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Vamos falar de férias, das férias que nos prometem e das férias que com crianças realmente acontecem. Olá, Eduardo Sá. Há forma de conseguir momentos de verdadeira pausa quando se está de férias com filhos ou isso é uma ilusão?

Olá, Judite. Claro que há, quando eles estão a dormir.

OK.

E aí uma pessoa respira fundo. Tenho dúvidas que nalguns dias tenha toda a disponibilidade para aproveitar esses bocadinhos, porque às vezes está-se tão cansado que quando uma pessoa dá conta, adormece por ali. Mas as férias com os filhos são muito intensas, são muito importantes, porque de facto é aí que se constroem muitas memórias muito preciosas pra toda a vida e, portanto, é o que há de mais querido pelos filhos ao longo de um ano. É por isso que eles entram numa vibração fora de lugar quando se acena com estes períodos de férias. Mas eu acho que há pais verdadeiramente corajosos, Judite, porque há pais que não basta levar os filhos, ainda levam um ou dois amigos pra cada filho. Evidentemente, que a ideia será: talvez eles fiquem mais entretidos. Mas o que é verdade também é que isto significa preparar refeições e outras coisas do gênero, e a logística, o chão da sala, que depois entre areia e sacos de cama, acaba por estar cheio de atividade. E, portanto, é muito exigente, até porque de manhã aquela gente acorda com uma alma absolutamente renovada e nessas circunstâncias, quando a mãe e o pai estão ali olimpicamente a tentar usufruir de um restinho de sono, já um está a dizer que quer ir pra praia, o outro está com uma fome absolutamente desmedida. E, portanto, as férias são uma maneira enfática de se falar de um período que leva a que muitos pais digam que férias de verdade, eles no fundo têm a noção que passam a tê-las quando finalmente regressam ao trabalho.

É verdade, é que depois temos muitos pais a regressarem com falta de descanso, mais cansados, mais irritáveis. E isto é possível vindo de férias?

Judite, isso é a regra. Então quem tem filhos pequeninos sabe que ir pra praia implica uma logística pesadíssima, mas pesadíssima, que tem a ver com as horas em que se pode estar ao sol, aquilo que é indispensável levar pra praia, mais uma geleira, mais os baldes, mais as pás, mais o guarda-sol, se for o caso, etc. E depois, mal se lá chega, quem é que é dos pais o que se voluntaria pra fazer o primeiro poço e já posso ir ao banho. E, portanto, é toda uma velocidade furiosa que faz com que, de facto, seja muito intenso. É a palavra talvez mais correta. É muito intenso. Claro que depois há histórias, há episódios que se guardam. Há tudo isso.

Fazem-se memórias, não é?

Isso. Absolutamente preciosas, mas descanso, no sentido de ser descanso, talvez não seja. E mais, eu conheço muitas famílias cujos pais, depois de estarem uma semana, assim eles possam, evidentemente, uma semana ou duas numa praia qualquer, decidem tirar uma semana de férias, confiam as crianças aos avós e aí sim vão recuperar as forças, porque coitados, estão esgotados.

E como é que os pais podem ajustar expectativas para enfim, também não saírem completamente frustrados das suas férias?

Judite, os pais de uma forma hábil, muitas vezes articulam-se com outras famílias. E é hábil, de facto, porque é uma maneira de as crianças brincarem umas com as outras e ao brincarem umas com as outras, eles terem ali espaço para conversar, pra apanhar um banho de sol e pra fazer quase um piquete pra que alguém esteja de olho naquela criançada toda. Muitas vezes a logística adapta-se um bocadinho desta maneira. Uma família que vá com um ou dois filhos, vamos imaginar dois, para uma praia, e é muito exigente. Então se forem adolescentes, têm outro tipo de exigência, porque quando a pessoa está pronta pra acordar, estão eles a chegar a casa, no sentido de finalmente dormirem. Portanto, aí anda-se num contraciclo e admito que as manhãs de praia sejam mais tranquilas, porque eles estão a dormir ferozmente em função das noites que têm. Mas é verdade Se há aspectos em que as crianças e os adolescentes são muito intensos, é na forma como vibram, quase numa espécie de contagem decrescente. Está a chegar o momento de ir para aquele sítio, que habitualmente é uma praia, onde vão todos os anos, onde encontram as pessoas de todos os anos e lhes dão a ideia de que, no fundo, estão em casa com pessoas com quem habitualmente ao longo do ano nunca estão. Portanto, esse lado de festa, basicamente, que são as férias, é o lado mais fascinante, porque é um lado de festa de família. É uma pena que muitos portugueses não possam fazer isso. É mesmo uma pena muito grande.

É mais fácil.

É mais fácil, como diz.

É mais fácil se estivermos nessa família alargada tratar das crianças.

É ótimo. Depois, lá está, entra-se sempre um bocadinho em choque, porque há uns pais que acham que é proibido comer uma bola de Berlim, outros que fecham os olhos à bola de Berlim ou gelado. Mas até por isso, entra-se ali num despique que faz com que as pessoas estejam uns com os outros, troquem ideias, venham mais crescidas, nem sempre, naturalmente, subscrevam a opinião uns dos outros, mas, no final de contas, é uma família alargada que acaba por se construir. Depois há o outro tipo de família, que eu acho muito invejável, para dizer a verdade, que há pais, neste caso avós, que fazem questão de uma forma muito afetuosa, mas que é tão importante para toda a família que ninguém discute, em que haja uma semana em que vá toda a gente para o mesmo sítio. E então são os avós, os filhos, genros, noras, netos. E aquele lado de comunidade é uma coisa lindíssima, porque isso tem qualquer coisa de Natal. É verdade que sim. Porque estão todos juntos, brincam, passeiam, contam histórias, têm tempo uns para os outros, que é uma coisa que habitualmente não acontece. E, portanto, esse lado é também brutal. Eu acho que é inacreditável de intensidade e que faz com que, aí sim, uma pessoa pode vir cansada, mas vem com uma alma cheia. Afinal, as famílias existem, são insubstituíveis e são absolutamente nutritivas.

E quando as crianças parecem estar sempre aborrecidas, mesmo nos cenários mais extraordinários? O que fazer com essas crianças?

Chamá-las ao lado . Ó Judite, chamá-las ao lado e falar com elas. Eu percebo que às vezes elas estejam assim, porque férias pode significar estarem privadas de um telemóvel, o que para algumas é catastrófico. Férias pode significar terem que tirar uma t-shirt e para algumas é muito difícil, porque acham que têm uma borbulha a mais nas costas ou ali uma curva a mais ou outra a menos e, portanto, é muito difícil. E, portanto, sim, há alturas em que os nossos filhos estão a atravessar momentos difíceis. Claro que muitas vezes falam deles por essa cara de enfado, que depois contamina imediatamente toda a família. Mas o que é importante é que se perceba que essa cara de enfado quer dizer, por outras palavras: "a minha vida está uma porcaria, eu não sei como é que hei de sair daqui". Curiosamente, estes adolescentes são muito mais sensíveis aos argumentos de um avô, de uma avó ou de um tio, porque os tios têm um lado de cumplicidade que às vezes os pais não têm. Os pais já gastaram tantos cartuchos a zangarem-se ao longo do ano, que depois parece haver ali uma comunicação em idiomas incompatíveis. Os avós têm uma sabedoria absolutamente notável e até nisso as férias são importantes para que poupem os pais e os filhos de uma tensão acrescida e permita que a família se ligue sempre mais. E, portanto, por esse lado, não é nada cansativo. É apanhar sol por dentro, como outro dia uma pessoa me dizia.

Que bela frase. Com essa terminamos hoje o nosso programa. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, já sabem, continuem a escrever-nos para eduardo.sa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Com todo o prazer, Judite. Obrigado eu e até amanhã.