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Temos agora ao telefone o Bastonário da Ordem dos Veterinários, Jorge Cida, a quem agradeço a disponibilidade para estar conosco. Muito bom dia. Como olha para o que se passou em Santo Tirso? Por aquilo que sabemos, esta situação ou a gravidade da situação poderia ter sido evitada.

Muito bom dia. Claro que poderia ter sido evitada esta desgraça que comove a todos e achamos que já não devia acontecer em Portugal, num país europeu e que se quer evoluído. Há N situações destas em Portugal e o que há que fazer, para já, neste caso, é realojar e tratar todos os animais que sobreviveram. Mas temos que fazer um levantamento nacional, é urgente, e andamos a alertar para isso há vários anos, fazer um levantamento urgente de todas essas situações que existem em Portugal. Pelos vistos, este abrigo, possivelmente, era ilegal, ou pelo menos foi lume. Ainda não tivemos condições de fazer um levantamento desta situação em concreto, mas pelas indicações que temos, há N situações dessas de abrigos em Portugal, muitos deles sem condições, muitas vezes por pessoas que não têm condições sequer para tratar desses animais, nem conhecimentos, que não têm um médico veterinário responsável. Enfim, é um problema nacional.

É um problema nacional que está identificado. Por que não acontece nada? Por que ainda não aconteceu nada?

Porque não há condições. Para se resolver este problema, precisa-se de um estudo aprofundado desta situação do abandono em Portugal. E esta situação está completamente descontrolada em Portugal. Os CRO, para quem não está muito atento a esta terminologia, que são os canis municipais, estão completamente superlotados. Alguns municípios nem sequer têm canis, os que têm, estão superlotados. E portanto, estas situações destes abrigos são situações para as quais não há solução, porque quem devia recolher os animais, que são as autoridades competentes, não têm solução para os recolher.

Jorge Cida, isso leva-nos para uma questão que tem a ver com a legislação e a proibição do abate dos animais nos canis. A legislação está correta? O que está a faltar para que ela possa ser aplicada na boa-fé com que foi criada?

Andamos a alertar há muito tempo para que se estude esta problemática toda e, felizmente, já na semana passada, nesta última quinta-feira, foi nomeado um grupo de trabalho, em que a Ordem está representada, para estudar esta problemática. Fizemos a primeira reunião na quinta-feira, vamos fazer outra na sexta. Esses problemas vão ser levantados. Iremos levantar como prioridade esta problemática dos cães abandonados. Enquanto não se combater na raiz o abandono, nunca mais este problema tem solução. E, portanto, tem que se fazer um levantamento nacional de onde é que estão os abrigos.

Mas combater na raiz o problema do abandono não vai perpetuar a situação? Sabemos que isso vai ser o mais difícil de conseguir fazer.

Não, é a única solução, porque como deve saber, existem dezenas de milhares de animais abandonados todos os anos. Estamos a falar 10, 20, 30, 40, 50 mil animais abandonados todos os anos. E quando digo animais, estou a falar de cães e gatos.

E como é que se contraria isto? Como é que isto se impede?

Tem que se tomar medidas.

Agravando a penalização?

Não, não tem nada a ver com penalização, tem a ver com instrução, tem a ver com medidas para que não se abandone os animais, criar medidas em que as pessoas não sejam obrigadas a abandonar seus animais e perceber se não há aqui também outras problemáticas envolvidas, porque consideramos completamente exagerado o número de animais abandonados em Portugal. E, portanto, esses abrigos pululam pelo país inteiro, muitos sem condições, como se viu, sem qualquer condição, sem qualquer controle, sem qualquer registro, sem qualquer legalização. Isto para nós parece extremamente grave e é por aqui que tem que se começar: fazer um levantamento nacional de todas estas situações. E estes abrigos só podem funcionar se tiverem condições para isso e tem que ter regras. É isto que nos parece fundamental e não tem havido, eu diria, uma vontade nacional para que este problema se venha a resolver.