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Em primeiro lugar, perguntava quão viável é esta possível coligação, tendo em conta que são dois espectros políticos muito diferentes. Falamos de uma extrema-direita e de um político mais ao centro. É viável e o que significa esta coligação?

Essa é uma pergunta um bocado complicada e basicamente esta coligação vem como uma surpresa e traz várias questões. Em primeiro lugar, a coligação acaba por ser de partidos de extrema-direita israelita, extrema-direita religiosa, extrema-direita secular e também de partidos do centro, que é o caso do partido do Lapid e do centro-esquerda também, se falarmos do Labour. As possibilidades desta coligação funcionar são escassas, ou seja, mesmo que vá para a frente, a solução possivelmente será um governo a prazo que não irá contar com muita paciência dos eleitores israelitas, porque vai ser um governo demasiado fragmentado e uma solução de governo que já permitiu que Netanyahu lançasse várias críticas em relação ao que será no futuro a questão da segurança, que é uma questão principal, principalmente para governos de direita. Qual será a relação deste governo com Washington, por exemplo, qual será a sua posição em relação ao Hamas em Gaza, em relação ao Irão. Ou seja, Netanyahu apresenta-se como um expert e como um político próximo de Washington e que domina todos estes assuntos nas relações internacionais e apresenta esta alternativa como uma alternativa que irá falhar certamente. Ou seja, é um bocado surpresa também pela parte de Netanyahu, porque tanto Bennett como Lapid, como Lieberman foram ministros em governos chefiados por Netanyahu. Por outro lado, esta solução acaba por ser uma solução de interesse, não é uma coligação de interesse, já que a única coisa que os une assim directamente é a sua posição contra especificamente Netanyahu, que está envolvido em vários casos de corrupção. Será então julgado se não conseguir renovar o seu mandato como primeiro-ministro. Para além disso, algumas tensões políticas também, já que Netanyahu durante a sua governação isolou Naftali Bennett, de alguma forma, isolou dentro do partido Gideon Saar e personalizou o partido à sua imagem e tornou-se a única figura possível de governar dentro do Likud. E aliando um centro e um centro-esquerda, que já se coligou outras vezes com o Likud, graças também à demasiada proximidade com uma direita ultraortodoxa que acaba por ocupar vários ministérios nos governos de Netanyahu e, por exemplo, alguns políticos do centro, como Lapid, recusam-se a participar nesses governos por demasiadas razões. E por fim, do interesse também desta coligação é o que está na base do Estado de Israel como Estado colonial. Ou seja, por muitas diferenças que estes políticos tenham, a grande massa que os liga é o fato de concordarem no regime do apartheid, de ocupação e de colonização da Palestina e de segregação dos palestinianos. Ou seja, se pensarmos num futuro acordo ou numa futura discussão bilateral com a Autoridade Nacional Palestiniana, com o Hamas, parece-me que continuará a ser impossível com estas figuras em frente a essa nova solução governativa.

Ou seja, não haverá uma abordagem ao exterior, que falava há pouco, diferente da que tem sido feita por Netanyahu?

Dificilmente. Ou seja, mesmo um dos partidos que possivelmente votará a aprovação deste governo, não fará parte, mas votará, que é o Meretz, que é um partido de centro-esquerda da chamada esquerda sionista, diz que apoia a solução governativa, sem ainda ter aprovado, mas que à partida apoia, por fazer parte desse arco anti-Netanyahu, mas que dificilmente trará algo de bom em relação a uma abertura para um diálogo com os palestinianos. Vozes representantes da OLP também já vieram dizer que este será um governo chefiado pela extrema-direita, como se sabe para já, Naftali Bennett será o primeiro-ministro israelita durante os primeiros dois anos, passando o cargo mais tarde para Lapid. Um representante da OLP já disse que sendo chefiado pela extrema-direita, eles esperam muito pouco desta solução governativa e que possivelmente não trará nada de novo. E essa tem sido, no fundo, a leitura geral, como o governo é tão partido em termos partidários e de certa forma ideológicos, que tentará lidar com a crise atual do Covid, com a possível crise económica do pós-Covid e que procurará manter o status quo em relação a algumas questões, em relação à ocupação e colonização será uma delas, para não tocar num assunto em que várias das forças acabam por ter uma abordagem semelhante em muitos pontos, mas também diferente. Por exemplo, o Bennett é um dos representantes dos colonos e dos colonatos, é um dos representantes políticos da colonização ilegal da Cisjordânia, ou seja, essa reconhecida ilegalmente pela ONU e pela maior parte dos Estados do panorama internacional, enquanto o Lapid, apesar de ter uma aproximação à ocupação de falcão, como eles costumam dizer, não tem uma visão tão aprofundada da colonização como o Bennett, que é um dos defensores da ideia da Grande Israel, ou seja, de que os palestinianos não têm direito a absolutamente nada. Ou seja, o mais provável é manter-se o status quo e a ocupação continua, a colonização da Cisjordânia continua, continua a construção de colonatos ilegais, mas sem uma intensificação das operações militares israelitas, aí também será uma resposta a Netanyahu, a não ser que haja alguma intensificação da resistência palestiniana, também como se tem visto e que tem chamado a atenção de todo mundo, tanto dentro de Do território do que é hoje Israel, como dentro da Cisjordânia e de Gaza. Ou seja, existindo a necessidade de uma resposta direta a essa resistência e para justificar também essa oposição de Netanyahu que esta coligação tenha essa força militar e tenha essa abordagem agressiva, possivelmente a aproximação será muito semelhante à de Netanyahu nesse aspecto.

Falava agora mesmo de Netanyahu. Como é que sai a imagem do atual primeiro-ministro, que sai após 12 anos? A avançar esta coligação, a sua imagem sai desgastada ou continua com muito poder?

É difícil dizer Netanyahu nos próximos anos. Se esta coligação durar e se Netanyahu for a julgamento, pelos dados que temos hoje, sabe-se que é possível e algo provável que Netanyahu seja preso e que possa cumprir uma pena até 10 anos. Se isso acontecer, a vida política de Netanyahu esgota-se, ele tem 71 anos agora. Agora, em termos de popularidade, Netanyahu continua um político extremamente popular, ou seja, é conhecido como um mágico, um bocado pela sua eficácia política na formulação de acordos, etc. E pela sua falta de ética também muito, porque encosta facilmente qualquer aliado político e adversário político. E é pena que os estados do Golfo e outros estados árabes não tenham percebido isso quando entraram nesses acordos bilaterais de cooperação com Israel, patrocinados por Trump também, porque Netanyahu preocupa-se com ele mesmo, geralmente. Ou seja, a sua popularidade continua em alta. E se este governo cair dentro de um relativo curto espaço de tempo, se esta solução cair, provavelmente Netanyahu aparecerá numa próxima eleição, se puder concorrer, fruto dos processos judiciais, aparecerá evidentemente reforçado e como a única solução, que é como ele se apresenta sempre. Ou seja, esta ofensiva militar em Gaza e a repressão dos palestinianos dentro de Israel, que se tem visto nas últimas semanas, e o aprofundar da limpeza étnica, são uma justificação de Netanyahu para se apresentar às alas mais radicais, que são cada vez mais dentro de Israel também, como a única solução e o homem de Estado exigente, senão intransigente completamente. Portanto, se esta solução falhar e Netanyahu puder concorrer de novo às eleições, possivelmente sairá reforçado.