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Enquanto entrava esta maravilhosa trilha, estava a pensar, Marco Neves, que isto é ótimo para correr. Estava a fazer aquele movimento. Seja bem-vindo ao Português Chato.
Depois aparecemos nós a falar e lá se vai a corrida. Mas também espero que muitas pessoas corram por esse país fora a ouvir-nos.
Sim, certeza.
Os podcasts servem para isso.
É isso mesmo, para ligar pessoas.
Isto também é um podcast. É um programa de rádio, mas também é um podcast.
Sim, estamos em todo lado.
Sim, exatamente.
Como é que estás, Marco Neves?
Está tudo bem. Tenho que dizer uma coisa: a notícia desta semana é claramente o fato de o João ter feito anos.
É verdade.
Muitos parabéns.
É um acontecimento.
É um acontecimento.
O país parou. Se no dia 22 de janeiro sentiu o país a meio gás, deve-se a mim, porque é um acontecimento que para as pessoas. Aliás, chegou a uma certa hora e estavam emocionadas.
E este episódio é só sobre isto, portanto hoje vamos ficar o episódio toda.
Não, que horror. Não vamos fazer isso.
Mas posso dizer que parabéns.
Obrigado.
Estávamos a pensar que eu estava a dar os parabéns. Estou a brincar. Mas parabéns vem, posso dizer, de uma palavra castelhana, parabienes.
Parabienes.
Que já não usam. Quando eu digo isto, já tive pessoas a comentar quando eu contei isto noutros contextos: "Eu sei castelhano e nunca na vida um castelhano diria parabienes. Parece um português a chegar a Badajoz e a cantar os parabéns em portunhol." Mas é de facto a origem já de há alguns séculos. Havia esta fórmula na escrita em castelhano, que foi importada para o português e acabou por se perder do outro lado, e nós ficámos com uma palavra que vem do castelhano e não faz mal nenhum. Parabéns.
Parabienes.
Parabienes.
Obrigado, Marco.
E hoje não vamos falar muito a língua das notícias, mas gostava de falar de uma língua ou de um grupo de línguas que está relacionado com uma das línguas da Gronelândia. Mas como nós já falámos há uma semana, a Gronelândia tem hoje uma língua oficial, que é só uma, que é o Gronelândês. Uma língua relacionada com aqueles povos que nós chamávamos Quimosos, embora já não seja um termo muito usado hoje, os Inuit. Mas já foi o dinamarquês a língua da Gronelândia durante muito tempo e é sobre o dinamarquês que eu gostava de falar, mas vamos já avançar para o mapa da língua.
Então vamos a isto. Somos muito rápidos hoje. Isto não foi um comboio, isto foi mesmo um TGV.
Foi um TGV? É porque nós somos rápidos. Se nós olharmos para o mapa das línguas da Europa, e gostava que as pessoas imaginassem o mapa. A maior parte das pessoas quando eu digo: imagine o mapa das línguas, vão imaginar um mapa muito parecido com o mapa político.
Sim.
Mas não é verdade. O mapa das línguas é muito diferente. Há muito mais línguas do que países, para começar. E mesmo as línguas ultrapassam fronteiras e há mais confusões ainda pelo meio, porque o que é uma língua oficial não quer dizer que por baixo não tenha uma língua que é muito diferente daquilo que é a língua oficial. O caso mais curioso, não é o mais curioso, mas é um caso que é um exemplo disto: a Suíça tem várias línguas oficiais.
Tem. Aliás, deixa-me só dizer-te isto: já estive na Suíça numa altura em que tinha lá família e fiquei num cantão, acho que é assim que se diz, não quero estar a dizer nada de errado, em que se falava mais alemão. Os meus tios falavam português, mas naquele cantão falava-se mais alemão.
Que é a língua mais falada, enquanto língua oficial, na Suíça. Temos o francês, temos o italiano e temos o romanche, que é a única das línguas que só existe na Suíça, mas que é muito pouco falada. Mesmo esta situação, que já parece complicada, eles têm quatro línguas, esconde uma complicação ainda maior, porque por baixo das línguas oficiais, por exemplo, por baixo do alemão oficial, eles têm o suíço-alemão, que é muito diferente do alemão oficial e eles sabem as duas. Aquilo que para um linguista são duas línguas. Claro que eles dirão que é um dialeto alemão, eles próprios dirão isto, mas as diferenças entre o suíço-alemão e o alemão padrão são, diria eu, arriscando um pouco, porque isto é difícil de medir, mais marcadas do que as diferenças, por exemplo, entre o português e o espanhol. E ninguém diria que o português e o espanhol são dois dialetos da mesma língua. Portanto, é tudo uma questão de convenção, o que é dialeto, o que não é. Mas hoje eu gostava de falar de línguas muito próximas, porque há línguas que são muito próximas. No caso da Suíça, nós temos duas línguas que são muito diferentes e que mesmo assim as pessoas chamam a mesma língua. Isto é suíço-alemão, é uma espécie de suíço, eles depois também aprendem o suíço padrão. E os suíços sabem estas duas variedades de forma muito clara e conseguem usá-las. Mas convencionalmente são consideradas a mesma língua, quando não são linguisticamente. Depois há casos contrários, em que temos línguas que são tão próximas que poderiam ser a mesma língua sem qualquer dificuldade, com variedades, mas que são politicamente separadas em várias línguas.
Politicamente?
Politicamente. Queria dar alguns exemplos. Alguns são mais pacíficos do que outros. Por exemplo, as línguas escandinavas, o dinamarquês, o sueco e o norueguês. Se aqueles territórios tivessem terminado todos como um só país, seriam provavelmente a mesma língua hoje.
Provavelmente todos falariam a mesma língua.
E não teriam de falar de maneira diferente do que falam na realidade. Mesmo falando como falam hoje, era fácil de entender aquilo como a mesma língua, com um padrão ou vários padrões. Aliás, na Noruega, o norueguês tem dois padrões. Na escola, eles aprendem o norueguês mais norueguês, que é o nynorsk, só é um padrão escrito. É usado por menos pessoas, quando, na verdade, a maior parte usa um outro padrão na escrita, que se chama bokmål, que está muito mais próximo do dinamarquês. Só por aí nós vemos que aquilo que é uma língua É mais uma questão política, porque são vários países, do que propriamente uma questão linguística. Um dinamarquês conversa bem com um norueguês. Claro que alguns deles poderão dizer: "Não, obviamente que são línguas diferentes". Mas como eu estava a dizer, se estivéssemos num mundo em que aquilo fosse um só país, certamente que eles não teriam dificuldade nenhuma em, falando como falam atualmente, dizer que é a mesma língua. Os árabes, por exemplo, as pessoas que falam árabe, falam variedades muito mais distantes umas das outras do que o dinamarquês é do norueguês e dizem que falam a mesma língua. Portanto, é mesmo só uma questão quase de história, tradição. Um outro exemplo muito claro deste fenômeno, ainda mais claro, dizem as pessoas que estudam estas línguas, é a antiga Iugoslávia, que tem várias línguas. Temos o esloveno, essa sim é uma língua próxima das outras, mas claramente separada. O macedônio também, o macedônio está mais próximo do búlgaro. Agora, o resto que está ali no meio, temos o bósnio, o croata, o sérvio, o montenegrino, que é um país que é independente desde 2006, relativamente há pouco tempo. Todos esses nomes referem-se a algo que, na verdade, era a mesma língua, o servo-croata, e ainda hoje poderia ser perfeitamente a mesma língua, mas politicamente dá-se nomes diferentes em cada um dos países. No entanto, eles entendem-se todos uns aos outros. O que também me leva a dizer outra coisa. Há pessoas que dizem: "Falarmos todos a mesma língua seria uma possibilidade de termos um mundo mais pacífico."
Fala-se muito dessa possibilidade. Vem sempre à discussão.
Repare, a antiga Iugoslávia, aquela parte central falava a mesma língua e, no entanto, tivemos uma das piores guerras da Europa há algumas décadas.
É uma questão de orgulho.
Eu acho que a língua pode ser usada como argumento numa guerra, mas não é a causa da guerra. A Suíça tem quatro línguas, como estávamos a falar há pouco, e é dos países mais pacíficos do mundo. A Iugoslávia tinha, na prática, uma língua nacional, embora tivesse outras também, e acabou como nós sabemos. Portanto, não acho que haja uma relação direta entre ter várias línguas ou ter só uma. Há tantas guerras civis em países que falam a mesma língua.
Não é um argumento.
Só para terminar, há também ainda as línguas italianas, que são várias, que nós depois pomos muitas delas no saco dos dialetos, mas são línguas com a sua própria história, próximas, claro, mas que não vêm do italiano. O italiano é simplesmente uma delas que foi escolhida para ser falada pelo país todo. Já falámos isto aqui, não vou repetir. E por isso há muitos casos destas proximidades que, no fundo, depois têm uma divisão no mapa, que é uma divisão muito mais política do que nós pensamos.
Foi uma bela viagem. Estivemos aqui em muitos sítios diferentes e a falar de argumentos também.
E não falámos do português, eu sei. As pessoas poderão dizer: "E o português, não é que entra nisto?" Eu posso dizer que o português também tem algumas questões relacionadas com isto.
Também tem.
Por exemplo, a separação entre o português e o galego é política. Claro que já é política muito antiga, e por isso tem impacto depois na maneira como nós falamos. Mas se Portugal e Galiza fossem parte do mesmo país, não teria havido uma divisão entre as duas línguas. Da mesma forma, o português de Portugal e o português do Brasil, no futuro, poderão vir a ser duas línguas separadas, porque temos dois países diferentes, mas não são neste momento. Neste momento, estamos ainda, na minha opinião, muito longe de chegar a esta situação, mas a divisão entre línguas é muito mais política do que julgamos. Vamos avançar.
Vamos aos mitos e dúvidas.
Hoje recebemos, hoje não, já recebemos há alguns dias, um comentário de Maria Luísa Azevedo, que não é uma pergunta, é uma observação, uma correção de uma coisa que eu disse. Eu vou ler.
Chegou através do e-mail.
Chegou através do e-mail. A Maria Luísa Azevedo diz: "Ouvi no vosso podcast de hoje a resposta à dúvida relativa ao uso do conjuntivo na seguinte frase: como ele tivesse alergia a ovos, não comia doces conventuais, e os doces conventuais ainda mais." Mas diz a Maria Luísa Azevedo: "Na opinião de Marco Neves, a construção é informal, não é aceitável no padrão da língua e um professor de português iria corrigir a frase. No entanto, trata-se de uma oração subordinada causal, que nada tem de estranho nem de errado. O uso do conjuntivo introduz um certo grau de incerteza ou dúvida, em contraste com o uso do indicativo, de acordo com a gramática de Mateus." Aqui eu não vou dar a referência completa, mas é uma gramática muito famosa. E eu queria dizer que sim, é verdade, aqui é quase a secção "O Português Soave Errou".
Vamos criar uma subsecção.
Espero que não seja uma secção muito preenchida. Nós sabemos que todos erramos, mas não gostamos de errar. Neste caso, eu acho divertido pro meu lado, porque se muitas vezes recebo algumas críticas, e todos nós recebemos críticas, são quase sempre no sentido de que eu fui demasiado liberal. Ou seja, que eu deixei ou considerei correta uma coisa que a segunda pessoa não.
As pessoas têm muito aquela tendência de, se há uma dúvida entre A ou B, as pessoas querem saber se A está mesmo correto ou se é B.
Às vezes eu digo que as duas estão bem, outras vezes não, depende da situação. E há muitas críticas que por vezes recebo que vão nesse sentido. Neste caso, é uma crítica ao contrário, em que eu fui mais prescritivo do que deveria ter sido. E sim, eu fui verificar a gramática e fui a outras, e a Maria Luísa Azevedo tem razão, que estamos perante uma oração subordinada causal. Eu sabia. A questão era se é possível ou não usar o indicativo ou o conjuntivo de forma indiferente, e as gramáticas aceitam este uso, que eu considerava mais informal, menos padronizado, mas está padronizado em muitas gramáticas e por isso é aceitável, dando um ar de maior dúvida à frase. Eu gostava de dizer aqui que isto também é uma indicação de algo que eu gostava de repetir, já disse isto de várias maneiras. Nós temos, no discurso sobre a língua, várias tradições. Temos duas grandes tradições Que damos por vezes o nome de prescritivo e descritivo, mas também posso dar outros nomes mais tradicionais. A tradição gramatical. Quando eu digo gramatical, os linguistas também estudam a gramática enquanto conjunto de regras. Quando eu digo tradição gramatical, é a tradição daqueles autores que foram escrevendo gramáticas ao longo dos séculos, muitas vezes gramáticas que diziam: "É assim que se deve dizer, não é assado. Estas são as regras de etiqueta", etiqueta sou eu que estou a dizer, "da língua, não vamos todos falar à vontade, não é assim que se fala. Entra-se numa sala, tira-se o chapéu, entra-se numa sala, diz-se as coisas desta maneira". Esta tradição é muito antiga, muito rica, uma tradição que se manteve ao longo do século XX com muita força e que, em geral, há dentro desta tradição mais antiga, também podemos separar em dois grupos: um grupo que tenta olhar para o uso da língua e tenta a partir daí criar a sua proposta do que é que deve ser o correto, e um outro grupo que simplesmente vai criando uma série de regras, muitas vezes de forma aleatória. Isso é que me causa um pouco de impressão. E eu, com o primeiro grupo.
E que cria dúvidas depois.
Cria mais dúvidas até do que as resolve. Depois há a tradição linguística, que começa no século XIX, em força, uma tradição que tenta analisar a língua de forma científica, tenta perceber como é que a língua de fato funciona, independentemente das nossas opiniões, do nosso gosto. E esta tradição criou também uma série de gramáticas e hoje é a tradição prevalecente, e não é de agora, é uma coisa já bastante antiga. Entre aqueles que são moderados da tradição antiga gramatical e que tentam olhar para o uso e daí criar a sua proposta, e os linguistas que tentam olhar para o uso, mas também tentam descrever um padrão pra poder ser usado na prática, na escrita, a diferença não é assim tão grande. É só mais uma questão de, eu nem sei bem o que ia dizer, é mais uma questão de os pontos de partida serem diferentes, mas depois chegam até, às vezes, a conclusões relativamente semelhantes. Depois há os casos extremos, aquelas pessoas que julgam que o padrão deve ser aquele que têm na cabeça, ponto final, aquilo que imaginaram como sendo, e tudo o resto é um erro terrível. E do outro lado, também haverá pessoas que acham que nem sequer vale a pena olhar pra estas questões, porque cada um fala como quer e ponto final. Estes dois extremos não comunicam muito. Os proponentes da tradição gramatical e os proponentes da tradição linguística comunicam de forma bastante mais fácil. E eu, que tenho um ponto de partida mais da linguística, do lado da descrição, converso e também tenho as minhas opiniões e por vezes acabo por ter uma perspectiva que também pode ser mais gramatical nessa forma mais tradicional. Neste caso, caiu-me.
Temos aqui um fact check da Maria Luísa Azevedo.
E agradecemos muito à Maria Luísa, e depois também me permitiu falar aqui um pouco sobre isto. Só dar um exemplo final, não sei se temos tempo.
Temos tempo ainda.
O Ken da Aveiro perguntou-nos se nós podíamos usar preposições no final de uma frase em português. E eu aqui dei-lhe aquilo que provavelmente tanto os gramáticos como os linguistas vão dizer, no padrão da língua portuguesa, não é habitual. Um linguista depois vai dizer, nos registros mais informais da língua, hoje é muito comum fazermos isto, mas é considerado um uso informal, não é considerado um uso padrão. No inglês há um caso curioso. No inglês, sempre foi possível terminar uma frase com uma preposição. What is this about? E há muitos outros casos. Só que houve pessoas que a certa altura, muito ligadas a uma tradição muito prescritiva e muito fortemente prescritiva, e às vezes um pouco aleatória, uma visão muito prescritiva da língua inglesa, pensaram: "Então, mas se isto se chama preposition, pre-position, preposição, não podemos ter isto no fim da frase." O que foi um engano conceitual muito marcado, porque o nome preposição, preposition em inglês, é simplesmente um nome que vem do latim, que os ingleses começaram a usar por tradição latina pra descrever algo que também existe na sua língua, mas se há um problema é com o nome, não é com a língua. Em inglês, sempre foi possível usar as preposições no fim. Se os gramáticos decidiram dar um nome que não era muito adequado, porque aquelas palavras também podem vir no fim, o problema é dos gramáticos, não é da língua.
E daí todas as dúvidas que surgem nesse sentido.
E no inglês há muitas destas dúvidas, porque o inglês usa como termos gramaticais muitos termos de origem latina, mas a gramática latina é muito diferente da gramática inglesa. A gramática das línguas latinas é muito diferente da gramática inglesa. Isto levou a uma série de mitos no inglês em que nós não podemos fazer isto, porque os nomes que damos às coisas não estão adequados. Então eu diria, se não gostam dos nomes, mudem os nomes, mas não andem a dar cabo da língua. Winston Churchill ficou famoso, não por isto, ficou famoso por muitas outras coisas, mas ele a certa altura reclamou, até uma frase que é apócrifa, que ele nunca disse, mas ele reclamou, de fato, sobre isto, a dizer que é um disparate escrever inglês sem poder pôr preposições no fim. Não foi o único. Há várias pessoas que reclamam contra este mito que vem já de alguns séculos e que ainda há algumas pessoas que tentam impor. Um outro mito muito curioso da língua inglesa é a ideia que não se pode separar o infinitivo. Um dos casos mais badalados, no Star Trek, há uma expressão no início que é "to boldly go". E muitas pessoas na altura diziam: "Não se pode dizer to boldly go, tem que ser to go boldly, porque o to go tem que estar sempre junto". E qual é a razão? Porque alguém pensou: no latim, o infinitivo é só uma palavra, nunca se separa, então em inglês também nunca se poderia separar. Esquecendo que no inglês são duas palavras, que podem ter lá um advérbio no meio. E o inglês tem esta tensão, muitas vezes entre uma tradição gramatical com raiz latina muito forte, que tenta impor certas características do latim ao inglês.
É uma língua muito tensa e nós já estamos aqui mesmo no limite do nosso tempo. Marco Neves, ficamos por aqui, mas regressamos na quarta-feira com dúvidas, 91 002 41 85, dúvidas por WhatsApp ou portuguessuave@observador.pt.
Parece que me ias deixar de dizer portuguessuave@observador.pt.
Já disseste. Até quarta. Um abraço e até quarta.