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Ter um fraquinho por alguém. Afinal, é normal essa mistura de admiração, atração, curiosidade, que tantas vezes nos apanha de surpresa? É mais comum do que pensamos, Eduardo? Olá, boa tarde.

Olá, Judite. Boa tarde. Ter um fraquinho é uma expressão lindíssima. Eu acho que é lindíssima, porque é assumir uma ligeira fraqueza diante das palavras do nosso coração e dar-lhe uma resposta. Portanto, sim, claro que sim. Nós estamos sempre muito atentos a todas as pessoas bonitas que estão à nossa volta. E mesmo quando parecemos distraídos, reparamos numa característica ou outra que elas possam ter e que nos levam a reparar com mais atenção e às vezes até com mais insistência. E quando damos conta, estamos muito mais atentos àquela particularidade daquela pessoa e o fraquinho vai se instalando. E é muito provável que depois o fraquinho dê um pequeno salto e haja um não sei quê de misterioso naquela pessoa que nos empurra pra conhecer melhor e que faz com que uma relação que de início era acidental, de repente ganhe uma luz especial.

Sim. Deve preocupar-nos de alguma forma?

O fraquinho? Não, Judite. Deve nos levar a dar graças pelo fato de a vida ter posto à nossa disposição pessoas que são bonitas. Que fique claro: um fraquinho não significa mais nada que isso. Às vezes, é uma ponta de charme, evidentemente. Às vezes, é um quanto basta de admiração. Mas o que é bonito é nós percebermos que são as pessoas bonitas na nossa vida que fazem a diferença. Às vezes, andamos todos tão atarefados e às vezes tão atropelados por coisas que não têm muito sentido, que quando de repente reparamos que afinal as pessoas são mais bonitas do que às vezes nos dias maus nós imaginamos, como não havemos de dar atenção a todas elas quando de repente nos trazem um argumento, um motivo, um pormenor que traz mais luz ao nosso olhar? Não, devemos ficar só agradecidos por essas pessoas existirem, por se terem cruzado acidentalmente na nossa vida.

Ter um fraquinho por alguém pode significar que a relação que essa pessoa tem em casa está constipada, como diria o Vivardo?

Às vezes pode. Sim, Judite, às vezes pode, mas calma. Eu não acho mesmo, Judite, que as nossas relações sejam assim tão descartáveis pra nós termos escolhido aquela pessoa pro pé de nós e sobretudo, quando nós entendemos que ela continua a ter todo o sentido ao nosso lado. Nós não somos essas pessoas tipo cataventos, que ao primeiro fraquinho, de repente, pegamos na mala e nos vamos embora. Não. Estes fraquinhos são formas fantásticas, digo eu, da vida nos interpelar e às vezes nos lembrar que nos perdemos em coisas muito complicadas quando as coisas simples estão ao nosso dispor e às vezes nós desperdiçamo-las. Portanto, não. Eu acho que quanto mais pessoas bonitas existirem na nossa vida, mais nós saímos a lucrar com isso. Agora, é verdade que às vezes somos surpreendidos, já num plano muito mais sério, por um fraquinho que de repente vai ganhando espaço e vai ganhando tração, como agora se diz nas redes sociais, e isso pode querer dizer que sim, que a relação que nós temos talvez esteja um bocadinho constipada, ou também é verdade, Judite, que às vezes os fraquinhos ajudam a constipar uma relação que nós achávamos que estava em boa saúde e que se recomendava, e que quando nós começamos a comparar a pessoa que nos suscita esse fraquinho mais relevante e a pessoa que nós temos ao lado, às vezes somos levados a perceber que pensávamos ter tudo e de repente somos encaminhados pra descobertas que nos levam a perceber que nos falta mais alguma coisa do que supunhamos.

Pode coexistir com uma relação feliz?

Pode. Judite, pode. Vamos que às vezes há pessoas que se tornam muito importantes na nossa vida E que podem ser só nossas amigas. Que ninguém imagine que eu estou a desvalorizar. Muito pelo contrário. E há pessoas que são mais do que nossas amigas, são amigas que se vão tornando um bocadinho íntimas, com quem nós podemos falar de coisas que não falamos a todos os amigos. E essas pessoas não têm que chocar de frente com uma relação feliz, pelo contrário, são pessoas que nos complementam e que nos dão um contraditório muito mais amplo, muito mais alargado a todas as pessoas que ajudam a que nós sejamos capazes de pensar de uma forma cada vez mais clarividente, cada vez mais aberta aos argumentos sobre os quais nunca tínhamos pensado e, portanto, cada vez mais capazes de ver mais longe. O fraquinho é muito bonito, porque muitas vezes é a fórmula que os adolescentes usam para reconhecerem que aquela pessoa com quem foram falando mais frequentemente começa a deixar de ser só sua amiga e passa a ter outro tipo de importância. Mas a verdade é que nós somos surpreendidos por pessoas por quem vamos tendo um fraquinho em relação a isto ou àquilo, e às vezes é só pela forma clarividente, luminosa, como elas pensam e que com isso nos ajudam a pensar melhor também.

E como é que se distingue um fraquinho de um início de algo mais?

Porque a certa altura, quando o fraquinho faz com que uma pessoa fique com taquicardia, percebe que ali já não é bem um fraquinho, já é um pequeno trotar do nosso coração, que nos leva a perguntar: "Meu Deus, o que está a acontecer que eu não tinha reparado?" O nosso coração fala por nós e nós somos fantásticos a avaliar o momento que estamos a viver, mas às vezes é bom que tenhamos a noção que na nossa racionalidade vamos dando leituras diferentes, todas elas válidas, mas depois há uma espécie de sistema oculto muito mais afetuoso, que vai juntando as pontinhas e vai fazendo as nuances. É como se tivéssemos uma capacidade notável para pegar em não sei quantos algoritmos e às vezes estes algoritmos todos mais ou menos silenciosos que existem dentro de nós, dizem-nos: "Olha, será que é só um fraquinho ou, pelo contrário, esta pessoa começa a expandir-se dentro de ti e passa a ser alguém que de repente tem outra força". O coração, quando começa a palpitar um bocadinho e quando nós sem querer estamos a pensar nessa pessoa e nos surpreendemos até com isso, significa que aí não é só admiração, já está a escorregar para um pouco mais.

É preciso ouvir os palpites do coração para saber.

Sempre. Não há como, não os ouvir.

Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, já sabem, escrevam-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Um abraço, Titi. Até amanhã.