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Já comigo está o Rui Pedro Antunes, o editor de política do Observador. Boa tarde, Rui. Um discurso relativamente curto para um encerramento de convenção, não é assim tão habitual. Foram pouco mais de 15 minutos, não sei se muito mais do que 15 minutos. Já falou pra fora, falou aqui sobre justiça e sobre a relação que a Iniciativa Liberal deve ter com o governo da Aliança Democrática.

Sim, em primeiro lugar, começou por destacar aquilo que foi uma vitória da sua direção, que foi praticamente o programa político que apoiava, foi aprovado por uma maioria extensíssima, quase uma unanimidade, 511 votos a favor e apenas um voto contra, e escassas abstenções, que agora não tenho o número correto, mas só por aí é também uma vitória. Começou por aí, começou com aquela graça de que são melhores aprovar programa político do que propriamente aprovar estatutos, porque de facto ontem teve essa falha naquilo que eram as pretensões da liderança da Iniciativa Liberal. Normalmente nos congressos, o primeiro discurso é para dentro e o último é para fora. Isso foi respeitado mais ou menos, num ponto em que é verdade que há esta preocupação, e lembra ali o caso de João Galamba, que foi escutado ao longo de quatro anos pra dizer que é contra isso. Os liberais são contra esse peso excessivo sobre a vida dos cidadãos, mesmo para efeitos judiciais e, portanto, lembrou esse caso. Não sei se isto é uma manifestação de disponibilidade para também entrar num eventual pacto de regime.

Parece um ir a jogo, não é? Pra questão da reforma da justiça.

Da justiça, em que tanto o PS como o PSD querem acabar com alguns dos que são os abusos do processo de investigação do Ministério Público. Parece-me que a Iniciativa Liberal, com isso, está se a posicionar para também entrar nesse debate, nesta parte que lhe é muito cara, que é o controle sobre os cidadãos e aquilo que possa afetar no fundo a liberdade dos cidadãos. Pelo menos deste ponto de vista que o líder da Iniciativa Liberal falou. Depois há uma mudança de agulha, como dizias, que tem a ver um bocadinho com a parte do combate dentro do próprio espaço não socialista. Ou seja, a Iniciativa Liberal continua a ter na AD um concorrente do ponto de vista eleitoral e Rui Rocha, em vez de atacar Pedro Nuno Santos, Mariana Mortágua, decidiu neste discurso de encerramento atacar uma única pessoa e foi o governo. Não atacou a esquerda, atacou, sim, o governo da AD. Até agora, tinha uma única crítica no discurso de abertura relativamente ao governo, que era ter perdido a vontade de privatizar a TAP, uma crítica bastante simpática, no sentido em que é dentro do core liberal que é privatizar. Disse apenas que não ia desistir. Tivemos depois João Cotrim Figueiredo e Rui Rocha foi forçado a fazer essa introdução, a dizer que o governo está a avançar. Depois disse assim: "Até timidamente, mas está a avançar". E tivemos Mariana Leitão, líder parlamentar aqui na Rádio Observador, e também Rodrigo Saraiva, antigo líder parlamentar e atual vice-presidente da Assembleia, a dizer que não exclui que a Iniciativa Liberal possa aprovar o orçamento de Estado deste governo. Tudo indicava para que a tal oposição construtiva fosse quase de um parceiro construtivo. Mas Rui Rocha, apesar do discurso ter sido curto, conseguiu dinamitar toda essa parte e eleger como adversário o governo. Disse que o governo está a falhar em várias áreas em que a Iniciativa Liberal seria a resposta, nomeadamente acusa aqui o governo de não resolver a questão do desemprego jovem, não dá pra essa margem, e a questão dos baixos salários dos jovens, não dá um estado de graça, acha que estes três meses não são suficientes, porque diz que mesmo o governo da AD faz uma crítica que eu acho que tem um certo grau de violência, que é muito difícil tirar o PS do poder, mas também está a ser muito difícil tirar as ideias socialistas do poder, porque apesar do PS não estar lá, o governo da AD mantém essas ideias. Ele não diz esta última parte que eu estou a dizer textualmente, mas na verdade foi isso que ele quis dizer, que ainda há muito uma ideia socialista no próprio governo da AD e vai por aí fora com várias críticas desse gênero e chegará a dizer que a AD não muda nada de estrutural e não vai mudar nada de estrutural e quem vai estar sempre aqui do lado desses jovens que dependem dessas medidas é a Iniciativa Liberal e não a própria AD que vai defender os jovens.

Porque nessas críticas todas acaba aqui por recuperar um bocadinho a grande bandeira da IL que é a taxa única de IRS e a questão da idade, penso por ficar de olho aos jovens, e depois acaba o discurso com uma crítica ao pacotão da economia, ao criticar também a questão do IRC, que pra Iniciativa Liberal também fica aquém.

Sim, na verdade, a Iniciativa Liberal tem vendido muito a ideia de que o governo é pouco ambicioso face àquilo que seria a ambição da Iniciativa Liberal. Apesar de ir dizendo que o governo já está a fazer qualquer coisa nesse caminho, considera que é insuficiente. E em matéria fiscal, por muito que o governo possa adotar algumas medidas que tenham algum desagravamento nessa matéria, para a Iniciativa Liberal não chega. A mesma forma como fala do IRS Jovem é uma forma crítica, porque a Iniciativa Liberal acha que esse imposto sobre o rendimento do trabalhador deve ser reduzido independentemente da idade e, portanto, não concorda muito com a maneira como a medida foi desenhada. Nesse aspecto também é uma crítica, porque queria ir mais longe e que esses impostos fossem desagravados. Tudo o que Rui Rocha quis provar neste discurso é que continua a fazer falta para ter uma pressão liberal. Ou seja, ele não diz como André Ventura, que vai ser primeiro-ministro. André Ventura, apesar do Chega ter uma parte de pressão para mudar as políticas de quem está a governar a direita e defender o governo de direita, tem uma ambição de ser ele o primeiro-ministro. Rui Rocha não vai tão longe. Ele não vê aqui forma de um dia ser primeiro-ministro. Então vai por ponto que é fundamental a pressão liberal para um governo que, sendo do espaço não socialista, continue a implicar medidas que, para este caminho de Portugal liberal que a Iniciativa Liberal quer, passe por desagravar os impostos sobre os rendimentos das pessoas e também das próprias empresas. É por aí o caminho de Rui Rocha, não poupou o governo, como tinha feito durante toda a convenção, guardou para este discurso final, que também é o mais impactante e para fora, está eleito quem é o alvo de Rui Rocha, é o governo do Luís Montenegro.

Quando estamos a pouco mais de uma semana do debate do Estado da Nação, que faz um balanço deste primeiro ano político de Luís Montenegro, que está ainda longe de ser um ano. Rui, só uma questão de balanço destes dois dias de trabalho, que se resume numa frase do Rui Rocha, que foi logo a inicial do "Somos muito melhores a fazer programas políticos do que aprovar estatutos".

Sim. Eu tinha aqui elogiado ontem a maneira descomplexada como eles lidam com as diferenças. Houve aqui uma espécie de momento extremamente desagradável de uma Natasha, agora está-me a faltar o apelido. Há uma membra da Iniciativa Liberal que se chama Natasha, que, na verdade, de forma bem-humorada, quase em registo de stand-up, atirou várias críticas à maneira como ontem tinham estado aqui com questões de lã na caprina, a alínea A, a alínea B. Pois, isso faz parte da discussão, era uma convenção estatutária, portanto, é natural que houvesse divergência. Qual é a parte que aqui não é muito percetível? Não se pode elogiar a pluralidade e haver pessoas a lutar por aquilo que consideram ser um bom ponto, uma boa proposta dos estatutos, para depois a seguir vir dizer: "Nós somos bons é quando isto é uma grande unanimidade". Então, não era bom não haver unanimismos? É 511 contra um . O que é de estranhar é isso. Num dia era excelente não haver unanimismo, agora somos melhores. Então agora a Iniciativa Liberal o que é bom é estarem todos de acordo? Eu ouvi aqui várias críticas a questões do programa, que esperei que pudessem existir mais abstenções, precisamente para fazer esse caminho e para mais tarde até revisitar o programa.

Temos aqui o próprio Tiago Maia Gonçalves a defender o voto a favor do programa político, ele que tem sido o rosto da oposição.

Sim, e eu falava da tal membro da Iniciativa Liberal que, de uma forma bem-humorada, acabou por atirar a Tiago Maia Gonçalves. "Pois, eu sou historiadora", aproveitando a profissão dela, e tivemos aqui na Praia Liberal, etc., no fato de Tiago Maia Gonçalves ter dito que o Porto já era liberal desde os tempos de Dom Pedro IV. Tudo isso foi numa lógica de agora já somos todos amigos, e por que foi aquilo ontem? Não, aquilo ontem fez parte da dinâmica normal, como elogiamos aqui. Rui Rocha estava a querer também fazer uma graça de dizer: "Pronto, não somos bons com os estatutos, somos bons com o programa político". Ele sabia que foi uma vitória dele e foi uma vitória clara, também dele, aliás, este novo programa político aprovado, porque foi desenhado também com uma grande colaboração de todos os membros, incluindo de pessoas que são da oposição e, por isso, aí está a resposta a esse sucesso desse programa político, que está mais atualizado. Havia coisas que o próprio Bernardo Blanc disse que em 2018 era-

Faziam falta na altura para afirmar a Iniciativa Liberal e agora não precisam.

Sim, na altura era preciso que fossem mais panfletários, que fossem mais parecidos com medidas programáticas e de um programa eleitoral, e agora pode ser alguma coisa mais genérica, que seja uma boa base, que seja o alicerce ideológico do partido, mas não tem que ter medidas concretas, porque como o partido está a ir sucessivamente a votos e tem palcos políticos onde pode bater essas ideias, por exemplo, pode apresentar propostas no Parlamento, porque está lá e tem uma força que não tinha em 2018, nem sequer estava lá. Portanto, não precisa deste programa político ter coisas tão concretas e pode ser mais um documento, lá está, ideológico, que seja um bocadinho as baias nas quais o partido se vai movimentando. E por aí, é claro que acabou por ser uma vitória para Rui Rocha.

E assim termina estes dois dias de congresso com Rui Rocha a sair vitorioso, ou meio vitorioso, mas com o propósito principal da questão dos estatutos a não ter sido aprovada. Termina também a emissão especial do Observador ao longo destes dois dias aqui no Europarque, em Santa Maria da Feira. Já aqui estivemos para outros congressos. Voltámos agora este fim de semana para esta oitava convenção nacional da Iniciativa Liberal, com também a ajuda da equipa do Observador, o Tiago Couto, o Bruno Canas, a Ana Moreira e a Madalena Guinot Ramos no vídeo, o Bernardo Almeida no som, o Diogo Ventura na fotografia e também o Miguel Gato, a Inês André Figueiredo, o Rui Pedro Antunes e eu, Miguel Vítor Dias, ao longo destes dois dias de trabalho, que terminam com a Iniciativa Liberal com um programa atualizado, mas sem novos estatutos.