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"No Mercy", em português, "Sem Piedade", é um jogo que encoraja os protagonistas masculinos a tornarem-se no pior pesadelo das mulheres e a nunca aceitarem um não como resposta. Lançado em março por uma empresa chamada Zerat Games e disponível até quinta-feira numa das maiores distribuidoras mundiais de videojogos, a Steam, o jogo tem gerado polêmica, foi removido em alguns países após notícias. Em Portugal continuava disponível até há poucas horas, mediante o pagamento de cerca de €12. Esta sexta-feira já não está disponível. Eduardo, olá, boa tarde. O que nos deve preocupar mais? O conteúdo deste jogo ou o fato de haver quem defenda como uma fantasia inocente?
Olá, Judite. Eu acho que nos deve preocupar um pouco isso tudo. Em primeiro lugar, eu acho fantástico que haja plataformas onde os criadores de jogos coloquem suas criações e que de alguma forma as tornem acessíveis e, portanto, criem uma espécie de supermercado sem supervisão de jogos. O sem supervisão já me preocupa muito. E já me preocupa mais ainda quando os nossos filhos podem ter acesso a jogos por um valor razoavelmente acessível para alguns deles, sem um mínimo controle a partir daí. Que depois haja pessoas que, de uma forma malévola, criem esse tipo de jogos, eu acho que já é um caso de polícia, como não podia deixar de ser, e compreendo que muitas vezes não se possa controlar logo tudo, mas ainda bem que há estes canais que denunciam este tipo de situações, porque não tenho dúvidas, Judite, os miúdos não são essas pessoas que tratam as mulheres invariavelmente mal e as desqualificam e desvalorizam. Mas também é verdade que muitas vezes este tipo de jogos vêm embrulhados num papel tão sedutor e às vezes com tantos outros apelos que de fato acaba por ser inquietante. Agora, sejamos razoáveis, jogos que de alguma forma vendam a ausência de compaixão e que, portanto, incentivem a falta de piedade, a crueldade e tudo isto centrado sobre as mulheres, parece-me tão assustador que continuo a dizer, era ótimo que houvesse uma entidade reguladora para que este tipo de conteúdos não chegasse primeiro às crianças e aos adolescentes, por mais que estejam classificados para maiores de 18 e que passassem por um crivo que, de algum modo, os levasse a estarem mais protegidos, coisa que infelizmente não acontece.
O jogo recompensa o jogador por ignorar o consentimento. O que isso pode normalizar, especialmente em mentes mais jovens e mais impressionáveis?
Judite, eu não acho que normalize. Eu acho que depois daquela série "Adolescência", se criou um bruá muito significativo, que ainda assim escorregadio. Eu acho muito importante que isso tudo tenha tido impacto nos pais, até nas autoridades. Nas autoridades, volto a dizer, inquieta mais, porque tenho mais dificuldade em perceber que estejam distraídas a este ponto. Mas, de fato, o que aquela série acabou por dar a entender é que os pais não são tão bons pais como todos desejam e tentam ser todos os dias, não conseguem estar em todos os lados ao mesmo tempo e não conseguem, seguramente, estar nas redes sociais e dentro do telefone dos filhos como eles desejariam. Portanto, isto que fique claro. Mas esta tendência destrutiva, que desvaloriza as mulheres, etc., não é uma constante dos adolescentes, não é de todos, Judite. E eu acho que é importante que nós possamos chamar a atenção para isto. Agora, atenção também, porque os nossos filhos são demasiado sedentários, acabam por estar sempre prenhes com solicitações de todas as cores e feitios, acabam por não ser tão expressivos como devem e, portanto, os videojogos, que nas suas eses têm argumentos muito importantes para que eles aprendam a lógica e cresçam num raciocínio cada vez mais versátil, em muitas circunstâncias, até porque os pais permitem que crianças de 12 tenham jogos para maiores de 16 e para maiores de 18, a certa altura, expõe-nos a situações e experiências de violência que os estraga, sim. E que os estraga de tal forma que miúdos absolutamente sensatos e tranquilos, depois de uma tarde em que estão com jogos, a jogar compulsivamente jogos de uma violência às vezes absolutamente inacreditável, ao fim dessa tarde, eles não estão iguais, estão estragados, estão impulsivos, estão irascíveis, reagem a tudo e a mais alguma coisa de uma forma pouco razoável. E, portanto, não há como pegarmos em miúdos sensatos e estragá-los de uma ponta à outra, mas é evidente Jogos onde esta violência se banaliza como se fosse uma coisa natural, não estragando verticalmente. Cria alguns estragos, sem dúvida nenhuma, e portanto, vamos lá pôr algum bom senso neste tipo de coisas, porque a nossa distração paga-se muito caro e paga-se para nós, mas paga-se sobretudo para eles.
Muitas vezes falamos das adições aos ecrãs, mas quando o conteúdo é tóxico, a exposição repetida a este tipo de jogos pode influenciar o desenvolvimento emocional e até sexual dos adolescentes?
Não só, Edite, influencia tudo. Começa por influenciar o desenvolvimento cognitivo, que eu acho que às vezes é uma coisa de que nós não falamos. Crianças continuadamente expostas a esse tipo de solicitações vindas do ecrã não são crianças mais inteligentes. São crianças, permita-me uma linguagem querida dos adolescentes, muito mais atrofiadas. Nós estamos a criar, à conta disto, crianças menos inteligentes. Mas que sentido tem quando nós lhes damos tudo e mais alguma coisa para elas crescerem? São crianças que têm uma sensibilidade super educada, portanto, têm todos os argumentos para falarem com os pontos nos Is, de forma clara, com uma intensidade e uma densidade muito grandes, e começam a falar por murmúrios e por abreviaturas e, portanto, estragam-se porque pior português significa menos saúde mental. Estragam-se por maioria de razão, porque obviamente, por mais que eles aparentemente se socializem através de um jogo, claro que a socialização se faz quando respiramos uns para cima dos outros, com todas as solicitações e os desafios que isso coloca. Estraga-se quando, no fundo, estigmatizam pessoas e, neste caso, podem estigmatizar um género, o género feminino, como se as mulheres fossem produtos descartáveis e não fossem pessoas. Sobretudo pessoas, e pessoas que merecem todo o respeito do mundo e mais ainda. E portanto, quando se entra sexualidade dentro, quando se passou a vida a cultivar, nem que seja de uma forma compulsiva, a violência através dos videojogos, que não se tenha a ideia que depois a sexualidade é uma experiência gratificante, intensa, onde através dela também se descobre o amor e se aprofunda o amor, porque aí esqueçam, se estão demasiadas peças fora do sítio e fica tudo estragado.
Quando o internamento de alguma forma normaliza o abuso. Aí a nossa bússola moral que está a falhar. Eduardo, vamos para fim de semana com algo para pensar, sobretudo para os pais pensarem, os pais que têm acesso a estas plataformas e que têm que supervisionar, com certeza, os filhos. Um grande abraço, Eduardo. Bom fim de semana e até segunda-feira.
Um bom fim de semana, Edite. Até segunda.