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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. A família alargada pode ser um porto seguro, mas também pode transformar-se num território de invasão, onde a educação de um filho deixa de ser um lugar íntimo do casal para passar a ser uma espécie de campo de disputa. Olá, Eduardo. Nós recebemos um e-mail de uma ouvinte que está preocupada com a intromissão da família na educação do filho. A partir de que momento a ajuda da família deixa de ser apoio e passa a ser intromissão?

Lás dito, quando a família está sempre numa atitude de alguma censura e a repreender quem educa, e às vezes isso acontece. O grande problema é que às vezes a família faz isso desde o momento em que o bebê nasce. E as mães não fazem isso com a consciência de que estão a fazer mal, mas às vezes é tal o voluntarismo, e querem tanto ajudar uma filha que, de repente, é como se ela não amamentasse com a desenvoltura que devia, que não pegasse ao colo como deve ser, etc. Agora, claro que nós temos sempre aquela máxima, e ainda por cima é verdade, que uma criança lucra muito quando é educada por uma aldeia, sendo que a aldeia pode ser composta pelos avós de um e de outro lado, pelos tios, etc. E lucra imenso, porque há ali um contraditório permanente que ajuda até os pais a ajustarem os comportamentos que têm em relação ao filho. Só que depois depende um bocadinho dos pais. Há pais que repreendem os filhos como se eles fossem pequeninos e eles não tivessem uma ou duas crianças. Há pais que são muito imperativos em relação àquilo que é a forma de educar. Ou pior, há pais que, quando as crianças estão com os avós, fazem questão quase de contrariar, mas à séria, aquilo que são as perspectivas de uma mãe e de um pai. Isso dá, às vezes, umas confusões que são muito pouco razoáveis.

Aqui o caso é de uma tia, mas a questão é exatamente a mesma. E esta ouvinte pergunta, de alguma forma, se o silêncio para manter a paz protege o casal ou pode corroer a relação a médio prazo.

Estrega a relação de um casal e, de alguma forma, estrega a relação de um casal com os seus filhos, como se compreende. E eu percebo que um dos membros do casal se encolha, sobretudo se essa tia é uma pessoa muito importante. Ou se foi assim muito importante na vida de um deles. Eu entendo isso. É uma questão de respeito, de gratidão, é uma atitude de reconhecimento de muitas das coisas que a tia pode saber, mas às vezes há avós e há tios que têm a ideia de que são sobretudo úteis nos desempenhos e nas ajudas que podem dar, quase como se quanto melhores prestadores de serviços, mais avós ou mais tios eles fossem. E às vezes é tal o voluntarismo que não medem as consequências e criam ali tensões muito significativas. Eu não acho que seja razoável que uma pessoa se cale. Longe de mim estar a dizer: "Vamos armar aqui uma batalha de metro e meio", não é isso. Mas não ganhamos nada, porque fica ali uma tensão num casal que vai ter uma válvula não tarda nada. Regra geral, como todos os casais, a pretexto de uma tolice qualquer. E não se ganha nada em relação a uma criança, porque é evidente que nós estamos a falar de leis com coordenadas um bocadinho diferentes. E quando uma criança percebe que os pais não são bem os mesmos pais, quando estão à frente dos avós ou à frente de alguém de referência como uma tia, uma criança começa a sufragar as leis que colocam à sua disposição e obviamente vota naquela que for mais açucarada, mais fofa, o que dá uma belíssima confusão a seguir.

Isso leva-me a outra pergunta, que é: o que é que aprende uma criança quando vê a mãe ou o pai a serem desautorizados?

Aprende a não os respeitar tanto como devia, e isso eu acho que é uma coisa grave. Volto a dizer que os avós e esta tia não farão isso com essa intenção, mas evidentemente, quando uma criança percebe que a autoridade dos pais, que, note-se, é qualquer coisa que lhes dá segurança, é qualquer coisa que lhes dá uma estabilização de humor, é qualquer coisa que lhes dá meia dúzia de coordenadas que elas depois transportam de dentro para fora da família. E quando ela sente que essas coordenadas estão ali a ser transformadas numa espécie de termadeira Que faz com que os pais, de repente, se encolham. Aquilo que lhe dava segurança fica escorregadio, pelo menos, Dite. E nessas circunstâncias, todos saem a perder. E a própria tia, que obviamente não teria essa intenção, mas com isso tudo está a prejudicar muito mais do que a ajudar.

Agora, resta perguntar como é que se constroem esses limites claros com a família do outro, sem que isto se transforme num campo de batalha.

Com muito bom senso. Mas bom senso não é acanhamento, Dite. Evidentemente, sabe como são as mães, são mais facilmente leoas. E às vezes, quando lhes chega a mostarda um bocadinho ao nariz, não precisam de dizer muitas coisas. Às vezes, basta que façam um olhar cheio de picos e cria-se ali uma tensão entre uma mãe e uma sogra, uma mãe e esta tia, que não é de todo razoável. Às vezes, o pai, nisto, que é quem habitualmente se encolhe, não vamos fazer disso uma regra, mas é o que acontece mais frequentemente, fica dividido entre dois amores, entre duas mulheres que o amam, mas que ao mesmo tempo lhe exigem uma espécie de lealdade que escorrega para a fidelidade de uma forma que não é muito razoável. E, portanto, quem é mais próximo de uma avó, de um avô ou desta tia, portanto, um filho ou um sobrinho predileto, digamos assim, tem a obrigação de, delicadamente, pôr as coisas num registo de: "Olhe, nós percebemos muito bem que quer ajudar, mas desculpe, vamos combinar uma coisa, quando nós estamos, e a tia também, as regras são as regras dos pais, sempre, porque saímos todos a ganhar." E se isto for feito com bom senso, não há pais e tias que, de repente, fiquem enxofrados e que se sintam melindrados. Às vezes, o melindre é mais facilmente construído por aquilo que não é dito ou por algum repente, que é um bocadinho mais impulsivo e que, queiramos ou não, às vezes fratura muito uma relação entre uma nora e uma sogra ou entre uma sobrinha que acabou de chegar e esta tia.

Eduardo, hoje ficamos por aqui. Já sabem, para escrever ao Eduardo Sá é muito fácil. O e-mail é eduardosa@observador.pt. E quanto a nós, Eduardo, muito obrigada, até amanhã e um grande abraço.

Muito bem, Dite. Outro para si.