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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de relações. Do que precisamos numa relação. Olá, Eduardo. Vamos começar pelo princípio. O que uma relação precisa nos dar pra nos sentirmos felizes? Há um mínimo sem o qual não vale a pena?

Olá, Judite. Eu acho que o mínimo só é pouco. Precisa nos dar colo, começando pelo princípio. Colo no sentido de nos mimarem. E não é como se tivéssemos de ser crianças caprichosas. É como pessoas que compreendem que a existência de alguém muito importante na sua vida só faz sentido se essa pessoa for capaz de nos dar atenção com a delicadeza que tudo isso supõe. Precisamos ter alguém que seja motivo da nossa admiração e que seja sábio em muitos aspectos, de maneira a acrescentar tudo aquilo que nós temos às coisas que nós próprios achamos que sabemos. Precisamos ter alguém que não seja de porcelana e que aguente um conflito e que aguente também, já agora, as nossas birras, mas que saiba crescer com isso tudo, para que nós possamos ter a noção de que uma relação nos vira do avesso e nos obriga a crescer e nunca nos deixa mais ou menos quietos. Precisamos de alguém que seja capaz de não se partir quando estamos tristes. Às vezes nós temos a ideia de que estamos muito bem acompanhados e depois, quando estamos verdadeiramente tristes por alguma coisa que a nossa vida nos trouxe, temos uma surpresa muito desagradável, porque aquela pessoa em quem nós depositamos tantas expectativas ao longo de tanto tempo, parece não suportar a nossa tristeza, parece nem sequer ser capaz de a legendar com pormenor e de ter a delicadeza de lhe deitar a mão de forma a resgatar-nos. Precisamos de alguém que, nalguns aspectos, saiba conhecer-nos por dentro, às vezes melhor do que nós próprios nos conhecemos, e que por isso mesmo valide coisas nossas, boas, bonitas, de que parece que nos esquecemos e que quando são validadas, nos dão o compromisso de nós as levarmos a sério sem prescindirmos de partes de nós, etc.

Quando dizemos que alguém nos completa, isso é uma expectativa saudável ou realista?

Mais ou menos, Judite. Eu percebo a sua questão, que é muito fina, como habitualmente. Por um lado, é uma perspectiva saudável. Claro que sim, Judite, porque pressupõe que essa pessoa nos acrescenta muitos aspectos que até à sua existência, se calhar, não faziam parte de nós e que, portanto, por isso mesmo, são absolutamente indispensáveis pro nosso crescimento. Por outro lado, é fundamental que nós tenhamos a noção de que isto de completar, se for no sentido de uma alma gêmea, não, por favor, porque é como se andássemos à procura de um reflexo, mais do que alguém que traga todas as diferenças, sobretudo com as quais nós podemos crescer.

Hoje estamos numa versão mais reduzida do programa, mas não queria deixar de fazer uma última pergunta. Há quem entre numa relação à espera que ela resolva o que está mal cá dentro. Isso normalmente é complicado.

É uma expectativa legítima. Eu compreendo que seja legítimo, que é uma forma de nós depositarmos uma confiança muito grande numa pessoa, sendo certo que às vezes, sem nos darmos conta, inconscientemente, como gostam de dizer os psicanalistas, esperamos que ela seja tudo aquilo que as nossas relações amorosas não foram, que complete muitas lacunas, muitas páginas em branco e outras coisas do gênero que ficaram do nosso crescimento. E às vezes, sem nos darmos conta, temos uma expectativa tão grande, que ela resolva quase tudo, o que, se calhar, também tem que ser sobretudo resolvido por nós, não só, mas sobretudo por nós, que a determinada altura, quando pomos as fichas todas, como as pessoas costumam dizer, em relação a todos os episódios da nossa vida, sobre aquela pessoa e só sobre ela, é meio caminho andado para que o melhor dela nunca chegue, porque nós estamos a pedir qualquer coisa de tão absurdamente grande que, de repente, por melhor que ela faça, fica sempre um bocadinho aquém, pelo menos um bocadinho, de tudo aquilo que esperamos dela.

Eduardo, ficamos por aqui hoje. Voltamos na segunda-feira, porque vamos de fim de semana.

Estava a ficar assustado.

Estava a ficar assustado. Até segunda-feira. Obrigada, um grande abraço.

Até segunda, Judite. Prazer.