Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
João Veloso, numa altura em que as escolas voltam a fechar, hoje mesmo, para todos os anos letivos, eu pergunto-lhe: as crianças, os jovens e os adolescentes voltam a ter de ficar em casa, qual é o impacto que isto pode trazer e qual é que o impacto já tem trazido, numa situação que acontece desde março, para esta camada mais jovem da nossa população?
Em primeiro lugar, acho que era importante estratificar um pouco isto, porque a perceção relativamente a todas estas vivências vai ser diferente dependendo da idade ou do intervalo de idades de cada um dos grupos. Isto porque quanto mais velhas as crianças são, portanto os jovens, os adolescentes, mais próximos eles estão daquilo que é o pensamento adulto, o pensamento com menos fantasia e, portanto, a perceção que vão ter vai ser completamente diferente e as necessidades, por consequência. Um dos aspetos que eu acharia importante do ponto de vista das consequências é essencialmente a parte que tem a ver daquilo que a escola deve ser percebida enquanto um contexto dinâmico. Ou seja, fechar a escola não é fechar as aulas, apesar de se ter dado muito enfoque a isso. Fechar a escola é as aulas e o conhecimento que as aulas dão vai ficar limitado e isso vai ter consequências. Ainda ontem o professor Nuno Crato falava exatamente sobre isso. Há estudos que demonstram, de facto, que há aqui uma perda do ponto de vista das aquisições, que é importante e que tem que se ter algum relevo, mas há um conjunto de vivências do ponto de vista da dinâmica social, da dinâmica das interrelações e dessas aprendizagens, que de alguma forma vai sair também um bocadinho comprometida. Por outro lado, temos que ter aqui a atenção de que estas crianças também estão a viver em situação de tensão e de estresse, que no caso é um estresse coletivo, e que isto também é uma experiência que elas vão ter, que não teriam noutras circunstâncias. E também daqui vamos ter impactos importantes, como já estamos a ter e como nós nos apercebemos nas nossas consultas, em que temos cada vez mais jovens e mais crianças muito incomodados com todas estas incertezas, com todas estas vivências, essencialmente com dificuldade em perceber o que é que vai acontecer a seguir e como é que as coisas se vão processar a seguir. E, portanto, a necessidade de se poder pensar no futuro em termos de organizar bem e dar aqui um caminho claro às crianças e aos jovens. Portanto, quanto mais crescidos, mais necessidade eles têm de perceber qual é o caminho daquilo que vai acontecer a seguir. Se se conseguir fazer isso, as coisas serão mais tranquilas e é possível, particularmente para os mais velhos, reequilibrar e reorganizar um bocadinho estas coisas. Ora, há um impacto, que é o impacto coletivo que todos estamos a viver, em sentindo de alguma forma que há coisas aqui que estão em pausa ou numa vivência, que não é a vivência que todos nós esperávamos.
João Veloso, começou por falar na necessidade de estratificar, porque estas crianças todas têm idades muito diferentes. Perguntava-lhe só, no seu entender, qual é a faixa etária mais afetada? Ou seja, são as crianças mais novas, são os adolescentes? Quais é que são os que sofrem mais com este tipo de medidas, com este tipo de necessidade de ficar em casa e de não poder ir à escola?
Processos completamente diferentes. Só para entender uma parte, que é: os mais velhos, como já têm alguma capacidade de projetar o futuro, e portanto estamos a falar dos adolescentes, daqueles que estarão, por exemplo, no décimo, 11º e 12º, projetam o futuro e projetam o futuro em função das consequências que isto tem, por exemplo, no seus acessos à universidade. E portanto, uma preocupação extrema, muito acentuada na ideia de como é que vão ficar as coisas, como é que vai ser. Eu vou ser prejudicado, vou ser beneficiado? O que é que vai acontecer? E portanto, estamos a falar de jovens dos 15 anos, mais ou menos, para cima. Isto tem a ver com aquilo que são as expectativas que são colocadas sobre estes jovens do ponto de vista do acesso à universidade ou, em determinadas alturas, até no acesso a estágios, no acesso a empregos ou a qualquer outro tipo de planeamento que eles tenham feito relativamente à organização do seu futuro. No caso das crianças mais pequenas, a sua perceção de não irem à escola tem muito a ver com o facto de ficarem confinados com os pais e, portanto, não interagirem com os seus amigos, mas essencialmente com o princípio de se sentirem seguros e de que aquilo que está à sua volta também é seguro e claro. Daqui sugere-se sempre que os pais tenham esta capacidade de passar esta tranquilidade, esta ideia de que estão um bocadinho em controle das circunstâncias e da situação que está a acontecer, permitindo à criança entender as emoções que tem e que tem os pais com alguma calma dentro daquilo que é possível, que conseguem enquadrar e conseguem explicar essas situações. E depois temos os outros, vamos chamar aqueles que estão no meio, eu estou aqui a falar dos meninos dos 10 até aos 14, que estão um bocadinho mais dispersos, em que de facto a componente social e de interrelação social funciona aqui como um elemento absolutamente central. Ou seja, as aprendizagens são importantes e aquilo que a escola fornece é muito importante, mas essa não é tendencialmente a perceção deles do ponto de vista escolar. Tem muito mais a ver com a necessidade de estarem uns com os outros, a necessidade de conviverem uns com os outros Sendo que nessa faixa etária, por exemplo, tal como nos mais velhos, a percepção da segurança ou da insegurança não é normalmente, daquilo que temos percebido, o fator principal. Os fatores principais são exatamente esta coisa da desregulação das suas rotinas do ponto de vista das coisas que lhes dão um prazer real, um prazer pleno, que é conviverem com os seus amigos, irem ter com os seus amigos, fazerem aquelas coisas de exploração e descoberta que estas idades de alguma forma promovem. E, portanto, nós temos aqui percepções diferentes em função do desenvolvimento de cada um destes grupos etários. Eu dividi-os aqui mais ou menos em três, mas temos aqui diferentes. Sendo que a ideia sempre, independentemente da idade que nós estamos a falar, é que na percepção relativamente a isto, nós temos que ser capazes de transmitir segurança e nós temos que ser capazes de transmitir um projeto, qualquer coisa que todos eles entendam como é que vai ser. Faz parte, até inclusivamente, das medidas de proteção sobre confinamento, é as pessoas saberem quanto tempo vai durar, como é que vai funcionar, como é que estas coisas todas se organizam. Não havendo isso, vai haver maior desregulação, vai haver maior desequilíbrio. E eu alertava para uma ideia que não gostaria, enquanto psicólogo, e trabalho particularmente nestes grupos, com a ideia de, por favor, não olhem para a escola só como uma aprendizagem dentro de uma sala de aula. Olhem para a escola como um processo muito dinâmico, em interação de muitos fatores, que todos eles são uma aprendizagem. E nós não nos podemos esquecer que a própria pandemia é também assim uma aprendizagem. É uma aprendizagem individual e uma aprendizagem comunitária. E, portanto, isso também é um fator de aprendizagem. Eu digo isto, há muita preocupação relativamente à perda das aprendizagens, mas nós também temos que perceber que há diferentes aprendizagens e todas elas vão ser complementares no desenvolvimento das crianças.
Claro. João Veloso, não querendo roubar mais tempo, tenho só aqui mais uma pergunta para lhe fazer. Não é a primeira vez, não é que somos obrigados a um confinamento, que as crianças veem as escolas fechadas e têm que chegar a casa. Este efeito que estava a relatar, a explicar, estes efeitos já têm vindo a fazer-se notar nas crianças?
Sim, nesta altura, vamos lá ver. Eu aqui posso falar daquilo que é a minha prática clínica, que é vasta, e em mais que uma região do país e, portanto, de alguma forma, consigo ter aqui uma percepção com algum significado. E de alguma coisa que tem a ver com eu conversar com os colegas. Na verdade, nós nos centros de trauma da Universidade de Coimbra vamos lançar os dados de um estudo muito grande que foi feito em termos europeus, incluindo de Portugal, e que vão sair dados com muita relevância nos tempos próximos. Mas aquilo que eu lhe posso dizer é que existe uma pressão imensa neste momento para nós, psicólogos, e particularmente na minha área, que trabalho muito com crianças e adolescentes, uma pressão imensa de pedidos para estarmos e para intervirmos junto de crianças e de adolescentes. E, portanto, se me perguntar a mim, eu diria que se vai levantar, do meu ponto de vista, e portanto, isso é facto nesta altura, eu tenho a minha consulta cheia como nunca tive com lista de espera nesta altura. E para mim, nós vamos ter que estar muito bem preparados, o planeamento, esta preparação para aquilo que vem a seguir, porque muitas destas situações vão ter depois também impacto na fase seguinte, onde nós, entre aspas, controlamos este processo pandémico. Não sinto que haja nesta altura ainda muito planeamento ou preocupação relativamente a isso, mas há de facto necessidade. O problema que existe é que existe falta de técnicos disponíveis para trabalhar nestas áreas e, portanto, o acesso é um acesso que vai ser difícil. Por que é difícil? Porque a maior parte das vezes funciona quase que, eu não vou dizer exclusivamente, mas essencialmente em termos do privado e, portanto, aqueles que não têm condições económicas vão ter dificuldade para aceder, pelo menos na perceção que tenho de muitíssima mais gente, para aceder a intervenções psicoterapêuticas ou psicológicas diferenciadas. Portanto, são aquelas que são orientadas para este tipo de grupos especiais, para este grupo etário especial. E, portanto, eu tenho de facto alguma preocupação relativamente àquilo que vai ser o que é o presente. Nós neste momento estamos a trabalhar a 200% quase, e aquilo que vai ser a seguir. Se vai existir esta sensibilidade e esta capacidade de entender que pessoas que anteriormente tinham patologias leves ou quase ausência de patologia, ou quase ausência de sofrimento, vão ter essas situações ligeiramente agravadas, podendo algumas delas tornarem-se patológicas e, portanto, agravando a necessidade e a urgência das intervenções em termos psicoterapêuticos e psicológicos. E isso é uma coisa que já se está a ver nesta altura.