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Bem-vindos a mais um "Porque sim não é resposta". Hoje partimos de uma fotografia tirada pelo editor de fotografia do Observador, que está na Ucrânia e que registou uma imagem na estação de comboios de Lviv, que é difícil de esquecer. Uma imagem de uma criança numa carruagem com a cara encostada à janela. Tem a palma da mão contra o vidro como se quisesse tocar no pai, que está na plataforma do lado de fora do comboio. Sabemos pelo João Porfírio que este pai levou a mãe e o filho até à estação de Lviv e ali se despediu. Os homens dos 18 aos 60 anos, pela lei marcial, são obrigados a ficar em território ucraniano e a lutar. Feito este preâmbulo, Eduardo, vamos partir desta imagem para falarmos de como a guerra deve chegar às escolas. E boa tarde, Eduardo.

Olá, Judite. Olá, Bruno.

Olá, Eduardo.

Judite, eu acho que as escolas têm um papel absolutamente fundamental na formação das crianças. Acho muito importante que haja programas e que os programas sejam cumpridos. Às vezes fico preocupado com a maneira muito certinha, quase muito sufocante, como os programas têm que ser levados até à última letra e não há espaço para tudo o resto que é formação e que não é só uma formação cívica, por mais que o seja também, é uma formação que permite que os nossos filhos abram as cabeças e vejam a escola de dentro para fora e tragam o mundo para dentro dela. E, portanto, num contexto destes, eu acho que era tão importante que nós puséssemos, de facto, a escola a conversar sobre a guerra. Não é no sentido de elegermos os maus e os bons, mas é no sentido de podermos falar do bem e do mal e da forma como pessoas que têm tudo para ser pessoas inteligentes, iguais aos nossos filhos, de repente se extraviam. Umas porque cegamente cumprem ordens e não olham a quem e matam, outras porque dão essas ordens e entendem que criar, em qualquer lado do mundo, que fique claro, uma torrente de pessoas que se movimentam, que já passa de um milhão em pouquíssimos dias, com famílias que se separam, com pais e mães que se veem impedidos de continuar a ter uma vida tranquila como todos nós desejamos para nós e para os nossos filhos. Tudo isto é um fator tão fundamental de formação do caráter, mais do que tudo, do caráter dos nossos filhos, que eu achava urgente que as escolas arranjassem um dia, que pode ser um dia destes quase convencionado por todas, e se ponham a discutir a guerra, a escutar as crianças e os adolescentes acerca da guerra, porque isso pode ser um indicador preciosíssimo para nós não andarmos com a ideia de que elas andam razoavelmente distraídas em relação a isto tudo.

Nós podemos pensar como é que os professores podem abordar o tema. Não é fácil, até porque não vamos aqui discutir geopolítica com as crianças. Mas falando desse bem e do mal, até onde é que pode ir um professor abordar este tema?

Eu acho que um professor pode ir até onde a criatividade dele lhe permita ir. E não é fugir à questão. Eu acho que é muito importante que os nossos filhos tenham a noção, como outro dia estávamos a conversar entre nós os três, que as pessoas que se tornam más, por qualquer motivo, continuam a ser pessoas, por estranho que pareça. Continuam a ter uma cabeça, duas pernas, dois braços. Não têm um olho na testa, nem são verdes, nem se movimentam a cavalo de uma vassoura. São pessoas, por estranho que pareça, também têm filhos e também querem ser felizes e viver em paz. E às vezes, escutar é mais importante do que dar-lhes pontos de vista, escutá-los. Porque, acima de tudo, eu acho que é fundamental que os nossos filhos percebam que não é quando fazem uma birra que se tornam maus. Estas pessoas que se tornam más, tornar-se-ão por alguns motivos, mas a determinada altura parecem tão tomadas por uma cegueira que é incompreensível e movidas a um ódio que, de facto, para os nossos filhos acaba por ser estranho, que ainda assim é uma oportunidade fundamental para nós podermos trazer à discussão assuntos que muitas vezes estão interditos. E neste contexto, eu acho ótimo que nós possamos, acima de tudo, ouvi-las, que é uma coisa que nós ouvimos muito pouco. Se calhar, um dia destes, nós podíamos pedir aos ouvintes da Rádio Observador que nos façam chegar aquelas expressões que os nossos filhos todos os dias nos dão dentro de casa e que, no fundo, são uma espécie de mural que nos faz ter a noção das dúvidas, das inquietações e tudo mais, que é para depois nós lhes tentarmos responder. Isso era uma coisa muito bonita que nós podíamos fazer.

Fica o desafio, mas eu agora vou lançar-lhe outro, porque a comunidade ucraniana já é, neste momento, a segunda maior em Portugal e, portanto, há muitas crianças que têm como colega do lado um rapaz, um miúdo, uma rapariga ucraniana Como é que se aborda este tema com o filho ou a filha de alguém que está a passar pela guerra na sua terra?

Eu acho que acima de tudo nós temos que reabilitar o direito a estarmos tristes, o direito a estarmos assustados, o direito a sentirmos um bocadinho aterrorizados e sobretudo inseguros. Tudo ao contrário do que às vezes nós acabamos por fazer em muitos momentos. E portanto, em muitas destas circunstâncias, se há de facto crianças que são ucranianas, descendentes de ucranianos, que têm família na Ucrânia, por hipótese, e que fazem parte das escolas portuguesas, como acontece em tantos lugares deste país, nomeadamente de Lisboa até lá abaixo ao sul, eu acho muito importante que objetivamente, até nisso, os nossos filhos sejam trazidos a ter gestos simbólicos de carinho, porque é a única forma que nós temos de lhes dizer que independentemente do país em que eles estão, ser um país que parece estar a ser completamente arrasado por uma onda de desespero, ainda assim, há pessoas parecidas com elas que não se sentem indiferentes ao sofrimento delas e que às vezes nem precisam de falar. Só precisam de estender a mão e de estar mais perto pra que elas sintam que, afinal, o mundo ajuda-nos a perceber que quando o mal vem por aí adiante, as pessoas boas se revelam muito mais facilmente do que quando andamos todos distraídos.

Há pouco o Eduardo falava dessa necessidade de ouvirmos nas escolas, ouvirmos as crianças, o que elas têm pra dizer, em vez de lhes estarmos a dar lições e à procura de respostas instantâneas, ouvir. A escola está estruturada para ouvir as crianças e até para acolher estes temas do momento?

Os professores estão preparados pra tudo. Os professores são pessoas absolutamente fantásticas quando são desafiados, são capazes de trazer todo um conjunto de temas, de metodologias e de inquietações que vão pra além dos programas e que muitas vezes são muito mal aproveitados pelas escolas. E, portanto, eu acho que os professores, trazidos pra tudo isto, são as pessoas com maior generosidade que pode existir e que certamente estarão preparados pra isso. A única coisa que a mim me preocupa num contexto destes é que haja um programa informal pra discutir a guerra. Isso não. Acho que tem que haver espaços para escutar as crianças e os adolescentes em relação a isso, até pra nós levarmos murros no estômago e percebermos que elas são tão acutilantes e tão sérias, tão verticais na maneira como percebem isto tudo, que às vezes, mais do que elas aprenderem conosco, temos que ser nós a aprender com elas.

Mas esses espaços deviam já estar previstos, contemplados nos currículos. Esses espaços para ouvir, pra se respirar um bocadinho fora da matéria.

Eu acho que se conversa de menos. Conversar com o professor é uma coisa ainda mais importante do que escutá-lo quando ele nos fala de Matemática, de Português ou de Biologia. Conversar com ele, perceber que ele é capaz de contar histórias, que tem uma experiência que nos desafia, de algum modo, a segui-lo e a ser como ele. E, portanto, num contexto destes, não se trata de pôr os professores a discutir opções de partidos políticos, mesmo quando acham que, no fundo, não faz sentido condenar uma guerra, ou discutir temas como, por exemplo, o que é que significa desnazificar e ao mesmo tempo eliminar memoriais ao Holocausto. Não se trata disso. Trata-se de escutar, sobretudo, isto, que é o absurdo que uma guerra nos traz. De repente, quando tudo fica no lugar, ao fim de poucos dias, um país pode ser arrasado de uma ponta à outra e isso dá-nos uma dimensão tão periclitante das coisas, que quanto mais temos noção delas, mais aprendemos a estimar a vida e mais nos aprendemos a estimar uns aos outros. E se ao discutirmos isto numa escola, os nossos filhos passarem a estimar aquilo que têm da forma como às vezes não estimam, porque tudo lhes parece relativamente fácil e seguro. A guerra nunca serve pra nada, mas ao mesmo tempo pode ser um fator de formação absolutamente indispensável pra que eles cresçam mais pessoas.

Obrigado, Eduardo Sá, por mais este "Porque sim não é resposta." Nós estamos sempre disponíveis no site do Observador, em observador.pt, também nas plataformas habituais de podcast. Podem sempre escrever-nos também para eduardo.sa@observador.pt. Eduardo, até amanhã e obrigada mais uma vez.

Até amanhã, Eduardo.

Um abraço para os dois.