causas preencha a atenção dos adolescentes, às vezes é o nariz. Há sempre ali uma curvinha a mais no nariz que os incomoda, quase como se dissessem: "Mas diabo do nariz, se não fosse ele, eu tinha o rosto absolutamente perfeito". E, portanto, eu gosto que eles trabalhem pra isso. O que me preocupa? Duas coisas, Judite. Primeiro, esta fuga pra frente na construção de uma imagem. Eles constroem uma imagem meticulosamente, desde a marca dos tênis a tudo mais, mesmo a maneira como constroem um vocabulário ou fazem uma pose com a mão. Portanto, esta procura da imagem. E, por outro lado, em paralelo a isto, uma certa resignação dos pais em relação aos maus modos que muitos têm, sempre com a desculpa que são adolescentes. Ora, vamos lá ver, eles podem ter saltos de humores, mas que fique claro que um adolescente não tem por inerência, lá por ser adolescente, de tratar mal os pais, de estar invariavelmente a marcar os ritmos da família ou, de alguma forma, a dinamitar os ritmos da família e a criar um clima mais ou menos incendiado. E, portanto, são estes dois aspetos em conjugação que me preocupam, porque eu gosto que eles sejam bonitos, mas eu gosto que eles sejam bonitos por fora e por dentro. E às vezes os pais deixam ser. Os pais, as escolas, porventura nós, deixam ser, como se não tivessem toda a legitimidade no mundo de dizer: "Senhora, meus amigos, já agora Vamos ser as melhores pessoas que vocês conseguem ser. Ao pé de nós. Não é ao pé dos vossos amigos ou ao pé de estranhos, é ao pé de nós. Porque se nós fizermos esta exigência, saímos todos a ganhar. Todos. Se nós vamos dando gás à construção de uma imagem e tudo o resto parecem questões de segunda categoria, e a única coisa que nos preocupa é que tenham bons resultados escolares independentemente do resto que nos vai merecendo reticências, ó meu Deus, eu pergunto o que é que nós ganhamos com isto? De que maneira é que nós estamos a ajudar? Será que isto é crescer de uma forma saudável ou antes pelo contrário?
A dada altura no artigo diz que os adolescentes parecem crer que a imagem e só a imagem faz deles qualquer coisa de diferente. Qual é o perigo de estenderem essa imagem de fora para dentro?
É enorme. Eu escuto muitas vezes o desabafo de muitos deles a dizerem isso mesmo. "Seja o que for que eu faça, eu tenho que fazer alguma coisa diferente." Sejamos razoáveis. Basta eles serem o que são, que já são qualquer coisa de diferente. E parece que aquilo que eles são não chega. Parece que eles no fundo têm que marcar uma tão grande singularidade em relação a tudo aquilo que parece mais ou menos homogéneo nos outros, que a certa altura se perdem numa espécie de areia movediça. E o risco é este: eles às vezes trazerem para dentro deles pontos de vista, causas e outras coisas do gênero, que se calhar intimamente até não têm muito a ver com o que são. Mas é como se fosse tal a avidez de marcarem uma diferença, que a seguir nem olham as consequências, vão por diante. E às vezes marcam as diferenças num registo tão impulsivo, Tita, que depois quando se dão conta, os grupos de que fazem parte, que são muito claros, muito intuitivos, todos eles, independentemente da maneira como vão fazendo este tipo de percursos de forma mais ou menos semelhante, depois são muito implacáveis quando percebem que há algumas diferenças que eles assumem aos mais diversos níveis, nos pontos de vista político, social, relacional, etc. Depois quando percebem que os grupos não dão um aval às diferenças que eles construíram, eles sentem-se muitas vezes perdidos, Tita. E é muito comum, muito mais do que os pais imaginam. Este sentimento, "eu construí uma imagem até para eu tentar gerir todos os solavancos que a adolescência dá dentro de mim" e chega a uma altura que eu olho para mim e pergunto assim: "Mas afinal quem é que eu sou? Sou esta imagem ou sou outra pessoa que não é esta imagem?" E, portanto, eles muitas vezes, muito mais do que os pais imaginam, sentem-se despersonalizados. E isso não é uma consequência inevitável da adolescência, é uma consequência de quem constrói uma imagem e a compõe com tantos pormenores de fora para dentro, que a seguir é como se fosse uma máscara de ferro à qual ficam presos, sem a qual parecem não ser capazes de funcionar, mas ao mesmo tempo, que querem muito tirar e não sabem como se faz.
É possível educá-los para a sensibilidade e para a beleza interior?
Claro que é. Eles são bons miúdos. Eles são mesmo bons miúdos. Nós é que às vezes somos um bocado tolos e criamos a ideia de que são adolescentes, logo estão autorizados a ser parvos. Eles não são nada parvos, são mesmo bons miúdos. Nós é que às vezes temos tantos preconceitos na cabeça, que entre nós, que nos vêm das redes sociais também, que temos dificuldade em perceber o que eles sentem, o que eles esperam da mãe e do pai. Porque às vezes os pais ficam tão perdidos entre serem pais ou serem o melhor amigo, ou às vezes atalharam caminho e procurarem as soluções mais bizarras que lhe possa passar pela cabeça para os ajudar a vencer algumas dificuldades, que a seguir era muito bom que os pais não fossem qualquer coisa de diferente, fossem só pais, com erros, asneiras, inseguranças, mas só pais, que é só o que eles precisam.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Pronto. Pronto para si, Tita. Até amanhã.