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Em direto junta-se a nós o jornalista do Observador João Francisco Gomes, especialista em assuntos religiosos. João, pergunto se estas declarações do Papa Francisco o surpreendem ou se de alguma forma tudo isto é bastante coerente com algumas das posições que o Papa tem assumido ao longo do tempo.

Olá, boa tarde. De facto, não surpreendem na medida em que o pontificado do Papa Francisco tem sido marcado por uma gradual abertura da Igreja Católica à questão da homossexualidade, que, como sabemos, é um dos grandes tabus na doutrina da Igreja. Agora, se por um lado não surpreende, por outro lado é certo que é a primeira vez que o Papa diz de forma tão clara, tão contundente, que apoia a possibilidade de uma união civil entre pessoas do mesmo sexo. Isto é uma coisa que a Igreja Católica tem condenado ao longo da sua história e aliás, o próprio Bento XVI, antecessor do Papa Francisco, que ainda é vivo, portanto temos que esperar para ver que tipo de discussão é que poderá dar entre a liderança da Igreja Católica. Mas a verdade é que em 2003, quando o cardeal Ratzinger era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ele era o número dois do Papa João Paulo II para estas questões de doutrina. O cardeal Ratzinger escreveu num documento do Vaticano, muito concretamente, que o respeito para com as pessoas homossexuais, que está na doutrina da Igreja Católica, nunca poderia levar a que a Igreja admitisse que houvesse um reconhecimento legal das uniões homossexuais. É isto precisamente que o Papa Francisco está hoje a defender. É uma contradição direta daquilo que o antecessor dizia, mas não nos surpreende se olharmos para aquilo que o Papa tem dito ao longo dos últimos anos sobre esta questão. Logo no primeiro ano de pontificado, por exemplo, disse aquela frase que marcou muito o arranque do seu pontificado: "Quem sou eu para julgar?" Disse o Papa quando lhe perguntaram numa viagem sobre a possibilidade de mudar a doutrina da Igreja relativamente à homossexualidade. Agora, uma coisa é certa: na doutrina, o Papa Francisco não mexeu nem uma vírgula. Portanto, a doutrina da Igreja continua a dizer que a homossexualidade é uma desordem, que os homossexuais têm de ser acompanhados e respeitados pela Igreja, mas sempre na perspetiva de que a vida das pessoas homossexuais tem esta dimensão de sofrimento por viverem uma condição que é contra aquilo que seria a lei natural.

João Francisco Gomes, apesar disso que sublinhas o facto de a doutrina se manter inalterada, o facto é que o Papa Francisco tem esta posição de alguma forma progressista. Pergunto se este pode ser o início de um outro caminho para a Igreja Católica, por exemplo, quanto aos direitos LGBT.

Sem dúvida, já está a ser outro caminho. Ou seja, do ponto de vista da mensagem, é muito importante este tipo de palavras. Nós não podemos esquecer-nos que aquilo que o Papa Francisco disser sobre a possibilidade de união civil entre pessoas do mesmo sexo, na verdade, não muda nada do ponto de vista prático. O Papa não tem autoridade sobre os países que possam optar ou não por fazer alterações à lei nesse sentido. Agora, o que sem dúvida muda é a ideia que está instalada na sociedade contemporânea de que a Igreja se fecha à homossexualidade, à comunidade LGBT, e a ideia de que o Papa Francisco admite a possibilidade de uma união civil faz com que, de facto, se comece a mudar um bocadinho a consciência que existe na sociedade contemporânea face à Igreja. Até porque o que o Papa diz, no fundo, o que ele pretende com estas palavras é dizer que a Igreja não se deve opor a mecanismos legais, civis, que sirvam para proteger as famílias que não são heterossexuais. Pensemos, por exemplo, em casos em que um casal homossexual, pela lei do seu país, não pode estar oficialmente casado, um dos membros do casal morre e o outro membro do casal fica completamente desprotegido se não houver um mecanismo legal, que pode chamar-se casamento ou outro nome qualquer, que proteja o direito dessas famílias. Portanto, o que o Papa está a fazer, no fundo, é a dizer que a Igreja tem esta responsabilidade de apelar a que a lei dos países proteja todo o tipo de famílias e não apenas as famílias tradicionais no entendimento católico de há 2000 anos.