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Carla, o senhor Manuel e a dona Licínia passaram a ter energia elétrica desde ontem ao fim da tarde. Estamos aqui na União de Freguesias de Marrazes e Barosa, cerca de 3 km do centro de Leiria. E a verdade é que foi praticamente um mês sem energia elétrica. Dona Licínia, eu toquei à campainha e estava a dizer-me que já há um mês que não ouvia a campainha.

Não ouvia. Eu sou até pessoa do estranho, porque já não ouvia há tanto tempo. Já nem me lembrava que tinha campainha.

Campainha e outras coisas também. Senhor Manuel, como é que foi este mês sem eletricidade? Como é que foi viver aqui?

Foi um mês complicado, tivemos que recorrer a métodos antigos e tínhamos pilhas, baterias que a gente ia carregar fora e que trazia e que se mantinham acesas aqui. Depois quando foi para trabalhar, tivemos que ter o gerador, que não é grande, que não podia com toda a carga, mas que desarrastou.

E que, para além disso, dona Licínia, o gerador era um bocadinho chato, não é?

Ai, o barulho. A princípio, eles iam: "Vai-me parar aquilo antes que é estar às escuras", porque aquilo era um barulho terrível. Eu sou do tempo em que não havia luz. E agora, neste momento, era assim, temos painéis solares. Não havia luz, não funcionavam. Como é que nós tomávamos o ducha? Dentro de uma bacia grande como antigamente. Aquecer a água no fogão. Por acaso, o fogão é a gás, foi a minha sorte. E então aquecíamos água no fogão, tínhamos dentro uma bacia grande, metíamos a bacia dentro do ducha e assim é que tomávamos banho.

Foi à moda antiga. Senhor Manuel, como é que foi ontem à tarde? Vieram aqui mexer naqueles cabos que vemos aqui, não é?

Ontem chegaram aqui os senhores que vinham mudar, tínhamos o cabo partido, que era para poder reparar para meter luz. Eu disse: "Olha, o cabo é aquele". "Ah, é aquele?" Eles nem sabiam que cabo era. Eu fui indicar onde era o cabo, seguiram o oposto. Primeiro foram desligar lá a corrente, porque o cabo na outra ponta ainda tinha corrente, e ligaram, foi 10 minutos, ao fim de 10 minutos estavam aqui a dizer que já tínhamos corrente.

Foi a última casa aqui, mais ou menos este local, não é?

Foi aqui nesta. Toda a gente ali do lado, porque como nós estamos ligados a eles, tinham corrente, só a gente é que não.

E foi reportando essa situação, foi reportando, foi fazendo queixa, ou como é que foi?

Fui fazendo queixas, com o presidente adjunto, à Canas, à E-Redes, à EDP. À EDP fui lá três vezes e um senhor da EDP, antes de ontem, ligou-me para perguntar se eu já tinha corrente. E eu disse: "Não, eu acho que não". Até por acaso estava na câmara. "Acho que não, só se foi há meia hora para cá". "Então, tem alguém que possa ver?" "Tenho, se eu tivesse corrente, já alguém me tinha dito que tinha corrente, porque eles estão lá a trabalhar, já alguém me tinha dito, mas até à data não me disseram nada". "Então, deixa estar que eu vou ver a situação". Seria disso que os senhores vieram ontem? Não sei.

A verdade é que vieram ontem e já têm energia ao fim de um mês. Senhor Manuel, dona Licínia, muito obrigado por me terem recebido aqui na Barosa.

Um apelo às pessoas que ficaram sem nada. Não desistam, continuem, porque estamos vivos e é isso que conta.

Muito obrigado por isso, dona Licínia e senhor Manuel. Muito obrigado por terem recebido. Eles que já desde ontem ao fim da tarde, têm energia elétrica ao fim de um mês.