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Apesar de ser uma situação grave, é uma situação recorrente, que ano após ano vai acontecendo, se repetindo e se agravando. Sem uma ajuda e sem uma contribuição para a solução por parte da tutela, é complicado dizermos que vamos ter uma solução, porque os meios de emergência pré-hospitalar transportam os doentes para as Unidades Locais de Saúde de Faro e Portimão e ao chegarem lá, não havendo macas disponíveis para deixarmos o doente, as Unidades Locais de Saúde retêm a nossa maca. Ao reter a nossa maca, ficam dois bombeiros e uma viatura retidas durante largas horas.
Não sei se tem esse número, uma estimativa de mais ou menos quanto tempo é que estamos a falar, em média, desses meios de socorro que ficam retidos nas urgências.
Neste momento, estão na Unidade de Saúde Local de Faro, seis meios retidos, pelo menos. Há uma corporação, os Bombeiros Voluntários de Faro, Cruz LuzA, têm um meio retido há duas horas e meia e têm cinco ambulâncias à sua frente. Estão seis macas retidas, pelo menos, seis viaturas e 12 operacionais, em Faro.
Nesta altura?
Hoje, neste momento. Isto foi há coisa de cinco minutos atrás, que tive esta confirmação, portanto, é atual. A média depende. A gente tem situações em que já tiveram uma hora, duas, três, oito, 16 horas, em que os bombeiros tiveram que ser rendidos. É algo impensável fazer-se uma rendição numa Unidade Local de Saúde, porque a ambulância está retida.
Já disse que são precisas respostas da tutela, do Ministério da Saúde, mas ao certo, o que é que está aqui a falar? É a articulação entre as unidades de saúde e os meios de socorro?
Acima de tudo, isto é um problema que vai mais a montante. É preciso ter a noção que quando um doente tem alta, a família ou a tutela tem que ter uma solução para o caso de o doente não sair da unidade hospitalar. Ou uma unidade de redes continuadas ou haver uma forma de mobilizar o doente, transferir o doente da unidade ou para sua casa, ou de familiares, ou para uma Unidade Local de Saúde continuada. Quando isso não acontece, é mais uma maca que está ocupada por uma pessoa que não tem necessidade de lá estar.
Então, estamos a falar de um problema de retaguarda social?
Também. Porque se calhar, 80% da causa dessas retenções tem a ver com esses doentes que não saem das urgências, nem saem dos hospitais. Depois não há macas para quem entra.
E que medidas é que a Federação propõe em concreto? Como é que se pode resolver esta situação? Sabemos que é uma situação que já disse, é recorrente, tem tendência a piorar nesta altura do ano, agora em que entramos numa fase, por assim dizer, mais crítica, o que pode ser feito, ou melhor, o que deve ser feito?
É assim, nós há cerca de dois anos, um ano e meio, propusemos aos anteriores presidentes de câmara do Algarve, cada município poder adquirir uma ou duas macas para depois serem cedidas às duas Unidades Locais de Saúde, Faro e Portimão. Nessa anuência por parte dos presidentes, nós solicitamos uma reunião com a administração, em que expusemos aquilo que nós nos propúnhamos e pedimos que nos dessem as características das macas para a gente, em articulação com os municípios, adquirirmos esse equipamento e cedermos às Unidades Locais de Saúde. Até hoje, estamos à espera da indicação dessas características. No imediato e de forma a minimizar este problema, o que é necessário? Macas nas duas Unidades Locais de Saúde, para que quando os meios de emergência pré-hospitalar lá cheguem com os doentes, possamos transferir esses doentes para essas macas de reserva. Não vai resolver, mas vai minimizar. Depois é preciso haver aqui uma ação de fundo, por parte da tutela, em que tem que criar condições para retirar os doentes das urgências, porque já tiveram alta, mas mantêm-se lá libertando as camas.
Se essas medidas urgentes, se esse aumento das macas, pelo menos não acontecer nos próximos tempos, prevê-se um verão muito difícil no Algarve?
Sim, sem dúvida. Acredite, com o que temos tido até o momento e com aquilo que é expectável que aconteça em agosto, acho que vamos ter um verão muito complicado a nível de emergência pré-hospitalar. E o nosso maior receio, à semelhança do que aconteceu no mês passado aqui em Faro, que foi um doente que esteve duas horas e meia à espera da chegada do meio na via pública, que venha a acontecer mais vezes.
Admite que esses casos se podem multiplicar agora nas próximas semanas, face a essa falta de macas e, consequentemente, da disponibilidade dos meios?
Poderão vir a acontecer. É uma hipótese, dada a atual situação que temos. Hoje é um caso disso, seis macas retidas, seis viaturas retidas, 12 pessoas retidas.
E há aqui algum plano de contingência que possa ser criado, algumas medidas nesse sentido, ou por agora, o único feedback que têm tido foi mesmo o silêncio por parte da tutela e da Unidade Local de Saúde do Algarve?
Nós, Federação, e eu próprio enviei este comunicado conjunto entre Federação e AMAL ao administrador, ao doutor Tiago Botelho, e não obtive qualquer resposta. Não nos disseram nada.
Até o momento, não receberam qualquer feedback.
Não. De certa forma, queremos alertar para que quando chegar agosto, a gente não tenha que chorar sobre uma possível fatalidade na via pública de alguém que não teve o socorro a tempo e acabou por morrer. Porque os meios ao ficarem retidos, os meios são finitos, as pessoas são finitas.
Deixam de existir.
E a gente deixa de existir. Suponhamos que os meios de Faro estão todos retidos. O que a gente tem que fazer? Tem que ir para Olhão, Loulé ou Alpoeira. E ir alargando. Quanto mais alargando a gente vai, mais tempo leva o meio a chegar. É uma situação que pode acontecer.
E é precisamente esse o alerta da Federação dos Bombeiros do Algarve. Muito obrigado pela sua disponibilidade.