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"Português Suave" na Rádio Observador, já depois do Natal.

É uma semana especial, não sei se concordas.

Muito cheios de doces.

Mas esta é uma semana particular do ano.

De balanço, não é?

Não é só de balanço. Entre o Natal e o Fim de Ano, parece que é um tempo especial. As pessoas estão fartas, no bom sentido, estão de barriga cheia.

Estão ainda de ressaca dos doces todos.

Estão à espera da festa do fim de ano.

Do Réveillon.

Do Réveillon, vamos falar disso no dia do próprio Réveillon, vamos ter um episódio nesse dia. Há calendários, falámos de calendários há uns tempos, onde há uma semana assim quase de transição, que não pertence a nenhum mês.

Sim, é uma semana estranha.

É uma semana estranha. Não sei se concordas.

Estamos aqui.

A divagar.

Não, é o portal das lamentações, agora.

Pode ser bom. O "Português Suave" apresenta suas queixas. Mas antes do Natal, as pessoas não gostam de ir aos centros comerciais, porque há tanta gente, há lojas. Mas eu até acho que esta semana acaba por ser ainda mais cansativa nesse aspecto. Se fores a alguma loja, se fores a algum sítio, está tudo cheíssimo.

Sim, até porque agora vêm os saldos.

São as trocas também. As pessoas que: "Ai, gostei muito da tua prenda, mas no dia a seguir..."

Sabes que eu sou muito transparente nessas coisas.

Se não gostas, dizes logo que não gostas.

Sim. E aliás, como sou uma pessoa muito expressiva, dá logo para perceber, porque eu não consigo fingir essas coisas.

Já lá falamos de uma coisa curiosa, que é: há uma prenda especial, que é um livro, e que a pessoa pode escrever uma dedicatória. Eu não costumo oferecer livros que eu escrevi, que é um pouco estranho, parece uma coisa um bocado egocêntrica.

Toma.

Toma lá o livro que eu escrevi. Mas às vezes as pessoas oferecem livros, seja deles ou não, e escrevem. Escrevem o que leva a que não seja possível trocar o livro.

Aí já não dá mesmo.

E sabes que às vezes nas alfarrabistas encontram-se livros, que se percebe que foram oferecidos pelo próprio autor do livro, não estou dizendo Natal, em que a dedicatória está tapada, porque a pessoa quis. É estranho, ao mesmo tempo triste e curioso, como é que isto acontece.

Já te aconteceu?

Não.

Algum caso próximo?

A pior coisa que já me aconteceu com livros meus foi estar nas sessões de, sabe quando se lança um livro, tem-se de estar sempre disponível depois para assinar e com todo o gosto. Mas há um problema, como é que eu hei de explicar isto? A minha memória esvai-se naquele momento. Eu esqueço-me dos nomes de todas as pessoas. Familiares, amigos.

Se tivesse um animal de estimação, também te esquecias.

Quando a pessoa chega ao pé de mim com um livro: "Então, aqui está pra assinados" e se não me diz o nome, eu fico com um problema grave. Eu cheguei uma vez numa sessão dessas a dizer: "Até a minha mãe vai dizer o nome, porque eu não me lembro dos nomes de ninguém".

Mas essa é fácil, escrevias "mãe".

Sim, pra minha mãe. É verdade, sim. Bem-visto. Já tive de escrever pra minha prima, quando eu devia saber o nome da prima ou de um primo.

Meu Deus, Marco. Essa cabeça.

Agora tenho uma prima a pensar: "Então foi por isso que ele escreveu prima".

Vai dar essa discussão.

Hoje temos um episódio especial de dúvidas.

É uma prenda pros nossos ouvintes.

Uma prenda.

Não é? Um pouco fora de época.

Não, os reis ainda não vieram. Os nossos irmãos aqui do lado, os nuestros hermanos, é nessa altura que dão. Então, nós no episódio especial de Natal, eu devo aqui fazer, não é bem uma correção, mas uma explicação um pouco mais prolongada, porque a certa altura, no meio daquele nosso episódio, disse coisas que não estavam exatamente bem sobre o plural dos nomes.

Quando falámos do bolo rei, não foi?

Exatamente, o bolo rei, do Pai Natal. Então eu vou tentar explicar aqui um pouco melhor, lendo até de um livro que eu escrevi, de uma gramática que eu escrevi sobre isto. Os plurais dos nomes seguem esta regra, e isto é um pouco longo.

Vamos aí, temos tempo.

Então temos: dois nomes, por exemplo, saia, casaco, o plural faz-se com os dois nomes. Portanto, saias, casacos, com hífen no meio. Quando temos dois adjetivos, por exemplo, novo, rico, também temos de pôr dois Fs, portanto novos, ricos.

OK.

Agora é que começamos a entrar no campo da nossa gramática.

Dos conflitos.

Se tivermos dois nomes, mas o segundo caracteriza o primeiro, só o primeiro é que vai para o plural. Por exemplo, palavra-chave, vai para palavras-chave e não para palavras-chaves.

É muito estranho.

O que quer dizer que, na verdade, o plural de bolo rei, eu ainda não acabei, tenho mais opções. O plural de bolo rei depende se nós estamos a olhar pra aquele rei como característica do bolo. Eu inclino para que bolo rei sejam dois nomes, simplesmente bolos reis. Portanto, o plural aí seria bolos reis, ao contrário do que eu disse no episódio.

Eu sou melhor como tu disseste: bolos rei.

E é justificável se nós acharmos que o rei está caracterizado.

Quer dizer, já nem sei.

Aquele bolo é um rei.

Já nem sei, soa bem as duas formas.

Depois temos dois nomes ligados por preposição: fim de semana passa para fins de semana e a semana fica igual. Verbo e nome: guarda-chuva, guarda-chuvas, aí é só nas chuvas. Também julgo que disse uma coisa um pouco diferente no outro episódio. Radical e adjetivo: luso-brasileiro, luso-brasileiros. Só no brasileiros. Nome e adjetivo: obra-prima, obras-primas. E aqui temos a questão do Pai Natal. Natal é visto como adjetivo e por isso é Pais Natais, de acordo com esta regra. Há uma palavra invariável Então, nesse caso, a palavra fica invariável: recém-eleito, recém-eleitos. E depois, por fim, um verbo duplicado, chupa-chupa, fica chupa-chupas. Só no final é que pomos o S. Não sei se isto ficou claro.

Não, foi fácil dizer assim.

Eu li aqui esta tabela que criei para uma gramática que publiquei há uns anos, em que tentava explicar isto. Mas é um ponto complexo da nossa gramática e que há aqui alguns pontos em que nós podemos ter várias ideias e, por isso, fica aqui a explicação um pouco mais longa daquilo que nós dissemos no último episódio.

Pronto, e o importante é que estás sempre aqui para nos esclarecer. E temos aqui este esclarecimento. Vamos lá. O que temos a seguir, Marco?

Então agora temos uma dúvida sobre verbos da Alexandra Machado, penso eu.

Editora de Economia, aqui do Observador, que é uma ouvinte assídua do Português Suave.

Eu estava com dúvidas, porque eu escrevi isto aqui no papel à minha frente e a minha letra é terrível. Eu não sei se está...

Alexandra Machado, editora de Economia, que é uma ouvinte assídua do Português Suave, gosta muito de nos ouvir. Um beijinho grande.

Vamos ouvir a dúvida? Ah, ela enviou só.

Esta foi escrita, Marco.

Isto está a correr bem. Isto é muito especial.

Mas já temos um áudio, esta foi escrita mesmo.

Está a criar-se ou está-se a criar? Então, o que nós temos aqui é quando nós temos um complexo verbal com dois verbos, nós podemos usar aquele pronome das duas formas, nos dois lados. Então é uma questão de opção. Havia uma teoria mais purista durante algum tempo, que dizia que nós tínhamos de pôr o pronome no último verbo, no verbo principal. Na história da língua portuguesa nunca foi assim tão padronizada a colocação do pronome nestes casos em que temos dois verbos. Se a Alexandra quer garantir que não há ninguém que esteja aborrecido, será "está a criar-se", mas "está-se a criar" também é perfeitamente aceitável.

Ou seja, as duas são passíveis de serem utilizadas.

Outra dúvida sobre salário.

Aqui vamos ouvir, deixamos só garantir que vamos ouvir mesmo e vamos a isto ouvir o José Bonito.

Sou o José Bonito e a minha questão tem a ver com salário. Eu ouvi dizer que salário vinha da palavra sal, porque se chegou a fazer pagamentos com sal. No entanto, eu vejo tão uniforme em países em que o sal não chegou a ter a importância que teve para Portugal, que tenho a dúvida se isto será verdade ou se será mito. Talvez já tenham tratado deste assunto, mas fica a questão, porque eu não ouvi essa resposta.

Marco, e então?

Vamos lá ver. É uma meia verdade, na pura definição do termo, porque há uma parte que é verdade: a palavra salário vem de sal, em latim. Agora, aquilo que não é bem verdade, ou melhor, pelo menos não temos nenhuma indicação que seja verdade, é a ideia de que os soldados romanos eram pagos com sal e que daí vinha o salário. Não há nenhuma indicação histórica que seja assim. O que há é, desde há muito tempo, até antes do Império Romano, uma ligação do sal ao valor, à riqueza.

Eu nunca tinha pensado nisto, por acaso.

Daí, dessa ligação de sal a riqueza, de sal a valor, é que terá vindo o salário. Salário era a riqueza que se dava a cada pessoa. Mas não há nenhuma fonte histórica que diga que os soldados romanos eram pagos com sal.

Não há nenhuma evidência, não é?

Não, e vamos lá ver. Um soldado acaba o mês e recebe: "Olha, tens aqui sal. Boa sorte." Estou a brincar. Claro que até podia ser uma moeda de troca e podia depois com sal comprar outra coisa, mas não há nenhuma evidência disso. Agora, que a palavra vem da palavra sal, sim. Não se tem exatamente a certeza de como é que foi feita esta ligação entre o sal e depois o salário. E acontece muito mais do que nós gostamos de imaginar. Há muitas palavras que nós até sabemos a origem, mas não sabemos como é que aquilo aconteceu.

Como é que se relaciona, não é? A ligação que existe.

Exatamente. Assim. Mas é o que eu posso dizer sobre isto. Espero que o José Bonito tenha ficado satisfeito.

Um abraço, José Bonito. Um bom ano 2026. Continue a ouvir-nos.

Obrigado.

E temos agora mais uma dúvida, não é, Marco?

Pensei que eu disse "obrigado".

Não percebi a ligação.

Também só olhei.

Não percebi.

A Maria Romeiras pergunta-nos se o correto é "obrigado" ou se as mulheres devem dizer "obrigada".

Há muito essa dúvida, não é?

É uma questão muito complexa.

Se devemos mudar consoante o gênero da pessoa que estamos a falar.

Eu devo dizer que isto é uma regra de etiqueta da língua. Neste momento, eu aconselho, neste momento da nossa história, que as pessoas cumpram esta regra de etiqueta e os homens digam "obrigado" e as mulheres digam "obrigada". Mas como é que chegamos a este ponto é que é interessante, porque a palavra obrigado, enquanto interjeição de agradecimento, porque nós temos várias formas de agradecer que não são propriamente interjeições. Se eu disser: "Estou agradecido. Agradecido, Vossa Excelência." Não é uma interjeição, é uma fórmula que inclui um verbo. "Estou agradecido", e a mulher vai dizer: "Estou agradecida", claro. "Estamos agradecidos", e pomos no plural, isto é importante, esta parte do plural. "Estamos agradecidos" e por aí fora. Isto não são interjeições, são fórmulas de agradecimento que incluem verbos, como eu estava a dizer. Agora, o que aconteceu com o "obrigado" foi uma fórmula de agradecimento Que também incluía um verbo, como todos sabemos, o verbo obrigar, uma fórmula de agradecimento que era no início, há três séculos, que tínhamos de conjugar. Estamos obrigados, vossas excelências, estou obrigada, se for uma mulher, estou obrigado, tal como agradecido. Agora, esta fórmula foi sendo reduzida, e isto aconteceu entre o século XVIII e o século XIX, pelo menos na escrita, ficou reduzida a obrigado, uma interjeição. O que eu quero dizer com interjeição? É dita de forma imediata naquele momento para expressar agradecimento sem que esteja ali expresso o sentido anterior daquele verbo. Tanto que nós não fazemos ligação ao verbo obrigar, nós já não estamos a dizer que estamos obrigados a nada. É uma interjeição e nós conseguimos ver que é uma interjeição por vários motivos. E neste caso, como todas as interjeições, tornou-se invariável. Um grupo diz: "Obrigado por terem vindo." Se estivermos os dois a falar com alguém, nós dizemos: "Obrigado por terem vindo." Tornou-se uma interjeição como tantas outras e cada língua tem uma interjeição de agradecimento que foi formada de maneira diferente. O inglês tem o thanks, como nós sabemos, o espanhol tem o gracias.

Que também não tem uma versão para masculino, nem feminino.

Não tinha ter, até porque no caso do inglês isso não aconteceria, mas não se conjuga como o verbo. Aquele thanks. Eles podem dizer thank you de vez em quando, tal como nós também às vezes podemos dizer muito obrigado.

Many thanks.

Many thanks. Mas é uma interjeição. O que eu quero dizer com interjeição é que é dito de forma imediata, tendo em conta a situação e não o sentido da palavra dita. E, na verdade, durante muito tempo, tornou-se uma interjeição invariável. Os falantes deixaram de ter a conjugação verbal na cabeça. Dizia-se obrigado sempre. Agora, aconteceu ali, presumo eu, já estive a tentar procurar, por volta de meados do século XX, começou a haver uma ideia, uma espécie de hipercorreção em que algumas pessoas disseram: "Então, mas isto vem do verbo obrigar. E se vem do verbo obrigar, eu tenho que conjugar como se fosse um verbo." Então começaram a dizer que as mulheres têm que dizer obrigada. Os falantes que têm a sua própria lógica não seguiram muito esta, tanto que de repente tínhamos homens a dizer obrigada. E acontece muito, porque na cabeça nós tínhamos que isto é uma interjeição.

Se estou a falar com uma mulher, tenho que dizer obrigada.

Houve essa confusão, de repente temos obrigado, obrigada. Mas houve uma insistência muito forte em que tínhamos de conjugar no feminino quando é uma mulher e tínhamos de pôr no masculino quando é um homem. Esta insistência acabou por, também acontece, ganhar asas e hoje é uma regra de etiqueta. Mas só para tu veres como, na verdade, nós não estamos perante um verbo, ninguém insiste na questão do plural. Não há ninguém que diga, se for um grupo, tens de dizer obrigados. Até é considerada uma coisa um pouco estranha. Ou se for um grupo de mulheres, vão dizer obrigadas. Obrigadas por terem vindo. Cria-se aqui uma situação esquisita em que, por causa de uma hipercorreção a certa altura, nós ficamos com duas interjeições, uma para os homens, outra para as mulheres. Esta interjeição tem origem numa forma verbal, obviamente. Eu sei disto porque eu sei que muitas pessoas quando eu falo disto estão a dizer: "Não, mas isso é uma forma verbal." Tem origem no particípio, obrigado. Mas já não é o particípio, é uma interjeição. E eu pergunto: se as pessoas estão mesmo convencidas de que é ainda uma forma verbal e que nós ainda estamos a pensar naquilo como uma obrigação que estamos a ter, dizem obrigados, se for uma família a agradecer. No postal de Natal, se for uma família a enviar, não dizem "obrigados por terem vindo". Houve aqui uma espécie de recuperação da conjugação verbal, mas só na questão do gênero, não na questão do número. E o português tornou-se uma língua muito curiosa neste ponto, nada contra ser uma língua curiosa. Eu digo que é uma regra de etiqueta, por quê? Não é uma regra gramatical, porque as regras gramaticais são criadas ao longo do tempo e de forma diferente. É uma regra de etiqueta, porque fica bem cumprir esta diferença. As pessoas não se irritam, mas é algo relativamente recente.

Diga como quiser, no fundo, e quanto à questão do obrigado ou obrigada, não pense tanto. É dizer. E não diga obrigados, por favor, que é horrível.

Mas o mesmo argumento que é usado para dizer obrigada, que é uma regra de etiqueta, não serve para dizer obrigados, reparem. Eu tenho quase certeza que vamos receber muitas mensagens sobre isto, porque isto é um ponto sensível, que muitas pessoas vão ficar muito irritadas. Não se irritem, estamos numa altura do ano em que queremos é paz.

A completar as resoluções 2025.

Podem não concordar comigo, não é obrigatório, claro, todos nós erramos, temos opiniões diferentes.

Olha este barulho maravilhoso de água.

Já sou eu a beber pra não me irritar. Estou a brincar. E bom fim de ano. Não, ainda temos.

Não, ainda voltamos. Nós voltamos no dia 31 de dezembro para fazer o balanço deste ano, 2025, para partilhar algumas curiosidades também sobre este "Português Suave", mas já sabe, se tiver dúvidas, se bem que elas se calhar ficam já para 2026, envie para portuguessuave@observador.pt, ou então para o nosso número do WhatsApp, 910024185. O meu desejo para 2026 é que o Marco Neves decore este número.

Vou tentar.

Um abraço e até dia 31. Até lá.