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E o colunista do dia é "Passos em Volta", o título de um conhecido livro, dá título ao artigo de opinião assinado por Alexandre Borges hoje no site do Observador. É o nosso colunista do dia. Bem-vindo.

Olá, obrigado.

Aqui Passos é mesmo o ex-primeiro-ministro que tem estado de volta à ribalta midiática. O título do seu artigo é só um trocadilho ou pretende mesmo, de algum modo, fazer aqui uma analogia, Alexandre? Isto porque o livro de Herberto Helder é sobre um homem em torno da sua existência. Vê a existência política de Passos Coelho em transformação?

Exatamente. É um trocadilho leve, digamos. Agrada-me ter essa sugestão. É também uma canção do Jorge Palma, mas a canção do Jorge Palma também foi buscar o título ao livro do Herberto Helder. E sim, de algum modo, é isto. Passos é uma palavra bonita que se presta a muito jogo de palavras. Mas de facto, os Passos em volta permitem-nos pensar quer em Passos de volta, em volta, de regresso, quer na ideia de alguém que anda às voltas com a sua existência e eventualmente à procura de um caminho novo.

Mas surpreenderam-na as recentes declarações de Passos Coelho sobre a família e esta associação a movimentos mais conservadores. Vê nestas aparições uma estratégia?

Sim, ou melhor, para mim essa é um pouco a última parte, o conteúdo das suas aparições, o conteúdo porventura mais conservador, para mim é a terceira parte da questão. Há três. A primeira é este comportamento dos antigos líderes, das antigas figuras gradas da direita em Portugal, com que começa o texto, que é um comportamento um pouquinho estranho, mas que se tornou parece há um certo culto na direita em fazer isto em Portugal, particularmente este Cavaco Silva. Que nós nunca sabemos muito bem, este comportamento de oráculo. Brincando, vá-se lá quiser, é uma coisa assim de criatura mitológica, de Big Foot, do abominável homem das neves, de figura que de vez em quando é avistada e que nunca se sabe quando é que aparece, que gere muito os seus silêncios e as suas ausências, e quando aparece, tem um comportamento oracular de facto de coisas que precisam de ser desmistificadas, ou porque nós não sabemos exatamente o que é que pretendem fazer. Isto acontecia com o Cavaco durante pelo menos dois períodos diferentes da sua carreira política. Acontecia também um pouco com o Marcelo antes de ser líder do PSD e mesmo depois, quando também se fazia sempre muito desinteressado de uma eventual candidatura à presidência. Vamos andando nisto. E curiosamente, nos últimos tempos, se calhar estas figuras, enfim, Marcelo é presidente, Cavaco tornou-se até uma presença muito menos espectral do que antigamente. Apareceu assumidamente quase a ser um estratega do PSD do Luís Montenegro. De repente parece que ficou esse papel livre para Passos Coelho, para ser agora ele o espectro, a sombra que anda aqui em volta. Depois há este perfil em geral dos antigos líderes de direita. Há o caso particular de Passos, penso que o torna muito inesperado, na medida em que ele foi particularmente alguém que pareceu sempre pouco interessado nestes jogos, eu diria. Que goste-se ou não se goste dele, foi sempre alguém que pareceu atuar, de facto, com muito pouco tacticismo pessoal e oferecendo-se quase como um mártir em sacrifício daquela que via como a estratégia correta para o país. E finalmente, há de facto o teor das suas intervenções. De alguém que passou do desaparecimento quase total, do silêncio quase total, para aparecer em três eventos públicos por semana e com o teor das suas posições a ser, por um lado, surpreendentemente para mim, provavelmente não para quem o conhece melhor, mas para mim surpreendentemente conservador. E por outro lado, e esse será talvez o mais delicado, interferindo ou podendo colocar numa situação difícil o seu próprio partido e o líder do seu partido, que é o primeiro-ministro.

Pode Passos Coelho estar a pensar no seu futuro?

Pois, é isso que todos, acho eu, nos temos estado a interrogar. Diria que à primeira vez poderia ser uma coincidência, à segunda duvidamos, à terceira já começa a parecer que alguma coisa pretende, de algum modo.

Mas se for a pensar no futuro, também pode ser aqui um ajuste de contas com o passado ao mesmo tempo.

Exato, é isso. Ou seja, ele pode, evidentemente, acho que esta possibilidade é tão legítima como querer ser presidente da República ou até voltar a ser líder do PSD. É tão legítimo como isto ele simplesmente querer dizer o que pensa e não querer saber de mais nada. Tem, obviamente, todo o direito a fazer isto. Pode simplesmente querer fazer como todos os outros fazem e ser também um comentador e escrever as suas memórias, como percebemos na entrevista à Maria João Avilez, que deseja fazer e que até estará perto de o fazer. Mas realmente há uma certa vontade de ajustar contas e registando essa entrevista à Maria João Avilez, que é extensa e muito rica. É com muita gente. Parece que é com muitas coisas. É com Paulo Portas e o CDS, é um pouco também com Cavaco Silva, a quem agradece umas coisas e critica outras. Parece ser também um pouco com o PSD e talvez com um país ou uma opinião pública que ele sinta que não lhe fez justiça, talvez.

É talvez essa necessidade de não ficar com as culpas todas do passado, nomeadamente do passado com a troika?

Ele parece um bocadinho magoado com o fato de se terem tentado afastar dele. Parece um bocadinho magoado com o fato do PSD de Montenegro, que era o dele, como ele próprio diz nessa entrevista, que era o seu líder parlamentar e muito bom, como ele diz, mas que é parte dessa herança, é parte do seu legado político, mas que a determinado momento começou claramente, ou pelo menos em campanha eleitoral, a tentar afastar-se dessa imagem, que ele compreendia, no fundo, que Rui Rio tivesse feito isso porque era a sua oposição interna e não compreendia que o PSD tivesse feito isto agora. Mas acho que há certas coisas na vida que, de facto, os nossos amigos compreendem. Quem gosta de nós compreende, quem não gosta de nós não vale a pena tentar explicar. Acho que o papel político de Passos, a história ainda há de julgar melhor, naturalmente com cada vez maior distância dos factos, mas eu acho que o essencial dela está contado. Há muita gente que reconhece o papel absolutamente fundamental, e eu serei com certeza um deles, e que é difícil de perceber quem mais o poderia ter feito num momento decisivo da história de Portugal. Acho que lhe fica um bocadinho mal agora revelar algumas coisas sobre Paulo Portas a despropósito, ou sobre as dificuldades, ou sobre quem tentou ou não minar esse caminho, quando eu acho que quem tinha que perceber isso, de facto, o percebeu então e lhe deu o reconhecimento por isso. Acho que de facto a questão mais delicada de todas aqui, e isso é o que verdadeiramente me preocupa, porque é o que tem mais a ver com o futuro do país, é a aproximação ao Chega, é a recomendação de que, no entendimento dele, o PSD deveria pensar nesta coligação, porque isso não é verdadeiramente o caminho do PSD.

E pode vir aqui a alienar o eleitorado de centro.

Pode e naturalmente vai encostando a direção do PSD um bocadinho à parede. Vai porque dá uma caução intelectual e política à ala que veja essa como uma boa solução. Já nem vou pôr em questão se isso seria uma coisa boa ou má pro país. Mesmo só falando daquilo que seria o interesse partidário, vimos nas eleições anteriores como foi conveniente à estratégia do PS de António Costa, justamente colar o PSD ao Chega. Aparentemente, esse foi o ponto de viragem da campanha que viria a dar a maioria absoluta ao PS. Foi acenar com esse demônio que fez justamente afugentar o eleitorado do centro. Portanto, entender que esse deveria ser o caminho agora, parece-me desde logo errado enquanto instinto político.

Depois de anos de silêncio, entrou-se, ao que parece, numa época boa para os avistamentos de Passos, é uma das frases deste artigo de opinião assinado pelo Alexandre Borges e tive também de citá-la aqui, Alexandre. Muito obrigada por teres sido o nosso colunista do dia.

Obrigado eu, sempre um gosto.

O artigo, já sabe, está disponível e em destaque no site do Observador