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"Português Suave" no ar, edição de quarta-feira, só para responder aos nossos ouvintes que enviam dúvidas ao longo da semana. Eu sou o João Costa e Silva, não respondo às dúvidas, coloco-as em cima da mesa para o Marco Neves.

Às vezes respondes, se eu fizer a malandrice de te perguntar.

Respondo, mas não contes com grande especialidade.

Mas hoje temos três dúvidas.

Ou mestria. Mestria ou mestria?

Agora não vou responder. Não enviaste para o número.

Vou enviar.

Então hoje temos três dúvidas. A primeira é de Rui Bento Costa, que pergunta se devemos dizer dica, sugestão ou pista, se é tudo o mesmo, se nós podemos dar uma dica sobre qual é que é a palavra certa. As três palavras estão certas. Eu só gostava de dizer que dica tem uma origem curiosa, vem de indicação.

Já falamos disso aqui, não já?

Já. É uma redução da palavra com origem no Brasil. Foi lá que se fez a redução. E há pessoas que ficam muito escandalizadas e não querem usar a palavra porque teve origem no Brasil, mas não nos podemos esquecer que a língua ainda é a mesma e por isso, às vezes, há alguns processos que ocorrem lá e depois vêm pra cá e há outros que ocorreram cá e foram pra lá. Nas últimas décadas tem sido mais normal de lá pra cá, mas não quer dizer que as coisas não mudem. Por isso, não há nada de errado na redução de dica. É uma origem perfeitamente banal e até é uma palavra que me parece bastante direta e bastante clara.

Diz ao que vem.

Diz ao que vem. Sugestão também, mas há certos casos em que dica é mais.

Sim, sugestão, se calhar, mais formal.

Pista, pode ser engraçado, na minha percepção, isto cada um tem as suas, quase que dá a indicação de que nós não estamos a dizer tudo, estamos só a dar uma pista. Enquanto que dica é mesmo uma sugestão prática e concreta.

Eu concordo, Marco Neves. Subscrevo.

Sim, uma sugestão prática e concreta, e por isso eu gosto muito da palavra. E as três estão corretas e servem pra situações diferentes. "Eu vou te dar uma pista aqui pra ver se descobres." É diferente de dizer: "Vou te dar uma dica." A dica é um conselho prático.

Sim, é mais direto.

"Vou te dar uma dica pra que isto corra melhor da próxima vez." Não estou a dizer que está a correr mal, atenção. Só a dar exemplos. Pronto, então Rui, espero que tenha ficado satisfeito.

Um abraço.

E agora vamos ao Francisco Tordo, que nos faz aqui uma pergunta que é muito curiosa e muito particular.

Então.

Ele pergunta qual é a forma correta de utilizar numerais ordinais como adjetivos no plural e dá exemplos. Por exemplo, primeiro e segundo lugar num concurso. Será correto dizer os primeiro e segundo duques de Bragança ou os primeiro e segundos lugares? Fica estranho.

Sim.

Aqui a minha sugestão será dizer o primeiro e o segundo lugares. E mesmo assim há ali qualquer coisa não soa bem.

Parece que há ruído.

Sim, mas é correto. Temos ali dois elementos singulares que se tornam um elemento plural, no caso do nome. Por isso podemos dizer o primeiro e o segundo duques de Bragança, principalmente na escrita. Na oralidade, nós vamos andar sempre à volta e vamos sempre escapar a esta concordância.

E vamos ter sempre pessoas a discordar e a dizer: "Não, este é que está correto."

Sim. Ele também dá outro exemplo. Por exemplo, ouvi um estorilador dizer que o PS e o CDS estavam integrados, respetivamente, nas internacionais socialista e democrata cristã. Está perfeitamente bem dito. Não há nada de errado, principalmente porque é um discurso mais formal, dito por um estorilador. Mas, se calhar, noutros contextos, nós iríamos dizer isto de outra maneira. Se calhar repetíamos: "O PS está integrado na Internacional Socialista e o CDS na Internacional Democrata Cristã." Portanto, iríamos dar ali voltas para evitar esta concordância corretíssima, mas com um certo ar artificial.

Sim, mas é tudo uma questão de gosto.

De gosto e de registro, ou seja, registro mais formal, mais informal. Também diferença entre oralidade e escrita. Muitas vezes a própria oralidade tem como base a escrita. Quando nós estamos a ler um guião, é claro que a língua comporta-se de maneira diferente.

Claro.

Portanto, tudo isto leva a dizer que está perfeitamente correto. Depois é uma questão de opção estilística.

Muito bem.

E agora temos aqui uma dúvida que me leva àquilo que falámos já aqui na dica. A dica é uma redução.

Vem de indicação.

Exatamente. E agora confesso que esta dúvida foi daquelas que me levou a ter de investigar, porque eu não fazia a mínima ideia qual era a resposta. E a dúvida é a do Marcelo Assis. Às vezes eu faço alguma ideia, vou investigar melhor, vou confirmar.

Mas é impossível ter uma ideia de tudo.

Claro, obviamente. E a pergunta é: por que razão é que nós chamamos meias às meias? Qual é a origem da palavra meia?

Parece aquelas perguntas de uma criança. Por que que isto se chama parede?

Exatamente.

Quem é que chamou parede pela primeira vez?

E a resposta dos pais, ao fim de alguns minutos, é: "Porque sim. E vamos comer."

Eu sou esse tipo de pessoa.

Mas é sempre bom que as crianças façam estas perguntas.

Claro.

Claro que ao final da 36ª pergunta, a paciência dos pais.

Sim, porque depois a tendência é fazer essa pergunta para tudo. Por que que isto é um banco? Por que que isto se chama banco?

Mas às vezes a atitude das crianças é boa, porque é um pouco como as línguas. Nós perguntamos: "De onde é que vem o português?" E as pessoas dizem: "Vem do latim." E depois é bom termos uma certa atitude da criança e perguntar: "Então e o latim, vem de onde?" Porque isso leva-nos a descobrir mais coisas.

Eu fico irritado, geralmente.

Não, não te irrites, porque eu acho que a resposta chega. Não vou responder hoje. O que eu vou responder é: a meia, aquilo que temos calçado, ou seja, aquilo que está nos nossos pés, e que se calça, curiosamente.

Calças ou vestes.

Não, as calças vestem-se, as meias calçam-se. É a vida. A meia é uma redução de meia-calça É uma parte da calça, uma meia-calça, que nós reduzimos, tiramos as calças e ficamos só com a meia. E curiosamente esta redução faz-se também nas outras línguas latinas ibéricas, no castelhano, por exemplo, no catalão também. É uma invenção ibérica que se espalhou e é essa a origem. As meias vêm de meia, de qualquer coisa que é pela metade, neste caso, a calça. Fazia alguma ideia disto?

Não.

Eu também não.

Meia-calça é uma palavra que já não se usa muito.

Não, é como os pneus dos carros, eram pneumáticos. Pneumáticos foram reduzidos para pneus. Hoje temos pneus. Nós também temos um caso que irrita muitas pessoas, que é o caso da mota, porque a mota é uma redução de motocicleta.

Motocicleta.

Há pessoas que perguntam: "Então por que não é moto?" Mas os falantes também fazem coisas dessas.

Essa palavra tem muitas variações. Moto, mota, motocicleta, motociclo. Ou é diferente?

Estava a ver se me lembrava de mais reduções. Falamos de uma redução ainda há poucos episódios, radiotelegrafia, radiotelefonia, radiotelevisão, foi tudo reduzido nuns casos para rádio, noutros casos para televisão. Os falantes, quando têm uma palavra muito comprida, se a palavra for muito útil e for muito usada, podem de vez em quando fazer estas reduções, que não são inevitáveis e não são necessariamente um sinal de simplificação, porque muitas vezes estão a adicionar uma palavra. Nós não perdemos a palavra pneumático, nós não perdemos a palavra radiotelegrafia. As utilizações é que passaram a ser diferentes, em registos diferentes, em situações diferentes. É um mito, hoje não é o episódio dos mitos, a ideia de que as línguas estão sempre a simplificar-se. Não. Simplificam-se de um lado, complicam-se do outro.

Mas achei engraçado estar ligado à meia-calça, porque de facto acho que é uma palavra que se tem vindo a usar cada vez menos.

Já ouvires usar? Por acaso não me lembro.

Acho que é um termo mais antigo, se calhar.

Também é engraçado pensar em possíveis reduções futuras, ou seja, palavras que nós usamos hoje e que vão estar tão reduzidas que nós usamos mais a redução do que a própria palavra original. E vou dar um exemplo de uma que está no processo e que provavelmente já estamos perto do fim, que é a palavra internet, uma importação do inglês, é verdade, mas que nós estamos a reduzir para net. Eu penso que tanto uma como outra já são um pouco mais raras.

Também podemos falar, por exemplo, do ok.

Ok já não é bem uma redução e se calhar vamos ter de deixar essa para outro episódio, porque essa vai demorar. Ok.

Ok.

É muito interessante. Não sei se alguma vez falámos aqui no "Português Suave".

Por acaso acho que não.

Da origem do ok. Há muitas teorias, mas nós hoje sabemos qual é a teoria certa.

Ok. Então olha, já te deixei aqui uma dúvida.

Fica prometido. No próximo episódio de domingo, nós vamos falar da origem de ok.

Muito bem. E não foi preciso mandar áudio. É assim. Mas envie áudio para o 910 002 4185 ou uma mensagem escrita através do nosso WhatsApp. Também nos pode escrever para o e-mail, Marco Neves.

portuguessoave@observador.pt.

É isso mesmo. No domingo estamos de regresso para um episódio mais alargado, mas já sabe que à quarta-feira é só para responder a dúvidas. Um abraço, Marco Neves. Até lá.

Um abraço. Até domingo.