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"Um novo ciclo para Montenegro" é o título do artigo assinado esta terça-feira no site do Observador pelo editor adjunto de política, o Miguel Santos Carrapatoso, é o colunista do dia aqui na Tarde Política. Muito bem-vindo, Miguel.

Olá, boa tarde.

Com o primeiro teste do orçamento do Estado superado e com oito meses de governação, já que estamos a encaminhar-nos para o final do ano, é também uma altura de balanços e de algumas expectativas para futuro. Um futuro que pode até ser de curto prazo, com eleições antecipadas em meados de 2026, a ver vamos. Até lá, e como tem dito o PS, não há desculpas para Luís Montenegro, tem de mostrar o que vale.

Sim, este artigo parte de uma constatação, que é perceber que vivemos um período muito particular durante estes oito meses, em que se discutiu muito uma possível queda do governo, eleições antecipadas, uma crise política e, portanto, isso, de alguma forma, e nós também fomos responsáveis por isso, dominou todas as análises, todos os comentários e também todas as intervenções que quer Luís Montenegro, quer André Ventura, quer Pedro Nuno Santos e os outros protagonistas foram fazendo. Esse ciclo acabou com a aprovação do orçamento do Estado e, portanto, agora abre-se um novo ciclo e este texto é sobre isso. Se durante este período o governo teve um guarda-chuva, dependente de dois fatores, este mesmo que falámos, que é a ameaça de uma crise política, mas também um certo reconhecimento de que a herança recebida não era fácil. Havia, de facto, muitos problemas, sobretudo nos serviços públicos, que importava responder imediatamente. E esse guarda-chuva está cada vez mais estreito e, portanto, de alguma forma, o governo está muito mais exposto agora e vamos entrar num ciclo que é decisivo. Daqui até meados de 2026, Luís Montenegro e o governo têm de fazer tudo para garantir que chegam às próximas eleições, e a minha convicção é que teremos eleições algures em abril, maio de 2026. Luís Montenegro e o governo terão de fazer tudo neste período até lá para ganhar força e para conseguir chegar às urnas numa posição de maior vigor.

E, portanto, é um tempo em que os casos e casinhos podem ter algum peso e, por outro lado, em que não basta apresentar planos e PowerPoints.

Sim, isso aplica-se a todos os governos, a este, a meu ver, aplica-se com especial incidência, porque Luís Montenegro e a equipa que o acompanhou durante o tempo em que foi líder da oposição, mas também durante a campanha eleitoral, criaram, de facto, muitas expectativas. Penso, por exemplo, no caso da saúde, com o plano de emergência para a saúde, em que foi sendo dito que seriam encontradas respostas para os problemas que existem. Sabemos que são problemas muito complexos, que demoram a resolver, mas o governo e Luís Montenegro não têm assim tanto tempo. Por ter criado, de facto, expectativas tão elevadas, este período será de grande escrutínio, de grande desgaste, com uma oposição à esquerda e à direita muito vocal. Já vimos também que, apesar da distribuição de aumentos salariais por várias das corporações, a paz social não vai existir. Vamos ter gente nas ruas, vamos ter manifestações. Vimos o que aconteceu com os bombeiros sapadores. Teremos também as intermináveis greves e, portanto, será um período de muito desgaste para Luís Montenegro. E falo disso também neste artigo, o que é que nos dizem as sondagens? Bem sei que as sondagens têm mau nome por estes dias, mas o que nos dizem as sondagens é que depois dos vários aumentos que o governo definiu, depois das várias promessas que fez, depois dos vários planos anunciados, o PSD tarda em descolar em relação ao Partido Socialista, que, sejamos francos, ultrapassou o período mais negro da sua vida interna dos últimos 10 anos. António Costa assumiu o poder em 2014, ninguém ouvia falar de contestação interna a António Costa. Pedro Nuno Santos passou por um período muito delicado. Também se dizia que André Ventura tinha ficado algo perdido e algo sem agenda e, em parte, parece-me uma análise apurada, mas mesmo assim Luís Montenegro continua sem descolar nas sondagens.

E por que isso está a acontecer? Está a subestimar o PS e o Chega? Está a falhar o quê nessa estratégia?

Mais do que da parte de relacionamento com os seus adversários mais diretos, diria que continuam a faltar alguns resultados concretos.

Até por causa das tais expectativas que foram criadas.

Exatamente. O governo prometeu muito e prometeu fazer muito diferente do que o Partido Socialista fazia. É verdade que já há alguns resultados positivos na questão do controle da imigração, parece-me evidente que a situação estava descontrolada e que o governo se tem esforçado para conseguir reorganizar a casa, pelo menos, mas continuam a faltar Continuam a faltar resultados muito concretos.

E é difícil chegar a esses resultados, porque esses que enunciaste há bocado, quer a saúde, quer a educação, não são matérias fáceis de se conseguir resultados num curto prazo.

Não são, e acho que aí voltávamos àquele outro ponto, o governo pode estar também a ser vítima das expectativas que criou e ao mesmo tempo numa maioria que não existe.

Frágil.

Uma maioria muito frágil. Está a ser vítima das suas condições políticas, das expectativas que criou, de alguma forma, e vimos isso também na questão da saúde, de alguns erros cometidos. Vemos também na questão da educação os números um bocadinho martelados, para dizer o mínimo. Tudo isso está a contribuir para causar algum desgaste. Eu recupero, porque achei graça recuperar, um conselho que Luís Marques Mendes, na dupla qualidade de candidato presidencial optativo, candidato presidencial apoiado pelo PSD e comentador dominical, tinha dado há um par de semanas, dizendo que o governo tinha, de facto, de recuperar a iniciativa política. E de facto tem, porque se nós compararmos, mesmo neste ciclo de oito meses, tivemos um primeiro momento em que todas as semanas o governo anunciava qualquer coisa, planos para todos os gostos. Depois houve ali um período, que é compreensível, em que se dedicou mais às negociações do orçamento de Estado, a meu ver, convencendo-se que ia haver eleições antecipadas ou até desejando que houvesse eleições antecipadas, e agora está em terra de ninguém há um par de semanas.

Até houve semanas com dois Conselhos de Ministros e agora não tem acontecido.

E portanto, o governo, de alguma forma, tem de recuperar iniciativa, mas mais do que no plano comunicacional, Luís Montenegro tem de começar a provar que é melhor ou que consegue fazer melhor do que António Costa conseguiu fazer ao longo dos últimos oito anos. Não é fácil, porque, mais uma vez, tem de fazer num curto espaço de tempo, com uma maioria muito frágil, mas se quer, e foi sempre esse o plano, assumidamente, se quer chegar às próximas eleições, que acontecerão muito provavelmente no arranque de 2026, no segundo trimestre de 2026, se quiser conseguir uma maioria muito mais reforçada ou até uma maioria absoluta, tem de facto de dar ao pedal e este ciclo que agora se inicia terá de servir para isso, seguramente.

E este ciclo tem eleições autárquicas pelo meio, eleições presidenciais, e isso são também desafios para Luís Montenegro.

São. Eu tenho algumas dificuldades pela nossa experiência recente, e sei que a Raquel também acompanha a vida interna do PSD. Eu lembro-me do que se dizia sobre Rui Rio, que nas autárquicas ia fazer um brilharete e de repente ia derrotar António Costa. O plano era mesmo esse. No núcleo mais próximo do Rui Rio, toda a gente acreditava que as autárquicas iam servir para, tal como serviram para derrotar António Guterres ou precipitar a queda de António Guterres, iam fazer o mesmo a António Costa. De facto, Rui Rio teve um resultado bastante positivo. Lisboa foi conquistada por Carlos Moedas e depois, mesmo assim, António Costa teve a maioria absoluta. Portanto, tenho alguma dificuldade em fazer uma leitura nacional das autárquicas, mas são sempre um desafio exigente para quem está no poder, tem de mobilizar o aparelho, tem de segurar câmaras importantes. E depois há a questão das presidenciais, que já se percebeu que não serão fáceis. O candidato, presumivelmente apoiado pelo PSD, Luís Marques Mendes, não está aparentemente a descolar. E já somou uma derrota nas europeias. Se pensarmos que as autárquicas poderão ser difíceis, e se a isso acrescentarmos um resultado amargo nas presidenciais, já são muitos resultados pouco felizes para quem está no poder.

Miguel, temos ainda dois minutos, acho que nem isso, mas vou aproveitar que estás aqui, porque és o nosso editor-adjunto de política, gostava de te ouvir também, já que falavas em presidenciais, sobre Santana Lopes, que hoje apareceu nas jornadas parlamentares do Chega.

Em verdade, confesso que é difícil interpretar a estratégia de Pedro Santana Lopes.

Mas tem gosto e simpatia por André Ventura.

Acho que ele faz muitíssimo bem em ir, porque consegue tempo de antena, consegue aparecer, consegue marcar a agenda, como se viu, consegue provocar Luís Marques Mendes. Logo à entrada disse que havia um comentador que andava a falar sobre o que deve ser o combate à corrupção. Também aí já conseguiu marcar pontos. Agora, há um dado indesmentível, as sondagens não ajudam Pedro Santana Lopes.

Tem pouco mais de 1%, 1,3.

Se dizemos que Luís Marques Mendes não está a descolar, Pedro Santana Lopes está numa situação bem mais frágil. O próprio fez depender uma eventual candidatura das sondagens que aparecerem entretanto. Já apareceu uma que também não é muito famosa. E creio que é Santana Lopes a ser Santana Lopes, a ser um político como é, a marcar pontos, a marcar agenda, mas que inevitavelmente terá de tomar uma decisão e a decisão com os dados que existem hoje não é muito favorável a uma candidatura presidencial. Enfim, sabemos que as coisas podem mudar, mas olhando para os dados que existem, não me parece muito provável que esta candidatura de Santana Lopes venha a sair do papel. Veremos, claro.

Nem ainda apalpar o terreno ao eleitorado do Chega.

Não me parece que André Ventura, tendo que apoiar um candidato, esse candidato tenha o perfil de Santana Lopes. Se olharmos para uma candidatura do VMelo, que vai muito mais em linha com alguns, não todos, mas com algumas das ideias do Chega, presumivelmente uma candidatura de Pedro Passos Coelho, que à partida não acontecerá, ou até do próprio André Ventura ou de alguém ligado ao Chega, tudo isso faz muito mais sentido, tendo em conta o que tem sido a estratégia de André Ventura até aqui, do que apoiar a candidatura de Pedro Santana Lopes, que ainda hoje fez questão de frisar que o coração dele é laranja e portanto não há que cá confusões nenhumas com o Chega.

Confusões a esse nível, mas está visto que vai tudo dar às presidenciais nos últimos tempos e hoje acabamos também por aqui conversar com o nosso colunista do dia sobre isso, mas o artigo que assina o Miguel Santos Carrapatoza é sobre o novo ciclo para Montenegro. Está em destaque na coluna de opinião do Observador.