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Como ajudamos uma criança que perdeu vários familiares a viver sem o pânico de perder também a mãe? Hoje vamos responder a um e-mail de uma mãe que nos conta que a filha perdeu várias figuras de referência, que até de alguma forma estruturavam o seu dia a dia e agora tem medo que a mãe morra. Olá, Eduardo. Como é que se ajuda uma criança assim?

Olá, Judite. Eu fiz um...

Um compasso de espera?

Eu fiz uma pausa pra respirar, porque é uma pergunta esmagadora, não é?

É uma história também, ela própria, difícil.

Terrível. Judite, não há como iludir uma criança a ponto dela não fazer aquilo que as crianças todas, aliás, fazem, e por maioria de razão fazem, quando há um conjunto de tragédias que se vão sucedendo na vida delas. Não há como iludi-las. Nós temos sempre a ideia que elas estão distraídas e que às vezes brincam e estão desinibidas e que parecem nem sequer puxar esses assuntos, e de facto não puxam. Mas, na verdade, não os puxam porque são de uma delicadeza e de um cuidado absolutamente fora do lugar em relação aos pais e, portanto, têm uma ideia muito precisa daquilo que os deixa frágeis e tristes e, portanto, protegem-nos. Mas não há como iludi-los. Basta que uma mãe de uma amiga fique doente, por exemplo, e isso acontece com todos nós, nas escolas dos nossos filhos, porque são escolas com muitas crianças, onde há sempre qualquer coisa que sai daquilo que nós entendemos que é o mais próximo do normal. E evidentemente, os nossos filhos acendem os sensores todos e passam a ser de um cuidado muito grande em relação aos pais. Às vezes o cuidado manifesta-se de uma forma um bocadinho paradoxal, Judite, que é: a mãe está constipada e uma criança, em vez de manifestar esse cuidado em relação à mãe, zanga se for preciso. Como quem diz: "Tu livra-te de te constipares", porque é natural e é compreensível que esta cicatriz fique lá e que estas crianças sejam tendencialmente um bocadinho hipocondríacas. Ou seja, qualquer sinalzinho que lhes dê a entender que a saúde está no amarelo em relação a uma função qualquer, elas fazem os filmes mais inacreditáveis, sempre imaginando que um sinal fora do sítio possa significar mais uma tragédia. Portanto, não há como a criança ignorar, pôr isto para trás das costas, nem há como assegurar, a não ser aquilo que as mães e os pais fazem de forma intuitiva, muito bem, dizer: "Olha, aqui exatamente ao contrário, livra-te que isso te passe pela cabeça, porque obviamente não vai acontecer nada à mãe, ponto." Ou indo mais longe, "a mãe não morre, ponto". Claro que os pais fazem isto por bondade, mas no fundo, deitando mão a uma solução talvez um bocadinho extrema, só para dizer: "Olha, eu estou aqui e enquanto eu estiver aqui, tu estás protegida."

É assim que se reconstrói uma sensação mínima, pelo menos, de segurança?

Mínima, Judite. Nunca vai pra além do mínimo, porque imagine que, entretanto, há um dos pais que desapareceu ou que há um ou dois avós de referência que desapareceram.

Foi o que aconteceu, dois avós e uma tia muito próxima.

Claro, Judite. Portanto, numa circunstância dessas, não vale a pena nós explicarmos aos nossos filhos que os avós morreram porque eram velhinhos, porque voltamos sempre àquela ideia de: "Bom, mas eles eram pessoas tão presentes, tão bondosas, tão inacreditáveis todos os dias. Em que parte desta equação é que entra a idade?" Não vale a pena nós termos essa ideia. E é importante que estejamos preparados para isso, porque é qualquer coisa de razoável. Só razoável que vai acontecer é que quando, ainda por cima, estas perdas estão num intervalo de tempo relativamente curto - e curto é, aos olhos de todos nós, imagine um ano, dois anos - evidentemente que os efeitos de uma perda não se manifestam no imediato. No imediato, aquilo que todos vamos ouvindo e as crianças funcionam de forma muito semelhante: "Bom, depois de acontecerem três perdas, eu neste momento já estou preparada para tudo." Que é uma maneira de dizer: "Bom, funcionemos." O problema é que depois de passar um mês, dois, seis, e desta poeira baixar e das crianças perceberem que a mãe e o pai já podem manifestar essas fragilidades todas que decorrem dessas perdas e falar das pessoas que não estão já não é tão atentatório ao equilíbrio dos pais, é que estas crianças finalmente Se manifestam tristes e, portanto, parece uma tristeza muito profunda ao ralenti, mas é a maneira saudável de elas se manifestarem perante uma espécie de efeito dominó que atropelou completamente a vida delas.

Portanto, vale a pena validar o medo ou tentar contrariá-lo?

Não, pelo amor de Deus. O medo é uma questão de sabedoria, sempre, para todos nós, para as crianças e para nós. Evidentemente, que à medida que ficamos mais velhos, temos mais medo, porque obviamente vamos sendo expostos a este tipo de acontecimentos. Tragicamente, uma criança pequenina não devia ter passado por tudo isto. E passando muito precocemente, o que é que acontece? Inevitavelmente, vai se manifestar desta maneira e durante muito tempo. Portanto, este medo é uma manifestação saudável, que vai ter tendência a existir durante algum tempo. Só depois de isto ir amenizando é que se vai manifestar como se fosse uma espécie de pirilampo. De vez em quando abre, de vez em quando fecha, mas sempre com esta cicatriz. Uma criança como esta, se a mãe tem o azar de dizer: "Olha, vou ao hospital", nem que seja fazer uma consulta de rotina ou uma análise qualquer, uma criança destas entra numa atmosfera nas vizinhanças do pânico, porque obviamente junta estas pontinhas todas e imagina qualquer coisa como: "Por favor, era só o que me faltava agora eu perder, por exemplo, a minha mãe ou o meu pai".

E nessas alturas é melhor esconder, não dizer que se vai a uma consulta?

Nessas alturas é melhor não dizer, claro. Claro que sim, porque se põe uma criança no estado de alerta e de uma dor terrível. Portanto, o normal numa circunstância dessas, Edite, é uma criança ficar em pânico e haver ali meia dúzia de noites a seguir em que acorda à meia-noite e tem um pesadelo ou outro, ou de repente aparece no quarto dos pais a chorar e o que se passa não sei. E este tipo de desabafos são absolutamente normais, saudáveis, perante uma criança que está a viver uma dor muito grande e que às vezes a vive mais para dentro do que a abre completamente para os pais.

Um dia destes havemos de fazer um programa ao contrário. Como é que os pais fazem com o seu próprio medo de morrer e deixar os filhos?

Sim.

Fica essa guardada para uma próxima vez.

Que é muito importante, não é, Edite? Porque quando nós somos pais pela primeira vez e andamos assim um pouquinho mais depressa na autoestrada ou vamos fazer uma viagem de avião, de repente acende-se uma luzinha.

Aquela luz que já não podemos morrer.

Exatamente, mas é que não podemos mesmo, que é uma coisa fascinante, por outro lado, mas ao mesmo tempo...

Vamos guardar para um próximo programa, então.

Vamos, sim, senhor.

Grande abraço, Eduardo. Obrigada e até amanhã.

Até amanhã.