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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje é o primeiro programa da semana, portanto, vamos falar sobre mudança, ou melhor, sobre o medo de mudar. Olá, Eduardo. Parece que só mudamos quando a vida nos empurra. Por que resistimos tanto à mudança?

Olá, Judite. Porque aparentemente preferimos o certo ao incerto, o que nem sempre é uma preferência muito razoável, porque o certo às vezes não é a coisa mais entusiástica ou mais apaixonante da vida. Aquilo que é desconcertante nas mudanças, acho eu, é que todos nós já nos confrontamos com pessoas que, perante um solavanco daqueles muito grandes, que às vezes a vida nos traz, que lhes vira a vida do avesso, se for preciso. Estas pessoas são obrigadas a mudar e quando mudam, reconhecem que aquele mal pode ter vindo por bem, porque sem ele eles nunca conseguiriam ter tido a iniciativa dessa mudança. E a mim parece-me um bocadinho inquietante. Às vezes eu pergunto-me assim: será que nós andamos todos a criar uma ideia muito embrulhada na segurança, no planeamento, em tudo aquilo que, de alguma maneira, deve estar almofadado diante dos desafios que a vida nos dá e que é por isso que, porque a mudança implica um salto no escuro, muitas vezes, é por isso que nós nos encolhemos todos e às vezes fugimos da mudança. Às vezes eu tenho a impressão que sim, Judite, mas a impressão que eu tenho mesmo é que se for assim, nós estamos a educar os nossos filhos muito mal, porque eles precisam de perceber que nem sempre o que está planeado é aquilo que lhes dá mais segurança. Pelo contrário, quanto mais eles são capazes de conviver com o improviso e, em função disso, puxar pro melhor deles e de alguma forma por tudo isso a crescer, mais eles têm recursos pra mudança. E provavelmente eles, como certamente nós, fomos tão protegidos que quando se fala de mudar, pomos reticências e obstáculos, e resingamos e fazemos tudo aquilo que nós ouvimos nas famílias e até nas empresas, e às vezes somos levados a perder, claro.

De alguma forma, associamos a mudança ao risco.

Sempre. Judite, eu sei que é uma banalidade, mas viver já tem uma dose de risco suficientemente grande. E eu percebo que isto de proteger seja um ato de bondade. Quem não protege? Agora, eu costumo dizer invariavelmente aos pais que talvez haja três condimentos aos quais eles não deviam fugir. Primeiro, darem o colo, porque isso nunca estragou ninguém. Depois, darem um quanto basta de regras e de maneiras, porque obviamente as crianças bem educadas destacam-se mesmo quando estão caladas, porque têm o quanto basta das regras que permitem que, quando se trata de estarem uns com os outros, acabem por brincar, mas ao mesmo tempo saberem estar. E em terceiro lugar, autonomia. E aqui na autonomia nós poupamos muito, porque nós acabamos por chutar com os nossos filhos e não devíamos. Quando se trata de levarem a mochila, às vezes só não a levamos até à carteira da sala deles, porque não nos deixam. E é muito importante que nós possamos perceber que temos que proteger quanto baste, mas nunca proteger demais. Quando se protege demais, fragiliza-se, estraga-se e provavelmente é por causa de tudo isso que em muitos momentos a mudança assusta tanto e se adia até mais não se poder, como se com ela viesse um pacote de riscos pros quais nós não estamos preparados, o que não é verdade. Nós temos uma sabedoria tão incrível e tão versátil que quando nós somos justamente puxados por ela, brilhamos mais do que pode parecer.

De alguma forma, mesmo quando se está infeliz, não se quer mudar.

Pois, isso é a parte mais inquietante, não é? Nós todos, acho eu, Judite, já vimos muitas pessoas que estão em relações muito infelizes e às vezes só ganham a coragem de mudar quando finalmente conhecem outra pessoa que lhes abre uma janelinha de sol e uma janela de esperança e as faz perguntar: "Bom, até que ponto é que isto é razoável? Aquilo que eu tenho é, de facto, razoável para tudo aquilo que eu mais desejava?" Sim, é muito verdade. E, portanto, é sempre ao contrário daquilo que às vezes algumas pessoas que falam contra o divórcio fácil imaginam. Não há divórcios fáceis e, portanto, mesmo quando as pessoas estão muito infelizes, hoje estão determinadas a separar-se, amanhã já andaram pra trás e fazem isto mil vezes, se for preciso, durante anos, às vezes, porque querem arranjar ali uma janela mais ou menos adequada pra que as coisas não doam e, na verdade, doem sempre um bocadinho. O que é importante é que as pessoas percebam Que as dores que a vida nos dá são muito menos graves, na maior parte das vezes, evidentemente, do que quando nós as imaginamos. Quando nós as imaginamos, a nossa cabeça é, de facto, um simulador de voo ótimo e nós simulamos a alternativa A, B, Z, um ror de coisas. E de facto, muitas vezes evitamos mudar e é mau. Por isso é que às vezes nós, os dois a conversar, costumamos dizer que era ótimo que houvesse uma crise de adolescência de vez em quando pra nós fazermos este balanço. Será que aquilo que eu tenho na minha vida é aquilo que eu quero? O que me falta nesta relação? Porque às vezes não significa partirmos as coisas. Significa termos a lealdade de as colocarmos em cima da mesa e de uma forma honesta, mas ao mesmo tempo clara, dizermos assim: "Pronto, o que nós vamos fazer com este problema? Porque temos que chegar a uma solução, que seja uma solução exequível e gratificante para os dois". E nós temos sempre muito medo da mudança, às vezes, porque também somos muito trapalhões a falar e temos a ideia que um conflito, talvez porque nunca nos ensinaram verdadeiramente a vivê-los, mas que os conflitos servem para fraturar, quando muito bem utilizados, são o que há de melhor pra aproximar as pessoas.

Como é que se ajuda uma criança a não temer tanto a mudança?

Olha, em primeiro lugar, não a protegendo demais. E obviamente, não se criando aquelas ideias, que são transversais a todas as escolas, públicas e privadas, de que hoje entrado numa turma, se puder, vai até o nono ano, pelo menos, na mesma turma. Isto, sinceramente, eu não vejo qual é o ganho que pode trazer e portanto, pudesse eu mandar um bocadinho de DNA e vamos lá devagar. Chega-se ao fim do ano, mudam-se as turmas, baralha-se, volta-se a dar. Porque são novos colegas, novos professores e quanto mais nós os trazemos à novidade da vida, mais eles são capazes de crescer com elas. Portanto, pra começar, nunca proteger demais.

E por fim, pra os adultos, como é que se constrói uma relação mais saudável com aquilo que é incerto? É porque às vezes é sinal de medo ou é sinal de controle? O que é a resistência à mudança?

As duas coisas. Nós também temos a noção que às vezes vamos desmazelando as relações com as pessoas que são importantes pra nós. E não estou só a falar das relações amorosas, estou também a falar delas. Mas estou, por exemplo, a falar da relação com os nossos amigos. Não precisamos de andar sempre a almoçar ou a jantar em casa uns dos outros, mas a verdade é que eles às vezes parecem viver na América e só comunicamos uma vez por ano, a pretexto do Ano Novo ou de Natal, e de resto, muito pouco uns com os outros. E, portanto, nós devíamos reabilitar a conversa como um patrimônio preciosíssimo de toda a humanidade, porque nós conversamos cada vez menos. Os casais conversam muito pouco, as famílias conversam ainda menos, os amigos conversam episodicamente e devia ser proibido conversar com o telemóvel ao lado e já agora, conversar sobre aquelas questões miudinhas do trabalho, que às vezes são importantes, mas às vezes servem pra encher conversa, nunca pra conversar. E, portanto, isto de nós conversarmos acerca do que sentimos, da maneira como estamos desiludidos ou desagradados, não é magoar ninguém. É reclamarmos o direito de não sermos cerimoniosos pra as pessoas de quem nós gostamos mais. Porque se nós formos só transparentes e verdadeiros, às vezes as relações constipam-se, mas não se desfazem. Ao contrário do que acontece quando nós queremos relações tão seguras, que depois vamos adormecendo e esquecemos que a verdadeira segurança vem do facto de nós olharmos a vida nos olhos e de a tratarmos por tu.

Eduardo, ficamos por aqui hoje. Já sabem, continuem a escrever-nos pra eduardosá@observador.pt. Quanto a nós, Eduardo, encontramo-nos amanhã com mais um tema. Até lá, um grande abraço e obrigada.

Muito Francisco, Edite. Até amanhã.