Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindos ao "Porque Senão é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje, à boleia de um e-mail de uma ouvinte, vamos falar da mentira nas crianças. O que distingue a fantasia da manipulação e, sobretudo, o que os pais podem fazer. Olá, Eduardo. A partir de que idade uma criança é capaz de mentir de propósito?

Olá, Judite. Quando é muito pequenina, muito pequenina e diz à mãe: "Não gosto de ti". Pronto, resolve logo as coisas. À escala da política, costuma-se dizer que quem nega afirma duas vezes. E portanto, quando não se sobem os impostos, sobem-se logo duas vezes. Quando se diz "não gosto de ti", está-se a dizer exatamente o contrário. Judite, eu tenho medo que os pais, compreensivelmente, fiquem muito preocupados quando veem um filho a mentir. Eu não quero pôr asas de anjo às crianças, mas gostava de chamar a atenção para um pormenor. Eles, às vezes, quando estão a contar uma história, e têm uma imaginação solta, levantam voo e quando dão conta já estão a pôr uma pitada de criatividade naquilo que estão a contar e, portanto, tecnicamente não é a verdade milimetricamente como aconteceu, mas muito longe de estarem a mentir. Outras vezes, não. Outras vezes é quando chegam a casa e aconteceu uma nota assim, assim, um episódio feiote na escola em que eles não estiveram bem e dão ali um pó de arroz muito especial. E não o fazem no sentido de serem falsos, frios e manipuladores. Fazem porque se sentem um bocadinho encurralados, com medo, e quando dão conta no impulso, disseram aquilo que em condições normais não diriam e depois já não têm cara pra desfazer aquilo que disseram. E é nessas alturas que as mães, à beira do ataque de nervos, dizem que se eles teimam que o preto é branco, depois não desfazem, por mais que todos os argumentos lógicos vão no sentido contrário. Regra geral, eles não mentem. Não mentem mesmo. Fazem aquelas asneiras típicas, os adolescentes. Agora, coitadinhos, já nem podem fazer isso, porque com as plataformas os pais sabem as notas. Dantes, ainda tentavam falsificar uma assinatura ou outra, que era pros pais não terem um ataque de nervos, mas eles não mentem, é só quando fazem asneiras. Agora, aquela mentira calculista, que no fundo nós implicitamente definimos como aquilo que caracteriza más pessoas, Judite, não. Não é tão frequente, não acontece assim.

Há uma diferença entre a mentira aos quatro anos, aos oito anos ou quando se é pré-adolescente. São mentiras diferentes.

Mais ou menos, Judite. Há aqui um indicador que eu acho delicioso. É que um mentiroso encartado, mente tão completamente que os pais são completamente embrulhados nisso. E portanto, só por aqui os pais podem ficar descansados, porque regra geral, eles mais fazem a figurão. Dizem sempre que têm um dedo que adivinha, porque percebem que quando um filho está ali a dar um jeitinho muito suave a uma realidade, só falta ter a acender e apagar um letreiro na testa a dizer: "Não, não é bem assim, mas pronto". E portanto, as mães adivinham logo. Quando eles são os miúdos que nós conhecemos, são sempre muito trapalhões. Nem sequer são capazes de falar pra nós, olharmos nos olhos, porque têm a noção que então as mães puxam para si essa capacidade de ler olhos, ler alma, ler tudo. E eles ficam ali tão embaraçados que não sabem o que hão de fazer. Mas o indicador é este: são tudo menos frios, e como são boas pessoas e percebem que estão a magoar a mãe e o pai lá no fundo, são trapalhões quando mentem.

Que peso é que tem o exemplo que ouvem em casa? Por exemplo, aquelas mentiras, digamos, sociais. O: "Olha, diz que não estou em casa", por exemplo.

Sim. Eu lembro de uma vez estar em casa e um dos meus filhos atendeu uma pessoa muito importante que queria falar comigo e esqueceu-se de que estava ao telefone e virou-se pra mim e disse: "Pai, agora eu digo que tu estás ou que não estás?" E eu fiquei muito envergonhado. Judite, não tem um peso muito grande. É evidente que há aqui algumas coisas que são importantes. Eu acho que é importante percebermos, sem que isso seja uma responsabilidade acrescida pra nós, que os nossos filhos aprendem fundamentalmente com aquilo queQue nós fazemos. E portanto, quando a mãe ou o pai pedem seja o que for, a um ou outro, e pedem por favor, eles naturalmente aprendem a fazer as coisas do mesmo modo ou a crescer. Portanto, a delicadeza, a amabilidade, aprende-se também quando se vê. E estas coisas também. E portanto, quando eles percebem que a mãe e o pai, seja em que circunstâncias for, falam verdade, evidentemente que eles falam verdade. E aquilo que nós observamos inúmeras vezes são aquelas mães com orgulho, e eu percebo muito bem o orgulho, aliás, dizem: "Finalmente", que é uma maneira de dizer: "Calma, ele pode ser miúdo, pode ser um rapazola meio desajeitado, meio distraído, etc." Mas chega a altura de eu lhe perguntar o que é que aconteceu, têm esta segurança, que eu acho que é uma segurança absolutamente preciosa, que só se tem quando os pais vão dando este exemplo a torto e a direito ao longo do crescimento deles.

E como é que se repreende uma mentira sem colar à criança o rótulo de mentirosa?

Eu acho que devia ser proibido o rótulo de mentiroso em relação a uma criança em todas as circunstâncias, porque é uma maneira de o estigmatizar e dizer que é manifestamente uma pessoa. E eu gostava que ficasse claro que mesmo em circunstâncias raríssimas, e eu sublinho raríssimo, em que uma criança mente, ou um adolescente, e mente aí já de uma forma mais rebuscada, mais calculada, mais produzida, muitas vezes fá-lo porque se sente muito mais sozinho do que pode parecer ou às vezes sente que foi aprendendo a manipular as pessoas e quando repara, já não consegue viver sem isso. Portanto, significa que está mais adoentado do que pode parecer. Agora, mentiroso eu não gosto. Percebo que os pais reajam aflitos e de cabeça quente, no primeiro momento, digam isso, mas vale o que vale, só vale isso. Os pais também têm direito a ter a cabeça quente de vez em quando, mas eu acho que devia ser proibido, porque nas entrelinhas significa: "Ele não é tão boa pessoa como eu gostava que ele fosse", que é uma maneira de nós dizermos, por outras palavras: "Não é tão meu filho como eu precisava que ele fosse." Isto pra uma criança é um murro no estômago, de uma violência tremenda.

Dá uma carga de desilusão a esta frase.

Sim. Às vezes mais do que desilusão, de decepção.

Decepção.

Eu, no final de contas, sou uma decepção para os meus pais, não sou o melhor do mundo deles, e isto é uma coisa que fica nós é difícil. Depois não se esquece muito facilmente e há pais que às vezes, no meio do desespero ou da maneira como não entendem o filho, às vezes não o dizem uma vez, dizem duas ou três, ou quando uma criança está a falar a verdade, vem de lá com certeza que tu ouve um dia e de repente repetem outra vez a palavra mentiroso. Isso deixa-me sempre muito preocupado, porque os pais não têm noção disso. Mas naquele calor de uma briga, é um bocadinho violento. Magoa muito.

Fica a nota. Eduardo, vamos de fim de semana. Encontramo-nos na segunda-feira com mais um tema. Até lá, um grande abraço. Obrigada, bom fim de semana.

E um bom fim de semana pra você também.