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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos dos dados do INE, divulgados esta semana, que mostram que quase quatro em cada 10 crianças em Portugal têm excesso de peso e quase metade come regularmente fast food ou ultraprocessados. Olá, Eduardo. Quando ouve estes números, o que isto lhe diz sobre a vida das famílias hoje em dia?

Olá, Judite. Diz-me que os pais são pessoas altamente empenhadas, altamente envolvidas, muito comprometidas com o crescimento dos filhos e que, ainda assim, têm limitações que é importante que possamos trazer à luz, até porque é dessa forma que eles também, de certa maneira, tentam corrigir o que não está bem. A verdade é que, de facto, há muitas crianças que à hora do almoço, nas imediações das escolas, onde aliás, há muitas cadeias de fast food à disposição, há muitas crianças que comem um dia atrás do outro pizzas, hambúrgueres e refrigerantes, e o fazem de uma forma razoavelmente económica, porque de facto é económica, e isso tudo a prazo acaba por ter custos tremendos. Portanto, quando nós olhamos pra uma faixa de miúdos muito pequenos, estamos a falar dos cinco aos 14, percebermos que um quarto tem excesso de peso e destes, metade são crianças obesas, é uma coisa muito preocupante, porque nós estamos a introduzir um enviesamento muito significativo no seu crescimento, que depois é difícil de reverter. E se nós juntamos a isto, que é uma coisa que não me canso de chamar a atenção, que nós temos dos piores índices europeus de falta de atividade física, fica aqui um coquetel muito difícil. Setenta por cento das crianças em Portugal brincam menos de uma hora por dia ao ar livre. Menos de uma hora por dia. E nós estamos a pôr tudo no pacote, Judite. Quando estão em casa com a família ou quando estão na escola. E, em contrapartida, quase 50% dos jovens passam mais de quatro horas por dia focados nos ecrãs. Eu não me canso de chamar a atenção que roubando as oito horas de sono, que eu imagino que eles não tenham, mas imaginando que as tenham, eles num ano perdem quatro meses de tempo ligados aos ecrãs. E, portanto, nós estamos a criar por uma certa negligência, porque é evidente que os desafios que o mundo traz aos nossos filhos têm uma velocidade de cruzeiro imensa e até nós temos dificuldade em nos colocar diante disso, mas estamos a criar condicionamentos muito graves, tomando em consideração o seu desenvolvimento. Estamos a falar de saúde aos mais diversos níveis e inevitavelmente as escolas têm uma importância muito grande a esse nível. Os pediatras têm uma importância, se calhar, ainda maior, porque todos juntos podem ajudar os pais a emendar a mão em tudo aquilo que está ao alcance daquilo que eles podem dar.

Há uma tentação de olhar pra estes números como falta de educação alimentar. Mas será que isto também não tem a ver com a falta de tempo?

Claro que é falta de educação alimentar. Eu até gosto que nós possamos chamar-lhe assim, porque de repente há um pudor que eu não entendo em relação à falta de educação. Os nossos filhos de vez em quando são um bocadinho mal-educados de um ponto de vista daquilo que expressam, da forma como expressam, e também são um bocadinho mal-educados, aliás, como nós fomos, infelizmente, do ponto de vista da relação que temos com o corpo e com a alimentação em particular. Mas o facto de reconhecermos que às vezes somos um bocadinho mal-educados, é uma maneira também de termos a humildade de perceber que se hoje estamos a fazer mal, amanhã podemos fazer melhor, temos de fazer melhor. E eu não me canso de chamar a atenção que muitas vezes, ao longo de gerações e com toda a certeza nas gerações de muitos destes pais, a alimentação era o único prazer a que podiam ter acesso e era de alguma forma aquilo em que podiam estar em paridade com muitas crianças da idade deles, que obviamente tinham outro tipo de recursos. Chamo a atenção que um destes dias temos que pôr as alimentações disponibilizadas pelas escolas em relação aos nossos filhos, porque isso é importante que se discuta, porque eu tenho muita dificuldade em entender com o plafonzinho que as escolas têm por refeição, por criança, por dia, se consiga ter, de facto, um conjunto de ofertas que possam ser compatíveis com aquilo que nós queremos que seja uma boa educação alimentar. Agora, tudo se corrige. Os finlandeses a certa altura tinham taxas de consumo de álcool e de consumo de estupefacientes muito significativas e tiveram a humildade de perceber como é que isso a médio prazo se alterava e tem-se vindo a alterar. E, portanto, todos nós podemos alterar tudo isso. A questão aqui não é tanto Ficarmos alarmados com todos os motivos do mundo para estarmos alarmados em relação a isto. Quando estes dados surgem, são dados do ano passado, Judite. Mas depois, todos juntos, dizemos assim: "E agora, como é que se faz?" Há campanhas públicas para tudo isto, porque se houver e se forem muito bem feitas, há influências para tudo e para mais alguma coisa, não era de nós pensarmos a sério, de uma forma sensata, porque as redes sociais não são só más, pensarmos em formas de ajudar os pais em relação a este tipo de questões, porque a médio prazo, isto traz alterações graves em termos cardiovasculares, em termos gastrointestinais, etc. E já agora, menos atividade física e excesso de peso traz menos capacidade de eles se mobilizarem, de estarem atentos e de tudo aquilo que no fundo, uma relação equilibrada entre uma cabeça arejada e um corpo como deve ser lhes pode dar. E, portanto, sim, é urgente pormos isto na agenda e, sobretudo, começarmos a trabalhar para inverter uma situação que, é como dizes, Judite, os pais às vezes têm vidas terríveis, vidas agitadíssimas antes de saírem de casa e depois de saírem de casa. E, portanto, claro que por mais que advirtam, chamam a atenção da miudagem, mas às vezes quem fala da autorregulação dos adolescentes e das crianças devia ponderar melhor o que isso é. É claro que eles vão na onda e às vezes a comunicação destas cadeias de fast-food é tão apelativa que quando se dá conta consomem, consomem, consomem, consomem e consomem de uma forma preocupante. Os números dizem que pelo menos fazem uma refeição com ultraprocessados e de fast-food por semana, mas muitas crianças não fazem uma, fazem muitas. E isto é inquietante, porque ainda por cima acentua uma clivagem social entre as crianças que têm pais preocupados e têm recursos financeiros e têm tempo para se dedicarem a este tipo de questões, e os outros, que tentam corresponder dentro da medida do possível, mas assim se vai fazendo uma distorção social que nós gostaríamos muito que não atingisse os nossos filhos.

Se isto continuar, e os números sugerem que sim, que tipo de adultos é que estamos a formar?

Doentes. Judite, é tão difícil dizer isto. Porque nós estamos a dar aquilo que nunca nenhum pais deram, tomando a humanidade no seu todo, somos os melhores pais, produzimos as melhores crianças e estragamo-las em suaves prestações todos os dias, quando não as educamos para aquilo que é indispensável, quando não as educamos para as redes sociais, quando não as educamos para o corpo, continuamos a achar que a cabeça vale muito mais do que o corpo e, portanto, por que não dar-lhes matemática em vez de educação física, etc. E já agora para alimentação. E ninguém quer miúdos liofilizados, miúdos obsessivos em relação às gramas que ingerem em relação a cada um dos alimentos. Queremos é miúdos esclarecidos. E verdade seja que quando eles são devidamente esclarecidos na escola, nomeadamente, eles dão cambalhotas enormes, educam os pais. E, portanto, a escola e os pais em conjunto podem reformular isto e reformular bem, sendo certo que se nós vamos nesta onda, estamos a fazer os melhores miúdos que a humanidade já fez e a estragá-los e a produzir, de facto, um conjunto de adultos que de um ponto de vista físico e do ponto de vista da saúde mental, não são tão saudáveis como podiam ser e como mereciam ser.

Ainda vamos a tempo. Eduardo, um grande abraço.

Claro que sim.

Obrigada e até amanhã.

Igual para si, Judite. Até amanhã.