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Apito inicial para mais um relatório de jogo aqui na Rádio Observador. Hoje vamos olhar para uma surpresa: a derrota do Sporting frente ao Varzim. O Varzim que, nesta terceira eliminatória da Taça de Portugal, jogou em casa emprestada, jogou em Barcelos. Luís Francisco, uma eliminatória marcada por muitas eliminações de equipes da Primeira Liga, e o Sporting foi mais uma das gigantes a tombar nesta eliminatória. Uma surpresa.

Sim, é claro que sim. Naturalmente que nós sabemos que se trabalha cada vez melhor nas divisões secundárias, que as condições são cada vez melhores, que a organização também, que os técnicos têm outro tipo de formação, que os jogadores sabem também muito melhor o que fazer em campo. Esta própria regra de as equipes de primeiro escalão jogarem fora obrigatoriamente na sua primeira eliminatória nesta Taça de Portugal também ajuda, não só a levar a taça, a festa do futebol ao país todo, como a dar algum ânimo às equipes da casa. E, portanto, estamos num cenário, eu creio que inédito, pelo número de equipes de Primeira Liga que caem.

Se não me falham as contas, são já oito equipes, não é?

Exatamente. E, portanto, esse é um número muitíssimo significativo.

A metade da Primeira Liga.

Exato. E quando temos equipes de Primeira Liga a cair perante emblemas de escalão inferior, há sempre um efeito surpresa. Quando se trata de um dos grandes, a coisa torna-se, de facto, num verdadeiro tomba-gigantes, com destaque muito bem merecido por este Varzim, que afasta o Sporting numa altura em que o Sporting está psicologicamente a abanar, e aproveitou muito bem esse momento menos bom do Sporting, fazendo um jogo muito bom, porque o Varzim não foi apenas uma equipe que esteve lá atrás a defender e que depois acabou por marcar um gol para resolver a eliminatória, tentou sempre ser uma equipe no campo todo.

Ainda assim, para quem não viu este jogo, o maior pendor atacante veio da parte do Sporting. Não sei ao certo, não tenho aqui os números, quantos ataques é que foram feitos pelos Leões. Ainda assim, o Sporting dominou praticamente do primeiro ao último minuto, mas com poucas, neste caso, com nenhumas consequências.

Eu acho que basicamente a ideia que fica deste jogo do Sporting é que a equipe foi capaz de ser até dominadora durante alguns períodos de jogo, nomeadamente no início de cada uma das partes.

Os primeiros 20 minutos, se me lembro bem.

Vinte minutos e depois talvez 15, 20, na segunda parte, em que o Varzim teve mesmo muitas dificuldades para sair. Eu quase ouso dizer, nem é do seu meio-campo, mas praticamente do seu último terço, mas defendeu sempre bem, defendeu de forma solidária e o Sporting foi quase confrangedor frente à baliza, porque estamos a falar de uma equipe do Sporting que teve muitos ataques, muitos cruzamentos, mas muito poucos remates e principalmente muito poucos remates dirigidos à baliza. Eu confesso que estou aqui a olhar para as notas do jogo e não me recordo de nenhuma grande defesa de Ricardo Nunes, o quarentão veteraníssimo guarda-redes do Varzim, que não se pode dizer que tenha tido uma noite tranquila, mas não teve aqui grandes ocasiões para mostrar a sua qualidade. Isto porque à frente dele a equipe foi muito solidária e soube sempre trancar o Sporting. Um Sporting a que falta claramente contundência na zona de ataque, e isso ainda torna mais incompreensível o fato de a equipe não ter tentado mudar de plano.

Isto num jogo em que Rúben Amorim não se pode propriamente dizer que tenha feito muitas poupanças.

Nenhumas. Eu acho que jogou com a equipe que tinha disponível, com os jogadores que achava que podiam estar melhor para esta partida. Não é um plantel muito largo o do Sporting, já sabemos, por opções do treinador, assumo eu. Eu creio que por opção do treinador e também porque naturalmente lá dentro lhe devem ter dito que não havia condições para criar um plantel muito numeroso. Portanto, não havia aqui aquela lógica de dar minutos a jogadores com muito pouca utilização. Neste caso, o Sporting entrou com a equipe que podia entrar, mudanças na defesa, porque também tem três centrais lesionados e, portanto, nem sequer é um Sporting de poupança. Acho é que é um Sporting em crise de confiança e que nesta partida revelou uma incapacidade enorme para tentar mudar o jogo. Mudar o jogo significa mudar o guião, mudar a história. Não é mudar os intérpretes, porque de facto isso Rúben Amorim ainda foi mudando ao longo da partida. Ele foi trocando os atores, mas o guião da história foi quase sempre o mesmo. Uma equipe que rodeava bem, que tinha capacidade para ganhar os flancos, que procurava cruzamentos, que na segunda parte deu um certo ar mais dinâmico de envolvimento, não tanto pelas laterais, mas jogando também com o centro do terreno para puxar os jogadores do Varzim, não só obrigá-los a bascular no sentido lateral do campo, mas também a saírem um bocadinho da sua zona defensiva para abrir espaços, mas que depois no capítulo do remate foi de facto muito ineficaz.

Mesmo ao nível do sistema tático, e isto tivemos a oportunidade de falar ao longo da nossa emissão especial, o próprio adepto do Sporting que nos acompanhou nesta emissão especial de desporto. O João Castro falou diversas vezes acerca da necessidade, pelo menos neste jogo, de retirar um dos centrais. Isto poderia ter feito a diferença?

Eu não sei se poderia ter feito a diferença no resultado. Eu creio que pelo menos poderia ter feito a diferença na mensagem que fosse passada à equipe, porque me parece que o Rúben Amorim foi fazendo alterações para tentar dar outro tipo de desempenho a determinadas posições, mas não alterou muito essas posições. E o 3-4-3 foi sempre 3-4-3 e os três cá detrás, a certa altura, estavam praticamente a marcar-se a si próprios, porque não havia grande necessidade. Nenhum dos três centrais do Sporting é um central que saia com a bola nos pés e que se integre na manobra do meio-campo. Também não está muito no ADN da equipe, mas são jogadores que podem até ter qualidade de passe à distância e muitas vezes isso é solicitado para explorar os flancos com rapidez, e o Sporting faz isso como poucas equipes em Portugal, mas nenhum deles sai com a bola controlada, nenhum deles se imiscui ali naquela manobra de meio-campo Nenhum deles aparece com a bola no pé a criar desequilíbrios, a obrigar que a marcação adversária se mova. Isto quer dizer que os três lá atrás me parece que foram excessivos durante grande parte da partida, e nomeadamente quando se tratava de tentar ganhar o jogo já quase em desespero.

Parece que Rúben Amorim terá que fazer um trabalho semelhante ao que fez quando veio para o Sporting pela primeira vez, em que conseguiu conquistar o campeonato já há muito desejado pelos leões. Tem que fazer uma recuperação anímica, sobretudo, desta equipa para seguir em frente?

Eu acho que tem. Repara, eu durante o jogo usei a imagem do tipo que está em casa e que resolve de repente que vai correr 5 km, mas que se começa a pensar que tem que correr 5 km, não vai conseguir. Portanto, tem que olhar para próximo: "Vou correr só até àquela curva, vou correr só até àquele carro". E depois, no fim, pode ser que até consiga fazer os 5 km, mas com objetivos muito pequenos. O problema é que falhar um deles implica, naturalmente, quebrar ainda mais a confiança e, portanto, numa equipa que já está muito fragilizada, esta eliminação da Taça é muito difícil de digerir, nomeadamente porque me parece que não foi um acidente de percurso. Foi, de facto, uma manifestação de incapacidade do Sporting para conseguir desestabilizar a defesa de uma equipa de Liga 3. Jogou muito bem o Varzim? Sim. Jogou muito pouco o Sporting? Também.

Antes de irmos ao melhor e ao pior deste Varzim 1, Sporting 0, que ditou a eliminação dos Leões da Taça de Portugal, e até porque também já afloraste aqui neste relatório de jogo esta questão, faltam jogadores ao Sporting? O Sporting precisa de se reforçar no mercado para a segunda volta do campeonato. Isto já dando de barato que poderá levar, quem sabe, dois a três jogos a dar a volta a este mau período.

Agora aqui há duas opções: ou de facto quem manda no Sporting chega à conclusão que esta época pode ser entregue sem mais questões e deixar só a equipa rolar, mas há sempre um lugar na Liga dos Campeões que vale muito dinheiro e que, portanto, não convém nada pôr em risco, ou então resolve investir no mercado de inverno e ir contra os princípios de gestão que tem posto em prática. O Sporting precisa de mais jogadores e às vezes o que se tem dito sobre uma equipa grande é que normalmente precisa-se, e então com o calendário que a Liga dos Campeões tem esta época por causa do mundial, as equipas precisam de dois jogadores para cada posição e dois jogadores de qualidade muito semelhante para poderem rodar. Mas eu no caso do Sporting acho que não é só dois jogadores para cada posição, porque em várias posições até tem os tais dois jogadores de qualidade. Eu acho que não tem a capacidade para mudar de plano de jogo. Neste momento, é um plantel que joga desta maneira, com estas características, e se isto não correr bem, não há plano B.

Muito rapidamente antes de fecharmos, e até porque também fiz esta pergunta ao João Castro, adepto do Sporting, parece que neste momento o lugar de Rúben Amorim está em perigo?

Eu acho que não está em perigo, porque me parece que a forma de gerir do Sporting nesse aspecto é muito pouco emocional, ou seja, é uma gestão muito fria. E eu também acho que um treinador que foi campeão há duas épocas, quando não se esperava, que na época passada manteve o mesmo rendimento da equipa, mostrando que não foi um acidente de percurso, foi segundo, porque o Futebol Clube do Porto foi absolutamente avassalador. Não me parece que seja porque as coisas esta época não estão a correr tão bem que de repente se vai pôr tudo em questão. Depois, porque me parece também que Rúben Amorim ainda tem condições para tentar melhorar qualquer coisa. Acho é que do lado do Rúben Amorim tem havido a necessidade de explicar que está com a mesma camisola vestida e que não há mais jogadores no Sporting, que não há mais reforços, porque ele também disse que preferia assim. A verdade é que saíram entretanto jogadores e nessa altura ele já não ficou muito satisfeito, nomeadamente o Matheus Nunes. E a verdade é que me parece que se o treinador começar a gerir esta situação de um ponto de vista mais pessoal, ou seja, se começar a explicar em voz alta que algumas das limitações do Sporting não se devem ao fato dele, de repente, e a sua ideia de jogo terem fracassado completamente, mas apenas porque de facto não tem os artistas que precisa para fazer a equipa jogar melhor, isso vai criar algumas clivagens internas, porque até agora, presidente e treinador têm gerido muito bem o discurso no sentido de mostrar solidariedade interna. Eu creio que a situação do Sporting neste momento é muito explosiva internamente, há muita contestação dos adeptos. Os adeptos são assim, não está bom, muda-se, mas parece-me que se calhar mudar agora também não seria remédio para o resto da temporada.

A ver, vamos se esticares ainda mais a manta, podes ou não pôr um pé de Rúben Amorim fora do Sporting. Vamos então olhar para o melhor e para o pior deste Varzim 1, Sporting 0. Luís Francisco, o melhor?

O melhor, não há como não dizer isto. O melhor penso que foi a atitude da equipa do Varzim, mas não apenas a atitude, a atitude e a qualidade que a equipa do Varzim conseguiu colocar no jogo. Nunca foi uma equipa a jogar muito duro, nunca foi uma equipa que fechasse os caminhos para a sua baliza sem soluções para sair para a frente. Muitas vezes não conseguiu, porque o Sporting é o Sporting, obviamente, e não o permitiu. Mas o Varzim foi uma equipa com muito boa atitude e também muita qualidade no seu jogo. Belo trabalho de Tiago Margarida à frente deste Varzim, que está obviamente apostado em regressar rapidamente ao futebol profissional, à Liga 2.

E o pior?

O pior, acho que já abordamos isso aqui. O pior é que vimos um Sporting que se revelou impotente para marcar gols da maneira como estava a jogar e que nunca mostrou ter capacidade para entrar em campo com um plano B. Não há plano B neste Sporting. Se o plano A está a falhar, não basta mudar este ou aquele ator, eu acho que é preciso mudar o guião.

A história está contada, a análise está feita. Fechamos mais um relatório de jogo aqui na Rádio Observador com o comentador Rádio Observador para o Varzim 1, Sporting 0, a contar para a terceira eliminatória da Taça de Portugal, Luís Francisco.