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Está no ar o "Português Suave" na Rádio Observador. É por aqui que todas as semanas olhamos para a beleza e para mitos, dúvidas da nossa língua portuguesa. Marco Neves, estavas a fazer uma cara comprometedora.

Comprometedora?

Estavas.

Sei lá. Estava a pensar em que episódio é que nós vamos e pelos vistos já é no 27°. Já estamos aqui.

27° ou 27. A dúvida é do último episódio.

Sei lá, que é avento 27°. Quem ouviu o último episódio sabe do que estamos a falar, quem não ouviu, vai ouvir.

O Marco também aqui a pensar: desmistificar caminhos, não, hoje é programa de dúvidas, não é, Marco Neves? Vamos a mais umas quantas dúvidas. Temos aqui algumas para esclarecer e começamos pelo João Paulino, que pergunta como é que se diz: imprimido ou impresso?

Pronto, agora quer a resposta curta ou quer a resposta longa?

É como tu quiseres.

Então vamos dar as duas. A resposta curta e que retira dúvidas sobre como dizer isto sem que ninguém nos chateie.

Sim, as pessoas ficam muito irritadas.

Sim. Basicamente, há uma regra geral quando temos estes dois particípios dos verbos, por exemplo, aceitado ou aceite. Vamos dizer aceitado ou vamos dizer aceite. Por acaso, no Brasil, ainda há outra questão, que eles dizem aceitu ou aceita. Mas pronto, isso é para outro dia. No caso de imprimido e impresso, podemos usar essa regra que é: se for com o verbo ser ou o verbo estar, auxiliar, o verbo auxiliar ser ou estar, vamos usar a forma mais, como é que eu hei de dizer. Neste caso, até não é fácil de perceber que é a forma mais curta, porque a palavra imprimido tem tantos "is" que parece que é a mais curta, mas a forma mais curta é impresso. Portanto, algo é impresso ou foi impresso. Se eu usar o verbo ter, já vou usar a forma mais longa, que é imprimido, ter imprimido alguma coisa. E assim, estamos a seguir uma regra, que agora é a resposta longa. Não deixa de ser um pouco simplista, porque se nós formos ver o uso mesmo em textos cuidados de muitos destes verbos, há uma grande mistura das duas formas, mesmo para lá desta regra. Mas como eu estava a dizer, isto é quase uma forma de gestão de risco. Se a pessoa não quer que ninguém aborreça, usa esta regra bastante simples e fácil de aplicar.

E eu sou o Português Suave.

Exatamente. Eu pensava que você estivesse a dizer: "Eu sou o Português Suave."

Não. Ouça. Para o caso de dúvidas, é ouvir. Não.

Mas pronto, fica respondida a primeira dúvida do João Paulino.

Então vamos já avançar para a segunda deste episódio, que é da autoria da Carla Monteiro, que pergunta: raquete ou raqueta?

E a Carla na pergunta diz algo curioso, porque diz ela que pensava que era raquete, com E no fim, e foi ver no dicionário e percebeu que é raqueta.

Então eu lembrei de uma, marionete ou marioneta. Tive essa dúvida a semana passada.

E há mais, controlo, impacto, que também existe. Eu só queria dizer à Carla que provavelmente foi ao dicionário e encontrou raqueta, mas dependendo do dicionário, que os dicionários são diferentes, se procurasse um pouco mais à frente, também encontrava raquete, porque as duas estão nos dicionários. Isto são palavras de origem francesa, a maior parte delas, penso que neste caso até todas.

Sim.

E neste caso de palavras de origem francesa, o francês tem a tendência para terminar as palavras com este E, então muitas vezes há uma adaptação ao português, pondo lá a vogal que seria mais natural se a palavra fosse portuguesa. Mas há adaptações que são feitas de forma mais aproximada ao original e ficam com o E, e temos sempre esta dupla importação.

No caso marioneta e marionete é a mesma coisa. Podemos usar as duas.

Sim. Não sei se viste nessa altura.

Vi. Mas não havia uma resposta muito concreta, portanto, o nosso programa é muito necessário.

Sim, pronto, estas duas palavras existem.

Tu és necessário, Marco Neves.

Mais uma vez, e nós falámos disto na semana passada, isto não quer dizer que nós gostemos de todas as opções.

Sim.

Eu, por exemplo, entre impacto e impact, prefiro mil vezes impacto, se for para usar. Vou usar também controlo, e controle já está a ser bastante menos usado em Portugal e está-se a cristalizar como a forma brasileira, enquanto controlo é a forma portuguesa. Às vezes acontece isso, as duas versões acabam por se estabelecer como gerais num dos lados do Atlântico. Quando eu digo Portugal, aqui também podemos incluir os outros países de língua portuguesa. Isto parece agora uma coisa um pouco estranha. Eu sei que eles têm o seu próprio percurso dentro da língua, mas muitas vezes ainda estamos agrupados de forma bastante mais próxima do que acontece no caso do Brasil. Portanto, Carla, pode usar raquete ou raqueta, pode continuar a usar raquete. No caso dos dois, não sei, vocês usam o quê? Raquete ou raqueta?

Raquete. Eu acho que digo raquete, mas marionete, não digo marionete, digo marioneta. Sim. Acho que é o que fica melhor. Se podemos usar uma das duas, usamos a mais bonita. Pelo menos a meu ver.

Vamos a raquete.

Fica aqui esclarecida esta dúvida da Carla Monteiro. O Felipe Neves pergunta algo, Marco, um pouco difícil de explicar por voz e não por escrito.

Sim, é um bocadinho. E diz-me que já é a segunda vez que me envia. Peço desculpa, Felipe, mas agora respondo.

Sim, vamos a isto.

E aqui na rádio, ele diz que se uma frase terminar com etc, que nós escrevemos sempre, invariavelmente, com uma abreviatura, com o ponto, e não temos puras reticências, mas temos ao ponto, sempre a marcar que é uma palavra abreviada. É daqueles casos de abreviaturas que nós nunca usamos a forma não abreviada.

Sim.

Então, a pergunta dele é: se nós terminarmos uma frase com etc, nós não vamos repetir o ponto final. O ponto de abreviatura vai servir também de ponto final.

Ponto final.

E é verdade. Isto está perfeitamente certo. Se por acaso a frase acabar com ponto de exclamação ou um ponto de interrogação, então pomos o ponto de etc e depois o ponto de interrogação ou de exclamação. A dúvida dele é: então e se for um caso muito particular? Esta é uma dúvida muito particular.

Específica, não é?

Específica. Se for uma frase como: coloquei tudo na mala, abre parênteses, livros Vírgula, discos, vírgula, etc, ponto. E depois fecha os parênteses, pergunta a ele se temos de pôr um ponto final aqui neste caso. E a resposta é sim, temos de pôr o ponto final, porque os parênteses quebram esta regra de que não se vai repetir o ponto final. Temos ali ponto, parênteses, ponto. Há só uma exceção, ainda mais específica, aqui estamos mesmo a ir ao pormenor ortográfico. Por vezes, nós temos frases inteiras dentro dos parênteses. Os parênteses não fazem parte da frase, mas estão à volta da frase. E nesse caso, o etc tem o ponto, que também vai servir de ponto final e não se vai repetir fora dos parênteses. Não sei se isto ficou claro.

Ficou. E é uma questão que nós às vezes nem pensamos nisso. Se não fosse o Filipe Neves, eu nunca tinha pensado.

Nunca tinhas pensado nos parênteses e nos pontos.

E se calhar podia estar a fazer mal. À segunda foi de vez e o Filipe Neves conseguiu devolver a dúvida tratada. Vamos avançar, Marco Neves, e olhar para outra dúvida que nos chega da Ana Paula Carvalho, que pergunta se podemos dizer 5 mil pessoas impedidas de aceder ou de acederem.

Isto estamos a falar de uma característica muito própria do português. É algo raríssimo nas línguas do mundo, principalmente da Europa, que é existir a forma do infinitivo. O infinitivo é, no fundo, aquilo que nós conhecemos como o nome do verbo: comer, falar, aceder. E em quase todas as línguas esta forma é invariável, não muda de acordo com a pessoa, o eu, tu, ele. Em português muda. Em português e em galego, que é sempre o nosso companheiro nessas coisas, muda. E isto é algo muito próprio, muito genuíno do português, se quisermos usar esta palavra. Agora, também é verdade que se está a perder, ligeiramente. Há uma certa impressão na nossa cabeça de que o infinitivo pessoal é informal, e a pessoa tem tendência para deixar de lado esta característica. E eu estou a dizer isto porque vai ter impacto.

Que tu não gostas.

Que eu não gosto. Vai ter algum impacto na resposta, naquilo que eu vou dizer. Uma destas regras simples, como falámos acima, que nos permite dar alguma orientação quando estamos a pensar é: se o verbo tiver um sujeito diferente do verbo principal, então sem dúvida que podemos usar. E eu vou dar um exemplo. O João pediu aos amigos para trazerem uma prenda. Este trazerem tem um sujeito diferente do João, são os amigos.

São os amigos do João.

Portanto, neste caso, não há qualquer dúvida que podemos usar o infinitivo pessoal. Não é obrigatório, nós podemos dizer também: "O João pediu aos amigos para trazer uma prenda", mas se a pessoa quiser usar, pode usar sem qualquer problema. A dúvida aqui surge quando temos o mesmo sujeito, como o caso que a Ana Paula refere, 5 mil pessoas impedidas de aceder ou acederem. São sempre as pessoas, não muda o sujeito. E aqui dizem muitos gramáticos que então neste caso é melhor deixar de lado o acederem e usar apenas aceder. Se a Ana Paula quiser uma resposta pouco arriscada, é dizer: "Usa-se aceder e pronto". Mas, e é por isso que eu comecei com aquela pequena introdução, os falantes sempre tiveram tendência para usar também aqui acederem. E tendo em conta que esta forma verbal está em perigo de desaparecimento, por nunca ser obrigatória. Nunca é obrigatória e tem esta impressão de ser muito informal. Eu, pessoalmente, e aqui enquanto especialista residente, gostaria de arriscar um pouco e dizer que talvez seja mais útil à língua deixarmos o infinitivo pessoal aparecer mesmo onde se calhar antigamente não era aconselhável fazê-lo, precisamente para que ele não desapareça. E eu não tenho qualquer problema em dizer 5 mil pessoas impedidas de acederem a algo, seja ao que for. Não sei se a Ana Paula vai gostar da resposta, mas é aquilo que eu gostaria de aqui deixar para salvar este tempo verbal.

Vamos seguir em frente. Temos cerca de seis minutos ainda até ao final. Mais uma dúvida da Maria José Melo. Pergunta sobre o porquê ou o porque.

O porque ou o porquê.

Exatamente. Uma pessoa até fica confusa.

Sim, é porque ou porquê. Ou seja, se pomos um espaço no meio do porque. É mais uma das perguntas muito difíceis de responder em rádio.

Sim, e até leva a que nós tenhamos de fazer um exercício mental de pensar como é que isto se diz.

Diz-se da mesma maneira. O problema é esse, é que nós em Portugal dizemos porque e porquê. Eu acho que todas as pessoas a ouvir estão a pensar: "Estão a dizer a mesma coisa." E eles estão a dizer a mesma coisa.

Estamos a dizer o porque, mas com um espacinho no meio.

Porque nós, ao contrário do que por vezes nós temos na cabeça, se não pensarmos muito na questão, nós não dizemos os espaços, nós não paramos entre cada palavra, só paramos de vez em quando. Se nós formos analisar o som, a onda, não há interrupções entre as palavras e por isso porque com espaço ou porquê sem espaço, não tem diferença nenhuma, é uma questão ortográfica, e é uma questão ortográfica em que há uma diferença entre o Brasil e Portugal. No Brasil, a regra é relativamente clara. Porque, pronunciada de outra forma, claro, quando é no início de uma pergunta, é sempre com espaço, não há qualquer dúvida, os brasileiros põem sempre um espaço. "Porque foste não sei onde", tem espaço. Se for a resposta, "Eu fui porque não sei o quê", aí não tem espaço. E a regra brasileira é bastante clara neste ponto. Em Portugal, desde meados do século XX que se estabeleceu uma regra um pouco diferente, um pouco mais complexa, e que ainda por cima, para complicar as coisas, há algumas correntes de pensamento dentro destas questões que não concordam, preferiam uma regra mais parecida com a brasileira, e até há certos órgãos de comunicação social que seguem esta regra mais à brasileira, embora não seja por ser brasileira, mas porque é parecida com o que se faz no Brasil. Mas eu vou descrever a regra mais habitual em Portugal, que é a seguinte Nós pomos tudo junto, ou seja, usamos "porque" tudo junto quando é um advérbio interrogativo. Interpretamos isto como um advérbio interrogativo, portanto, uma frase que introduz uma pergunta, e então não pomos espaço. Porque aconteceu isto? Pomos tudo junto. Por que é que aconteceu isto? Também, o "é que" pode lá estar e continua a ser uma palavra só. Agora, se eu tiver lá à frente um nome, como razão, motivo, então já temos de separar, porque a estrutura da frase torna-se diferente. Por espaço que espaço razão foste lá. Aí já tem que ser separado. Um truque pra nós percebermos a diferença é: se pudermos substituir por pelo qual, pela qual ou por qual, então temos de separar. Por qual razão foste lá? Então, neste caso, separamos. Se eu disser: "Por que é que aconteceu isto?" Eu não posso mudar pra por qual é que aconteceu isto, não faz sentido. Portanto, aí uso tudo junto. No caso da resposta, tal como no Brasil, é sempre junto, nunca se usa o espaço. De vez em quando acontecem situações em que torna-se ainda mais complexo. Por exemplo, se eu tiver uma opção e se eu disser, por exemplo: há duas autoestradas entre Lisboa e o Porto. Se eu perguntar por que foste, neste caso, eu posso estar a querer dizer por qual foste. Então aí já posso separar. Mas é muito raro, pela minha experiência, que a pessoa vá dizer "por que foste" com o sentido de por qual autoestrada é que foste. Portanto, é relativamente seguro dizer que em Portugal, se a pergunta começar pelo por que e não houver um nome logo a seguir, então vamos usar a palavra tudo junto. Eu espero que isto tenha sido claro, mas desconfio que se calhar esta pergunta vai voltar.

Vai voltar em breve, não é?

É muito difícil de explicar isto sem estar a mostrar as palavras às pessoas.

Exato. Temos que arranjar um quadro.

Temos que arranjar um quadro aqui pra esta pergunta.

Ora bem, temos um minuto e meio até o final. Dá tempo pra última?

Vamos, é isso.

Porque fazemos isto é precisamente para esclarecer estas dúvidas, e a próxima é aqui do Observador, da Carla Jorge Carvalho, mas não só, também da Dulce Neto. Marco, diz-se para além de ou além de?

Ou para lá. Também podia ser para lá, se pensarem bem. Para além de, além de, para lá de. E há aqui uma certa tradição que eu já percebi, porque vários jornalistas já me perguntaram isto, mas são sempre jornalistas a conversa.

Sim. E aqui mantém-se a tendência.

Mantém-se a tendência.

Mais duas jornalistas.

Há esta ideia de que para além de é um grande erro por ser redundante, no sentido em que eu podia tirar o para e ficava tudo bem. E é verdade. Atenção, é verdade. Mas isso não quer dizer necessariamente que seja um erro, porque o fato de existir uma expressão que tem uma expressão sinônima, que também serve e que é mais curtinha, não é necessariamente uma indicação de que a expressão mais longa seja um erro. Portanto, o para além de existe, é muito antigo, não é um erro. A minha interpretação para esta dúvida ser muito jornalística é que os jornalistas têm, desde cedo, habituam-se ou treinam o uso do português o mais enxuto possível.

Sem ruído, sem redundâncias.

Sem usar palavras a mais, precisamente porque, por exemplo, na imprensa escrita é preciso, pelo menos quando estamos a falar de imprensa escrita em papel, é preciso ter cuidado com o espaço e por isso há essa tradição de tirar o para nesta expressão. Mas ela não é errada, até porque o para lá também seria uma solução nesse caso. Ou seja, são simplesmente três expressões sinônimas que fazem sentido. Agora, uma delas é mais curtinha e por isso poderá ser a mais útil em muitas situações.

Muito bem, fica assim explicado, Marco Neves. É sempre um gosto ter-te por aqui a esclarecer as dúvidas dos nossos ouvintes, que podem continuar a enviar para portuguessuave@observador.pt, com os dois E, tanto português como suave e sem o acento circunflexo. Eu já estou um ninja a dizer isto. José, vamos te tornar também um ninja a dizer isto. E tu também, Marco.

Os ninjas do português.

A dizer o e-mail do Português Suave.

Os ninjas do português parece muito bom. Se calhar, uma segunda temporada.

Mudamos de nome. Mas não, pra já, Português Suave pode sempre ouvir aqui na Rádio Observador, aos domingos, depois do jornal das 11:00 e sempre em podcast, que temos muita gente ouvindo nos, Marco.

Marco, até pra semana.

Obrigado, até pra semana.