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O tema de hoje chega-nos através de uma ouvinte que nos escreveu sobre um dilema familiar. Um membro da família faz comentários racistas em jantares em que estão todos juntos. E esta ouvinte quer saber como reagir, até porque há crianças presentes. Olá, Eduardo. Qual é a melhor forma de reagir perante estes comentários racistas no seio da família?

Olá, Judite. Estou a ganhar coragem para lhe responder. Olá, Judite, eu acho que não há grandes receitas a este nível. Eu acho que estarmos em família significa que há espaço para uma enorme diversidade. É a bênção de uma família e por isso é que as famílias faiscam de vez em quando e evidentemente que são aquela barafunda de grande vivacidade de um lado para o outro, que nos faz crescer e ansiar, em muitos momentos, estarmos todos juntos. Mas tem que haver, de facto, limites. E a partir do momento em que uma das pessoas magoa de uma forma deliberada ou pelo menos, se não deliberada, de uma forma que merece uma observação clara e que, portanto, não pode ficar dúbia a circunstância de nós nos sentirmos muito incomodados e a sentir que aquela pessoa faz parte da nossa família, mas ao mesmo tempo talvez não faça. Eu não vejo que haja outra solução que não seja pormos as coisas claramente em cima da mesa e discuti-las de frente, como as pessoas da família podem fazer e fazem melhor do que ninguém. Admito que nalgumas circunstâncias possa ser durinho, mas acima de tudo verdadeiro, porque se uma família não é um reservatório da verdade, então para que é que ela serve?

Ignorar é compactuar?

Ignorar é compactuar, sempre. É, de certa forma, encolhermo-nos perante a maldade que nos fazem, como se enquanto essa maldade não choca diretamente conosco, faz de conta que as pessoas são todas boas, o que não é verdade.

E o que é mais importante mostrar às crianças nestes momentos?

Que nós somos corajosos o suficiente diante dos maus, mesmo que os maus às vezes estejam a ser maus sem ter muita consciência de que estão a ser dessa forma. Mas que ainda assim, estamos lá nós para nos atravessarmos sempre a protegê-los, a proteger os nossos filhos, claro, dos maus. E já agora, a enfrentarmos quem promove esse tipo de gestos com a coragem que só as pessoas muito importantes na nossa vida são capazes de ter para nos proteger.

Há alguma forma de responder sem expor este primo, que no caso também é avô, como um racista à frente da própria neta?

Judite, vamos lá ver. Eu acho que é muito importante que nós possamos assumir que tudo se pode dizer, não é só no contexto de uma família, eu acho que é no contexto das relações entre as pessoas. Tudo se pode dizer. Por isso é que eu às vezes não percebo porque é que nós não falamos mais da boa educação e da forma como ela nos ajuda a perceber que termos alguns cuidados na forma como falamos não significa nem sermos cerimoniosos, nem passarmos uma esponja por cima das coisas que efetivamente nos magoam. E, portanto, se me pergunta: faz sentido chamar este primo ao lado e discretamente dizer: "Olha, peço desculpa, não gostei, não compreendo." Faz, num primeiro momento. Mas eu também acho que nalgumas circunstâncias, sem que com isto se queira humilhar seja quem for, eu também acho que é importante que, de uma forma delicada, mas firme, clara, fique nítido o modo como uma atitude como essa pode ferir aquilo que são os valores de uma família, nomeadamente, esta ideia de que nós estamos autorizados, porque sim, a fazer comentários que magoam terceiros, quando no dia a dia passamos a vida a dizer aos nossos filhos que eles têm que ser atentos, compreensivos, têm que reagir de forma adequada, etc. Porque senão, qual é o sentido? Estamos a dizer: "Sim, vocês devem ser pessoas bem-educadas. Alínea A da exceção: podem ser mal-educados quando estão com os avós e com os tios, porque se o tio é mal-educado, é um vale tudo a partir daí." Não é razoável.

Mas, no limite, até onde se deve esticar o laço familiar quando há valores que nos chocam tão profundamente? Vamos imaginar que essa conversa não gera nada, pelo contrário, só gera uma grande discussão

Judite, eu espero que uma conversa como essa não frature coisa nenhuma, mas sejamos razoáveis. Quando uma família se fratura, porque nós entendemos defender um conjunto de valores que são transversais a todas as pessoas da família. Então é porque, de facto, há pessoas que, vá-se lá saber porquê, mas estas coisas acontecem em todas as famílias. Se calhar, vão deixando de merecer fazer parte dela, porque o que nós não podemos é depois assumir aquela postura que tantas vezes assumimos. Judite, tantas vezes, tentando não fazer ondas para falar com alguma leveza, como quando dizemos a um filho: "Paciência, tu sabes que o primo é assim", que é como quem diz: "Sim, na nossa família há os maus, mas eles são maus, mas eles nem têm a consciência que são maus. Eles são maus, mas acham que aquilo que fazem por mal é, no fundo, fazendo bem". Portanto, é tão confuso a certa altura, que os nossos filhos estão sempre a tirar-nos as medidas para perceber até que ponto é que nós somos, de facto, os guardiões da verdade. E se nós lhes exigimos a verdade e depois na relação com as pessoas importantes da nossa família, constantemente para outras ruas, e não fazemos o mesmo, eles pensam assim: "Mas, por favor, expliquem-me onde é que está o sentido disto, porque é capaz de haver aqui muita confusão".

Claro. Eduardo, ficamos por aqui hoje. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, já sabem, continuem a escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Um grande abraço, Judite. Até amanhã.