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Hoje, véspera do Dia do Pai, vamos falar desse conceito de parentalidade que tem vindo a alterar-se ao longo da história. As expectativas de hoje em relação ao papel do pai são tão diferentes das de há 50 anos. E depois, em termos individuais, cada pai procura o seu papel e o seu lugar. Eduardo, boa tarde. É um tema que dá pano pra mangas e por isso vamos falar do pai ao longo de mais do que um episódio. Hoje olhamos para o lugar na família que o pai ocupa e, felizmente, ocupa cada vez um espaço maior.
Olá, Judite. Não sei se foi culpa.
Como assim?
Judite, eu acho que o pai hoje tem atitudes radicalmente diferentes quando nós olhamos para trás, de facto, e as comparamos com há 20 anos, há 10 anos atrás, para não irmos mais longe. O pai é muito mais participativo a todos os níveis, na maneira como cuida, na maneira como participa. É, de facto, muito diferente. Basta repararmos, por exemplo, num pormenor que é agora tão normal que nem nos lembramos como era não há muito tempo atrás. Há pais que vão sozinhos ao pediatra. Durante anos o pai nem sequer ia ao pediatra, quanto mais sozinho. E portanto, sim, há aspetos muito diferentes, os pais participam nos trabalhos de casa. Mas eu às vezes acho que o papel do pai, ao contrário do papel da mãe, o papel da mãe tem tido muitas diferenças, as mães têm cada vez mais atividades, têm uma profissão, que é uma coisa absolutamente magnífica, para além de serem mães, que já de si engole tempo, energia e tudo mais. Mas o papel do pai foi se transformando muito. O pai era uma pessoa ausente, era uma pessoa austera, era uma pessoa autoritária e esse papel foi, de facto, mudando cada vez mais. E o pai é cada vez mais fofo e cada vez mais participante. Mas eu às vezes tenho a impressão que o pai não é suspeitado e não compete como devia pelo protagonismo na relação com o filho. Às vezes está ali relegado pra segunda figura. E isso eu não consigo entender. Evidentemente que eu não tenho dúvidas nenhumas da importância de uma mãe, muito particularmente desde o início da vida. Não há comparação que se possa fazer. Mas depois parece que o pai fica acomodado, às vezes envergonhado, ou às vezes sem jeito, ali numa espécie de segunda figura, e aceita colocar-se assim, não reivindica mais protagonismo. E eu acho tão importante que a maneira como o pai e a mãe se relacionam seja muito paritária, e por uma razão simples: porque não há nenhum formato pré-fabricado de pai. Mas o que é importante é que o pai perceba que a maneira como ralha, a maneira como pega ao colo, a maneira como dá exemplos, etc, é sempre diferente da mãe, porque são pessoas distintas. E essa paridade de duas pessoas distintas, ombro a ombro, tentarem ter o protagonismo indispensável na vida de um filho, é uma coisa tão importante que às vezes, quando se fala do Dia do Pai, quando se comemora o Dia do Pai, era também importante dizer aos pais: "Calma, segundas figuras, por quê? Vamos lá fazer pela vida e competir pela atenção e pelo protagonismo na vida de um filho".
Nós sabemos que a relação pai e filho tem impacto no desenvolvimento saudável das crianças em domínios como a linguagem, o pensamento, o desenvolvimento físico. E é curioso que tem sido estudado que o pai está envolvido no saudável crescimento do filho logo durante a gravidez.
Judite, eu sou suspeito, não há volta a dar, mas eu costumo chamar a atenção que, nomeadamente no parto, que é uma situação tão da mãe, à primeira vista, a presença do pai no trabalho de parto não é assistir ao parto, é participar no parto. É uma presença muito importante. E desde há muitos anos foram feitos muitos estudos pra perceberem se a duração do trabalho de parto, o recurso à analgesia ou até o desenvolvimento no primeiro ano de vida era igual, estando o pai presente nesse processo de uma forma envolvida ou não. E de facto, é magnífico perceber que para uma mulher ter ali um pai totalmente envolvido, faz com que o trabalho de parto tenha tendência a ser mais pequenino, o recurso à analgesia mais pequenino, o desenvolvimento do bebê mais significativo. E é assim progressivamente, por uma razão simples: porque um bebê vai se adequando aos ritmos e às regras da mãe, como faz sentido. Mas os ritmos e as regras do pai não são milimetricamente iguais. E, portanto, o bebê, ao fazer o mínimo denominador comum entre o pai e a mãe, está a abrir uma avenida mais larga, porque, no fundo, está a descobrir uma forma de ser ele próprio muito antes de saber balbuciar a palavra E isso é uma ajuda fundamental para o seu crescimento.
Há estudos que demonstram que quem tem pais sensíveis, e isto é muito curioso, porque cada pai procura ser o melhor pai, mas o vínculo afetuoso torna-se o vínculo mais seguro para a criança.
Inevitavelmente, e isso obriga-nos a entrar numa área que um dia destes vamos ter que conversar, que é a educação do homem, do gênero masculino, que continua a ser uma educação um bocado trapalhona, porque se cria esta ideia que um homem que é um homem não se comove ou não fala daquilo que sente, ou não é romântico, por exemplo, ou esconde as emoções e é meio desengonçado com as palavras. E evidentemente que se não puser legendas naquilo que manifesta, tem tendência a parecer um bocadinho mais assustador. Um pai, só por ser mais silencioso, por mais que fale de forma magnífica com os olhos, às vezes, tem algumas páginas em branco no olhar, que só são compensadas se ele puser as legendas no sítio. E portanto, às vezes o pai, ao colocar-se neste papel mais discreto, faz coisas que são ternurentas, mas que, feitas as contas, não são uma ajuda por aí além, porque não é por um pai mostrar os dentes e zangar-se amiúde, que uma criança tem medo do pai. Às vezes tem medo porque os silêncios do pai são, em muitas circunstâncias, enigmáticos. E sendo enigmáticos, são um bocadinho assustadores, porque precisam de legenda. E nisso o pai precisa de estar capacitado pra isto, que às vezes é motivo de alguma ironia por parte do pai. As mulheres falam pelos cotovelos. Mas os pais têm que começar a apanhar o jeito, porque só ganham com isso. Em relação àquilo que se passa com eles, em relação ao relacionamento deles com a mãe do bebê e em relação a tudo aquilo que se passa entre um pai e os filhos.
Os momentos de brincadeira ainda são um domínio mais do pai do que da mãe?
Graças a Deus, porque é a maneira de um pai deixar aquela imagem de grandalhão oficial lá de casa e passar a ser muito mais bonito, porque os pais quando se deitam no chão e se rebolam e andam com as almofadas de um lado pro outro, de facto são tão mais estimulantes, porque é como se, no fundo, eles estivessem a demonstrar à exaustão que são brinquedos ergonómicos, que não são tóxicos, que se podem meter na boca, que não se partem em pequenas peças, que têm os cantos todos arredondados, mesmo que o pai vá muito ao ginásio, etc. E portanto, faz com que aquele grandalhão, que às vezes faz com que uma pessoa, só porque está juntinho a ele, fique muito mais segura, porque mesmo que ele esteja a dormir, os medos não chegam lá. De repente, é tão mais acessível, é bonito na maneira como se pode tocar nele, se pode despentear e se pode desarrumar. Que esse lado é, de facto, uma espécie de pequena quinta do pai, que faz com que a mãe, aliás, de uma forma meia ciumenta, diga: "Bom, a certa altura, eu acho que tenho duas crianças a que asa aqui a rebolar pelo chão", mas que faz com que de facto, aquele distanciamento, que às vezes esta posição mais discreta, às vezes mais envergonhada, mais embaraçada do pai, deixe de existir e ele passe a ser verdadeiramente mágico. Eu acho que os pais são uma espécie de sossego dos ursos de pelúcia das crianças, porque, afinal de contas, estão ali sempre de uma forma mais ou menos invisível a olhar por eles. E se quando lhes dói a barriga, gritam pela mãe, quando têm um problema, pedem ao pai que o resolva. E isto faz com que o pai, de repente, se torne acessível, ergonómico e tenha todas as características de alguém que se torna um bocadinho mágico. "O meu pai é capaz", é qualquer coisa que faz com que uma criança encha a boca e se sinta tão orgulhosa, porque ter ali um paizão como deve ser a olhar por ela, que isso faz com que qualquer pai se comova em ciência de vaidade, claro.
Eduardo, ficamos por aqui hoje. Amanhã voltamos com mais um tema e até lá, já sabe, continue a escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, acabamos em alta hoje. Até amanhã.