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É quarta-feira, é por isso dia de "Português Suave". A chuva continua, mas nós continuamos por aqui resistentes, Marco Neves. Olá, bem-vindo.
Obrigado. Hoje temos o nosso episódio especial, como já alguns ouvintes disseram.
Já não é especial.
Pois, que não é especial. Se todos são especiais, como nós dissemos, até os de domingo são especiais. Este é o episódio de dúvidas. Temos muitas, não é?
Nós nas últimas semanas temos recebido imensas e deixamos aqui um pedido de desculpas, porque é mesmo muita coisa e ainda por cima estamos a falar disso em off. Temos o Spotify, em que muita gente já deixa comentários nos próprios episódios. Temos o e-mail portuguessuave@observador.pt e temos também o nosso número de telefone, que é o 910024185. E nas últimas semanas temos acumulado imensas dúvidas.
Que é bom. Nós estamos contentes por receber as dúvidas e continuem, mas às vezes não dá pra responder a tudo e temos que fazer aqui uma seleção.
Exato. E por isso no domingo, Marco, quer já levantar a ponta do véu?
Sim, vamos ter um episódio especial, este sim especial, porque normalmente ao domingo nós temos outros temas, mas este próximo domingo, também uma boa dúvida, como é que nós nos referimos aos próximos dias. Vamos ter um episódio só com dúvidas, áudio, escrita.
Que é dia 8 de fevereiro, dia de eleições presidenciais, já fica aqui também dito.
É uma boa forma também de não falarmos das eleições, porque não podemos falar nesse dia.
Exatamente.
Então hoje temos aqui duas dúvidas. Para começarmos a desbastar. Uma das dúvidas vem de uma pessoa muito especial pra um "Português Suave", que foi a pessoa que começou tudo isto, que foi, na verdade, o André Maia.
Sim, um grande abraço pro André.
Um abraço pro André, já não está aqui conosco na Rádio Observador, mas foi ele que foi o primeiro apresentador aqui do "Português Suave". E ele mandou uma dúvida, enviou uma mensagem. Tu já foste ver a origem da palavra coclus? Não sei, João, se tu usas a palavra coclus.
O coclus, eu imagino que o André Maia tenha usado essa expressão, uma vez que ele gosta imenso de desporto e o trabalho dele está relacionado com isso, esteja relacionado com a questão desportiva. Coclus geralmente usa-se muito quando é alguém do plantel que é imprescindível, que é a estrela.
Exatamente. E pode ser coclus de uma equipa, pode ser coclus de outra coisa qualquer. Agora, a origem é muito estranha, porque coclus é um nome usado, e podemos encontrar em muitos textos, em muitos artigos, para a tosse convulsa, é uma doença. Coclus é uma doença. A mesma coisa que dizer Covid, gripe, o que nós quisermos. É o nome de uma doença. E por isso é muito estranho nós vermos que uma pessoa está a dizer esta é a coclus da equipa, e está a usar um termo que é, na origem, o nome de uma doença. E agora, como é que de um nome de uma doença passamos à coclus da equipa, um jogador muito importante? Foi assim. Isto acontece, muitos falantes fazem malandrices com as palavras e quase nem notam. Não notam, na maior parte das vezes. Coclus é uma doença, uma doença que se espalha com muita facilidade, é viral. Portanto, é algo que se espalha tal como aquilo de que todos falam. Não sei se estás a perceber como é que isto aconteceu. Portanto, algo viral, algo de que todos falam, um jogador também é algo viral, algo de que todos falam. E por isso, um jogador de que todos falam é um jogador importante, e por isso um jogador importante é uma coclus. Como é que isto aconteceu?
Bizarro.
É bizarro, mas foi isto que aconteceu e não é caso único. Há muitos casos em que as palavras dão saltos semânticos graduais. Isto parece uma contradição, um salto gradual, mas é o que acontece. Ou seja, é gradual e de repente nós olhamos e percebemos que houve ali um salto entre a utilização da palavra coclus para uma doença e a utilização de coclus para um jogador muito importante numa equipa.
O certo é que agora quase ninguém questiona, se calhar as pessoas mais curiosas questionam. Como o André Maia questiona a origem. Mas pra nós já é algo tão comum que nem pensamos nisso.
Não vamos questionar. Mas é um pouco como o orçamento, que também está relacionado com a atividade marítima, com navios.
Já falámos disso aqui também.
Já falámos disso, exatamente. As pessoas que sabem da área, sabem disso, mas a maior parte dos falantes simplesmente usa já o termo na sua forma metafórica e já nem sequer fazem ligação ao original. Nem era bem uma resposta, ele já sabia a resposta, só queria que nós falássemos disto.
André Maia sempre à frente. Um grande abraço.
Um abraço ao André. E vamos passar agora para uma dúvida muito difícil de responder. Eu posso dar aqui só algumas sugestões. É do Tiago Taveira. Não sei quanto tempo é que temos.
Ainda temos cinco minutos, Marco.
Então temos algum tempo. O Tiago Taveira enviou esta dúvida: "Olá, equipe do Português Suave, escrevo-vos da Alemanha, sou imigrante, casado com uma alemã e temos uma filha que está quase a fazer um ano. Gostaria muito de saber a vossa opinião sobre as melhores práticas pra criar uma criança numa casa bilíngue. Como garantir que o português se enraíze vivendo no estrangeiro, não sendo a língua dominante no dia a dia? Que estratégias recomendam pra passar o português pra os nossos filhos estrangeiros? Parabéns pelo excelente podcast. Um abraço do Tiago". Muito obrigado, Tiago, pela simpatia e pela dúvida.
Obrigado.
Eu não quero estar aqui a pôr uma posição de conselho, façam isto, façam aquilo. A vida de cada família imigrante, não só, claro, é difícil, às vezes.
Marco, mas por acaso, nestes casos e neste exemplo concreto do Tiago, colocar a filha, por exemplo, numa escola portuguesa, pode ajudar ou também pode ajudar a distanciar do alemão?
Não, porque as escolas, em princípio, vão ensinar as duas línguas. Repare, há muitos portugueses que põem filhos, quando têm possibilidade disso, em escolas internacionais, em que tudo é dado noutra língua, a pessoa não vai deixar de falar português. Portanto, digamos que a língua frágil, na situação da filha do Tiago, é o português. O alemão está mais do que garantido. Mas não estou a dizer que é necessário pôr numa escola portuguesa. Poderá haver escolas que têm até ensino do português também, escolas alemãs com ensino do português, não sei exatamente a situação da Alemanha. Há pouco tempo falámos do Luxemburgo, mas da Alemanha não sei. Mas, de qualquer forma, isso seria uma opção. Mas para além disso, há a possibilidade de a mãe falar sempre em alemão com a filha e o pai sempre em português. É uma possibilidade e isto leva normalmente a que as pessoas fiquem bilíngues. Nunca há bilíngues perfeitos, ou seja, as pessoas têm sempre uma capacidade maior por uma língua numa área, para a outra, noutra. Às vezes até nós somos melhores a falar uma língua estrangeira numa determinada área do que a nossa própria língua. Portanto, não se pode dizer que as pessoas tenham sempre o mesmo conhecimento das duas línguas, mas são bilíngues. Bilingues no sentido em que as duas línguas são línguas maternas. Portanto, isso é uma possibilidade. Claro que depois na vida real, as pessoas vão sempre misturar um pouco as línguas, mas isso também é natural.
Exato. Eu também te ia perguntar isso, porque uma pessoa que cresça em Portugal e que depois vá, imaginemos, para a Alemanha, vai ter sempre o português de alguma forma, ainda que esteja um pouco enferrujado. Mas para alguém como a filha do Tiago, que tem apenas um ano e que vai crescer mais com a realidade alemã, pode ser mais difícil, mesmo tendo esse contacto próximo com o pai, a questão do português, não é?
Vai ser mais difícil sempre, mas aí temos algumas vantagens da nossa própria época. Temos desvantagens e vantagens. Ela tem acesso ou vai poder ter acesso a muita coisa em português através da internet. Há essa possibilidade que o Tiago pode potenciar, usando uma palavra que por acaso não gosto muito, mas pode dar-lhe acesso, pode mostrar. Eu acho, pessoalmente, que obrigar será sempre negativo, mas mostrar o que existe em português, mostrar tudo a que ela tem acesso, porque se ela ficar com o português, é só vantagens. Fica com o alemão, sem qualquer dificuldade, e fica também com o português. Havia uma ideia antiga, muito comum em França, acho que te falámos disso, aliás, no último episódio, de que ensinar a língua da família poderia prejudicar a língua principal, mas não prejudica. Todos os estudos indicam isso. Aprender bem a língua da família, quando eu digo aqui da família, é da família do lado do pai. Não vai prejudicar a língua principal, porque a língua principal está mais do que garantida, principal naquela sociedade. Está mais do que garantida com todo o contexto, os amigos, a televisão, a rádio, a necessidade, o prestígio que a língua tem naquele momento. O português, neste momento, apesar de tudo, o Tiago tem possibilidade de o passar com mais facilidade do que há umas décadas, porque já há uma maior compreensão disto nas sociedades. Já não é como antigamente que se pensava há umas décadas, por exemplo, que é melhor esquecer a língua patrimonial, a língua da família. Já se sabe hoje que não é assim e há muito mais recursos. Temos acesso a tanta coisa. Nós hoje estamos aqui a fazer um programa do "Português Suave" que provavelmente vai estar a ser ouvido por pessoas na Alemanha, sem grande dificuldade.
É verdade.
Isto não era possível ou era muito mais difícil. Podia ser possível, mas era mais difícil há umas décadas. Por isso, o Tiago tem aqui a possibilidade. Se posso dar aqui um conselho é-
Muito rápido.
Ele falar sempre em português com a filha, mas também não ficar muito preocupado se saírem umas frases em alemão, isso também acontece.
Exato. Vai ajudar de alguma forma, temos a certeza. E olhe, ouvir o "Português Suave", que também ajuda e aprende sempre um bocadinho. Marco Neves, nós estamos de regresso no domingo. Fazemos aqui o apelo para quem vir em dúvidas para o e-mail portuguessuave@observador.pt ou então para o nosso WhatsApp 910024185, porque como já disse o Marco, é um episódio só com dúvidas no próximo domingo.
Então até domingo.
Até domingo, Marco. Um abraço.