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A última noite ficou marcada pela despedida de Roger Federer dos cortes de ténis.
Foi ao lado de Rafael Nadal que o tenista suíço jogou a última partida como profissional. Um jogo que terminou com uma derrota frente a uma dupla norte-americana a contar para a Laver Cup em Londres. No final, não faltaram lágrimas. O tenista suíço garantiu que o último dia como profissional foi um dia bom.
"Foi um dia maravilhoso. Já lhes disse que estou feliz, não estou triste. É ótimo estar aqui. Tudo foi a última vez. Apertei as sapatilhas uma última vez. Estar aqui com os amigos, a família, fez com que não sentisse tanta pressão. Pensei que fosse bloquear, mas estou feliz, consegui chegar ao fim. O jogo foi maravilhoso."
A noção de Roger Federer que terminou nesta noite a carreira como tenista profissional.
Diogo, vamos olhar para esta partida que pôs um ponto final na carreira de Roger Federer com João Lagos, antigo tenista e promotor de eventos desportivos, e também com o tenista Frederico Gil.
João Lagos, que tem o seu nome ligado ao Estoril Open. Bom dia, João Lagos. Bom dia também a Frederico Gil. Ontem Roger Federer chorou. Também se emocionaram? Se calhar começava por si, João Lagos.
Eu chorei à mirranho. Juntei-me a milhões e milhões de pessoas que se comoveram com esta partida do grande Federer.
Frederico Gil também chorou ontem?
Sim. Bom dia a todos. Sou sincero, não chorei. Não chorei. Agora é um momento histórico. Para mim é o melhor de sempre, Federer, em termos de nível de ténis.
Enquanto tenista, e os dois, tanto o Frederico Gil como o João Lagos, sabem o que é estar num corte de ténis, conseguem imaginar o que é que Roger Federer sentiu ontem, João?
Consigo, de certa forma. Vibrei com cada minuto da presença do Federer ontem nos ecrãs televisivos, no pré-jogo histórico que ele fez, este par que ele fez com o Nadal, que diga-se de passagem jogou maravilhosamente bem, serviu como nunca, um serviço que parecia que a vida dele não esteve interrompida em termos tenísticos de competição durante o último ano e tal. Teve uma série de pormenores técnicos verdadeiramente mágicos, que só realmente um personagem como o Federer era capaz de realizar e que nos brindou na última exibição enquanto competição propriamente dita. E a parte mais emocionante não é tanto a partida, mas todo o sentimento que esteve ligado a esta despedida. Ele a chorar convulsivamente, os aplausos daquele pavilhão, daquela arena do O2 em Londres, cheia de gente comovida e a aplaudir. E a comoção dele de mão dada com Rafael Nadal. Enfim, são imagens que ultrapassam largamente o ambiente do ténis e o meio do ténis. São imagens incríveis dos dois maiores rivais que em qualquer modalidade, no caso o ténis, que viveram durante tantos anos. Entre um e outro ganharam 40 e tal Grand Slams. E serem amigos e terem esta relação que é um hino ao desporto, sem dúvida nenhuma. E isso é talvez a parte mais emocionante ainda. A gente não se lembra que sequer nos estamos a despedir de alguém. Assistir a essas imagens é realmente fascinante e acho que é um grande exemplo para o mundo do desporto.
O Frederico Gil creio que jogou contra Roger Federer, teve essa oportunidade. Qual é a maior diferença dele para os outros tenistas todos?
Sim, o que o João está a dizer eu concordo plenamente. A diferença para mim do Federer para os outros todos tem a ver com a classe que ele tem, não só como jogador, mas sobretudo como ser humano. Digo várias vezes isto, eu privei com ele bastantes vezes nos Grand Slams e inclusive no US Open e em Wimbledon tivemos o locker room mesmo um ao lado do outro. E foi desde uma simpatia a uma conversa muito grande que tivemos em Monte Carlo numa altura sobre as palmilhas e sobre os ténis e explicou-me ali uma série de coisas, porque eu sofri algumas dores nos pés. E ele acabava por ter uma relação chegada comigo sempre, desde o jogo que jogámos aqui no Estoril Open, na Taça Davis, ele metia-se sempre comigo no balneário, ficávamos a treinar. Tínhamos ali uma relação engraçada. Com os outros era mais falar um bocadinho, mas ele sempre foi uma pessoa mais chegada e isso sempre marcou muito. E acho que não é fácil, o que o João estava a dizer, dois campeoníssimos, dois números um do mundo, haver um momento que é a despedida. É sempre difícil, eu acho que é um momento em parte triste, em parte ele também quis sair assim. É um momento difícil. É um momento sensível.
Acho que só eles é que saberão o que sentem e as batalhas, o esforço e o sacrifício que foi feito ao longo dos anos em prol da modalidade. Todas essas lágrimas são compreensíveis.
João Lagos, como é que o conseguiu convencer a vir ao Estoril Open?
Convenci-o por duas vezes. São atletas profissionais de eleição que fazem girar a roda deles e à volta deles milhões e milhões de dólares. E foi com 1 milhão de dólares cada vez que o convenci, naturalmente. Era para ser 1 milhão de euros e naquela altura deu muito jeito passarmos dos euros para os dólares, porque na altura dava um desconto de 30%.
Agora já não dava grande jeito.
Agora não dava jeito nenhum, mas naquela altura deu jeito e naturalmente o Estoril Open tinha um glamour e uma série de predicados que fez com que o Federer cá viesse e muitos outros números um. Tem até uma particularidade, dessas duas vezes que ele veio, eu tive a honra de o trazer a Portugal, na minha ânsia de divulgar o ténis neste país, de o tornar mais conhecido do grande público. Obviamente que no meio do ténis o Federer era e sempre foi aquilo que foi, mas para além do ténis, para as pessoas que não se interessam particularmente pelo ténis, a figura do Federer visitar e vir jogar o maior torneio português era certamente um fator de popularidade para a modalidade. Eu tive a honra e algum engenho e, graças a Deus, consegui trazê-lo. E uma particularidade: ele dessas duas vezes, uma ganhou e a outra não ganhou. E a outra em que ele não ganhou, quem ia ganhando era o Frederico Gil. O Frederico Gil foi à final nesse ano.
A final que todos queríamos era eu contra o Federer.
Enfim, olha, foi uma coisa memorável. O Frederico está aí, ele vai se lembrar melhor que isso. Ele teve a final na mão. Infelizmente não a conseguiu concretizar, mas para todos os efeitos esteve numa final de um torneio em que o Federer não chegou à final e o Frederico chegou.
Frederico, para terminar, lembra-se desse dia ou desse torneio? Claro que se lembra, naturalmente.
Claro que sim. Estive muito perto de perder nessa final por 6-4, 5-3, 40-15. E depois dei a volta, virei aquilo para 7-6, 3-0 e estou a servir a 3-0 no terceiro set, a uns minutos de ganhar o Estoril Open.
Tinhas dois breaks a teu favor.
3-0 a servir para 4-0. Depois de salvar dois match points no segundo set. Mas é o que é.
Exatamente.
E a final que todos queríamos era eu contra o Federer.
Exatamente. Andou por perto e o meu sonho esteve quase. Mas o ter tentado é o que nós temos a obrigação, é de tentar, fazer tudo para tentar.
Muito obrigado.
E nunca desistir.
Muito obrigado João Lagos e Frederico Gil pela vossa participação e por este momento aqui na Rádio Observador.