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Está no ar o "Português Suave", quase a chegar ao Natal. Já se ouve o som das renas, Marco Neves.

Já.

Olá, bem-vindo.

Quer saber a origem da palavra rena?

Olha.

Eu também quero, mas não sei.

Não pode dizer essas coisas. Se é pra ser, é pra ser.

Cá estamos nós. Hoje temos um episódio curioso, vamos acabar a mandar beijinhos grandes a todos.

A é? A desejar um feliz Natal.

E a desejar um feliz Natal, claro, a todos. E vamos falar também da expressão Feliz Natal e vamos falar dos calendários, em que ano é que estamos pelo mundo fora.

Muito bem, então vamos a isto. Eu sou o João Costa e Silva, estou aqui com o Marco Neves, novo episódio do "Português Suave". Começamos, como é habitual, com a língua nas notícias.

Raras vezes recebi tantas mensagens a perguntar, afinal, que expressão é que está correta: Feliz Natal ou Boas Festas. Eu não sei porquê.

Um homem muito concorrido.

Houve aí alguma coisa que levou a que as pessoas perguntassem se deveríamos usar uma ou outra. Eu devo dizer que as duas estão perfeitamente corretas, são tradicionais, mas há uma ideia que agora, pelos vistos, parece estar a pegar, de que Boas Festas é mais recente e que Feliz Natal é que é a versão tradicional do desejo nesta época.

O que eu faço sempre é Feliz Natal antes do Natal, passa o Natal e digo bom ano novo, boa passagem de ano.

Sim, eu sempre disse também muito Boas Festas, principalmente a partir do início de dezembro. Eu confesso que me parece mais, pra mim, familiarmente era mais Boas Festas e não tem nenhuma relação com ser mais ou menos religioso, a minha família era muito religiosa.

Sendo que estas festas vão até, podemos considerar, até os Reis.

E a verdade é que há esta questão. As festas desta época são muitas. Nós concentramos tudo no Natal, mas elas são muitas, desde o início, desde o Advento, desde o Natal, e estamos a falar de festas religiosas. O próprio fim de ano, é óbvio que o fim de ano, o Réveillon, não é uma festa religiosa, mas o dia 1 de janeiro é um feriado e também é uma festa religiosa, se estão ligados ou não, isso depois é uma discussão mais específica. Depois temos os Reis, temos os 12 dias do Natal, que nós cá em Portugal não falamos muito, mas que nos países do norte da Europa é muito tradicional dizer-se que o Natal tem 12 dias, o primeiro é no dia 25 de dezembro e depois vai por aí fora. Portanto, são festas, boas festas, e curiosamente, se formos aos registros escritos da língua, há formas de ver. Nós hoje temos possibilidades de olhar para os corpora linguísticos. O que é que são isto?

Os quê?

Corpora. Isto é em latim. É o plural de corpus, com US no fim. E estes corpora são ferramentas linguísticas, de análise linguística, que juntam não sei quantos milhões de palavras ao longo dos séculos e que nos permitem analisar quando é que uma palavra apareceu, presume-se, claro, que depois pode sempre haver alterações no futuro, se encontrarmos textos mais antigos, a frequência que as palavras têm ao longo dos séculos e Boas Festas é uma expressão mais tradicional do que Feliz Natal.

É mais tradicional?

Ou seja, nós conseguimos encontrar, por exemplo, no padre António Vieira, em cartas que ele escreveu, ele desejar Boas Festas. Feliz Natal só começa a aparecer como fórmula. Claro que o Natal já existia, eu não estou a dizer que o Natal foi inventado, mas no século XIX é que começa a aparecer Feliz Natal também como fórmula. Mas as duas são muito antigas, portanto, não há problema nenhum. Podemos dizer Boas Festas, Feliz Natal, Bom Ano Novo, Boa Páscoa, o que quiseres.

Dá a pensar por que dizemos mais facilmente Feliz Natal, ao invés de Bom Natal. Se calhar porque feliz também é mais bonito.

Nós podemos discutir muita coisa, por que esta expressão é assim, por que não é de outra maneira. Os falantes vão, às vezes quase de forma aleatória, vão começando a caminhar por um determinado percurso, e mais pessoas começam a ir por esse percurso e a certa altura o percurso é como, acho que até já uma vez usámos esta imagem: se tivermos um campo relevado, as pessoas percorrem muito um determinado caminho.

Não foi há muito tempo.

Não, não foi há muito tempo. E ele começa a ficar um caminho, sem relva. E é o mesmo com as expressões. Mais pessoas começaram a dizer Feliz Natal. De repente, Bom Natal é possível, claro, não há nada contra, mas não é o normal. A língua também se faz do que é normal, do que é muito habitual. Não nos podemos esquecer que a língua é algo muito original, que todos os dias nós usamos de maneira diferente, mas usando materiais que já foram usados antes, porque se nós só usássemos palavras novas, ninguém nos entendia. Portanto, há este equilíbrio entre o que é tradicional, o que sempre foi dito, com a maneira muito própria e original de dizer, que às vezes nós tentamos dar às nossas frases.

Feliz Natal, Boas Festas. Podemos dizer qualquer uma, a que soar melhor, a que for melhor pra si.

Já agora, posso só agradecer aqui uma prenda que nós recebemos.

Vamos a isto, estamos à altura pra isso.

Sim, pronto, vão me dizer: "Isto é publicidade." É, mas foi merecida, porque recebemos aqui uma prenda, um cabaz da Auchan. Foi uma ideia do Henrique, eu sei, porque ele enviou uma mensagem, o Henrique trabalha. E eles enviaram com muito carinho a dizer que no "Português Suave" nós estávamos a dizer que não tínhamos, já não sei quando é que nós dissemos isso, não tínhamos tema pro Natal e eles perguntaram: "Então qual é a origem de dá cá um bacalhau?" Que é uma expressão que eles estão a usar agora na publicidade e enviaram uma grande prenda.

Dá cá um bacalhau.

Enviaram bacalhau, claro. Recebi muito bacalhau, agradeço muito. E fica aqui o agradecimento, o "Português Suave" agradece a ideia. Quanto à expressão em si, dá cá um bacalhau, mais uma vez, aplica-se esta questão de as pessoas começaram a dizer isto e presume-se, não há certezas, aqui não há corpora que nos valha. Não há certezas, mas presume-se que tenha sido pela forma da própria palma da mão, que parecerá um bacalhau, e alguém disse: "Olha, dá cá esse bacalhau."

Que agora estou eu a olhar pra palma da mão pra perceber se tem aqui um bacalhau ou não.

Dá cá um bacalhau, nós começamos a usar e é uma forma um pouco informal e engraçada, e começamos a dizer cada vez mais e hoje dizemos dá cá um bacalhau, sempre com aquele ar, nunca é formal. Não chegamos ao Parlamento e o presidente da República diz: "Ó, não sei."

Acho que o presidente da Assembleia da República: "Dá cá um bacalhau." Não sei, nunca se sabe.

Muito obrigado à Auchan pela prendinha que vamos aproveitar aqui neste Natal e no fim de ano. Muito obrigado. É Natal, estamos na altura disso mesmo. Vamos até ao mapa da língua. Muito bem. O mapa da língua leva-nos ao calendário. Nós temos o nosso calendário gregoriano.

Já sei onde isto vai dar.

Estamos no ano 2025, contado a partir do nascimento de Cristo, tradicionalmente entendido. Claro que não temos ali registros notariais do momento, mas entende-se que é a partir daí, sabendo nós que provavelmente não foi exatamente no ano um. Este calendário tem esta característica: começa no ano um, não no ano zero. Poderia ter começado no ano zero se quem criou o calendário mais tarde tivesse entendido que deveria fazer assim, mas como em latim não tinham o zero, começou no ano um, o que leva a que os séculos comecem também no ano um. Portanto, 2001 foi o primeiro ano deste século e não 2000. Isso é uma velha discussão.

Minha cabeça.

O último ano do século um antes de Cristo foi o ano um antes de Cristo, e o primeiro ano do século seguinte foi o ano um depois de Cristo. Portanto, não há o ano zero, o que leva a algumas contagens um pouco estranhas quando nós fazemos contas.

Já sabes que tudo que é contagens vai deixar minha cabeça muito baralhada. Sou muito mais de letras.

Diga-se que há um calendário padronizado criado pela ISO, a organização que padroniza muitas coisas pelo mundo, que agora há poucos anos atualizou um pouco o calendário gregoriano e deu-nos a possibilidade de contabilizar o ano zero, mudando aqui um pouco as coisas. Mas isso fica pra outro dia. O que eu hoje queria dizer, já que estamos no mapa da língua, é que há vários calendários pelo mundo. Este, o calendário gregoriano, é claramente o mais usado. Mas temos depois o calendário Ab Urbe Condita, que é o calendário a partir da fundação de Roma, um calendário romano. E aí estamos no ano 2778. Se o Império Romano ainda existisse hoje, nós estaríamos neste momento a viver no ano 2778.

Estamos muito bem em 2025. E daqui a nada em 2026.

Depois temos o calendário budista, 2569 é o ano em que estamos. Calendário chinês. Tu fazes ideia em que ano é que estamos no calendário chinês?

É assim tão diferente?

É. Atenção, eles usam o nosso calendário também. Mas é pra frente, estamos mais no futuro.

Pra frente? Muito mais?

Sim.

3000?

Não. Estamos no ano 4721. E 4722, este ano foi. Depois, o calendário islâmico, estamos entre o ano 1447 e 1448.

Aqui pra trás.

Depois temos o calendário judaico, em que estamos no ano 5785.

Muito bem.

Aliás, no dia 23 de setembro começou 5786.

É estranho pensar nestas realidades, porque como só temos a nossa, entre aspas, em que vivemos, achamos muito estranho as outras.

Calendário persa, 1403. Apesar de serem números neutros, contados a partir de um determinado ponto, nós claro que associamos na nossa cabeça a épocas históricas. E se eu digo que estamos no ano 1400 e tal, de repente parece que estamos na Idade Média. Se eu digo 5000 e tal, vemos naves a passar na nossa cabeça, mas são tudo números que identificam o momento em que estamos.

Mas não se confunda, estamos em 2025.

No nosso calendário, sim. Há que dizer que isto tem que ver com a língua, porque os calendários também são uma mistura entre matemática, astronomia, astrologia, não. Embora a astrologia também tenha lá algo. Mas a astronomia e a língua, porque são os nomes que nós damos aos anos, aos meses, tudo isto está misturado no calendário. E ficamos por aqui nesta secção.

Sim, temos mais. Temos mitos e dúvidas, não é? Vamos a isso. Vais mandar beijinhos, não é?

Vou mandar beijinhos grandes. E o mito aqui é: será que isto é um grande erro, dizer beijinhos grandes? Eu já recebi muitas vezes esta dúvida. Já escrevi textos sobre isto, fiz capítulos de livro. A minha questão não é se esta expressão é bonita ou feia. Há pessoas que acham muito bonita e dizem beijinhos grandes, há outras pessoas que acham muito feia. A questão é: é uma expressão ilógica? O que tu achas? Beijinhos pequeninos, grandes.

Acho que pode ser um contrassenso, porque se dizemos beijinhos, estamos a supor que são pequeninos. Se estamos a dizer grandes, estamos a dar beijinhos grandes. É estranho.

Só que, por outro lado.

Ou beijinho grande, é igual.

Sim, beijinho grande. Por outro lado, repare, há aqui várias questões. Primeiro, vamos assumir que beijinhos quer dizer um beijo pequeno, que eu não concordo que queira, mas vamos assumir que sim. Vamos começar por aí.

Não concordas?

Não.

Ok, explica.

Mesmo que seja um beijo pequenino, a verdade é que nós podemos ter uma coisa que é pequenina no sentido geral. Vou dar um exemplo: carrinhos de brincar. Carrinhos de brincar são carrinhos porque são mais pequeninos que os carros. Mas se eu estiver com os carrinhos de brincar dos meus filhos à frente, posso ter os carrinhos grandes e os carrinhos pequenos. Não sei se faz sentido.

Sim.

Ou seja, dentro da categoria de carrinhos, que são mais pequenos que os grandes.

Sim, tu tens sempre que categorizar. Há uns maiores e uns mais pequenos.

Dentro desta categoria, nós podemos ter carrinhos mais pequenos, carrinhos maiores, carrinhos grandes, carrinhos pequenos. Por esse lado, isto é possível. Ou seja, nós podemos ter uma coisa que está identificada como pequena, mas não deixa de ser grande dentro da categoria dos pequenos. Mas digamos que é quase estar a interpretar a expressão de forma demasiado literal, que é o que as pessoas que a criticam fazem.

Eu tenho uma opinião sobre isto, mas já te digo. Explica.

Agora, a verdade é que beijinhos não quer dizer beijos pequenos. Nós usamos os diminutivos muitas vezes para dar carinho à expressão.

Tornar mais carinhoso.

Chama-se hipocorístico o uso dos diminutivos. Portanto, beijinho não é um beijo pequeno, é um beijo carinhoso. Aliás, eu até diria, argumentaria, se quisermos, que já é uma palavra nova. Temos beijo e temos beijinho. E beijinho é um determinado tipo de beijo. Não é um beijo nem sequer pequeno e pode já nem ser carinhoso. Eu posso dar um beijinho na cara.

Nós temos muita tendência, quando queremos tornar algo carinhoso, transformar num diminutivo.

Exatamente, os diminutivos são, em português, muito carinhosos.

Joãozinho, que eu não gosto nada. Estamos a chegar ao Natal.

Não gostas do Joãozinho, coitado. O que o Joãozinho fez?

Não, chamo-me João. E sei que estamos a chegar ao Natal e vou estar em família e as minhas tias têm muita tendência: "Ó Joãozinho, vem cá."

E apertam as bochechas.

As bochechas, sim. E eu penso assim: eu já tenho alguma idade para não ser tratado como Joãozinho, mas eu acho que um dia vou ter saudades disso.

No dia em que fosse o João João, o Joãozão.

Estava a achar que era sozinho.

Isto tudo pra dizer que aqui os beijinhos grandes não parece que seja um problema. Podemos dizer que é um clichê, que é uma expressão muito batida, por isso não gosto, mas isso é uma questão de gosto. Eu conheço pessoas que usam isto de forma muito genuína, outras pessoas que não usam, que não gostam, mas não tenho nada contra os beijinhos grandes. Eu costumo dar como exemplo a expressão: "O meu filhinho está tão grande". Faz todo sentido, não é?

Sim, é verdade. É essa a questão, e o povo português é especialista nisso, é tentar sempre pôr carinho nas nossas ações, naquilo que fazemos. Ou seja, um beijo a uma pessoa não é um beijo, é um beijinho, porque é carinhoso.

Há quem diga.

Se isto fosse em alemão, era diferente.

Sim, menos carinhoso, talvez.

Nem deve existir beijinho.

O neerlandês, acho que já falamos disso há uns tempos, tem diminutivos. Há muitas línguas com diminutivos, não todas. As que não têm usam outras maneiras de inserir carinho na frase, mas todas têm formas de ser carinho. Até os alemães têm. A culpa é de um certo alemão, austríaco, na verdade, que estragou a nossa imagem da língua alemã ao se expressar de forma muito agressiva e ao destruir parte da Europa e fazer tudo aquilo que nós sabemos. Por causa dele, nós temos uma imagem muito negativa e muitas vezes injusta.

Ou que a língua é demasiado agressiva, não é?

Sim, mas eu já ouvi poemas em alemão que não eram nada agressivos. Vamos ficar por aqui e desejar um feliz Natalinho.

Sim, feliz Natalinho pra os nossos ouvintes. Temos uma surpresa. Na próxima quarta-feira temos um episódio especial de Natal. Enquanto estiver a preparar a consoada ou a ceia, depois vai perceber por quê, vamos ter um episódio especial com duas partes, uma hora, vamos dizer assim, vai poder ouvir na Rádio Observador e também em podcast, e em que trazemos reforços.

Muito bem, vamos ter aqui uma equipa mais-

Reforçada aqui da Rádio Observador.

O Natal dá-nos força aqui.

Vamos dizer quem é já. É um presentinho pros nossos ouvintes. Vamos ter conosco o Ricardo Conceição, que está sempre na Rádio Observador, de segunda à sexta, no "Tarde Política", e recebemos também a Maria João Simões, que é a voz das manhãs "360". Juntamos tudo aqui num programa e temos um especial Natal.

Temos desafios pra eles. Vamos ver se eles conseguem.

E pra mim também. Vamos ver se eu me saio bem ou não. Se o estar aqui contigo todas as semanas ajuda de alguma forma e me dá alguma vantagem. Eu acho que não. Marco, um grande abraço e até quarta-feira.