Acompanhe através deste artigo em direto a sétima noite de protestos na Praça D. João I, no Porto, contra a subida dos preços da habitação
“A gente precisa de encontrar o endereço da casa do primeiro-ministro e jogar um tijolo. (…) Acabou ontem essa porra de ser pacífico”. O discurso inflamado, proferido na noite de quinta-feira durante a assembleia popular do movimento “Acampada”, deixou Luís Montenegro preocupado.
Apesar de cortado, o vídeo divulgado pelo gabinete do primeiro-ministro é fidedigno e as declarações foram proferidas como surgem nas imagens, como ouviu o Observador no local. Luís Montenegro considerou preocupante “uma das passagens das intervenções feitas nessas manifestações”, onde “se faz um apelo direto à violência, à importação de conflitualidade (…) que tem ocorrido noutros países”.
“Onde até se ameaça diretamente a casa de habitação do primeiro-ministro e da sua família”, acrescentou.
O discurso, aplaudido pelas pessoas que ouviam de perto, foi proferido já no fim de uma parte da “assembleia popular” que ficou reservada a “depoimentos” dos manifestantes, momento que antecedeu a votação sobre a continuação do acampamento — que apesar de ter sido aprovada, foi revertida por alegada falta de condições de segurança. Esta reunião na praça aconteceu pouco tempo depois dos momentos de maior tensão da última noite, quando os manifestantes invadiram as ruas do Porto em direção à Avenida dos Aliados.
Esses depoimentos deveriam ter ocupado uma parte mais curta da assembleia, mas foram surgindo mais participantes que sinalizaram aos organizadores a vontade de falar. Antes das declarações inflamadas com Montenegro como alvo, discursaram várias pessoas que centraram o discurso no relato da carga policial que sofreram na madrugada de quinta-feira.
João Silveira e Pedro Manuel, dois dos representantes que mais têm articulado a comunicação do movimento com os jornalistas, estavam atrás do jovem que deixou Luís Montenegro preocupado. No entanto, o porta-voz da “Acampada” garantiu que este discursante “não faz parte da organização” e que “a organização não se revê” na mensagem.
Porta-voz acusa Governo de tentar “armar um espantalho”. “É uma palavra de ordem. É meramente figurativo”
João Silveira, porta-voz da Acampada, confirmou que o vídeo que circula nas redes sociais “é verdadeiro”, mas sublinhou que esta é uma intervenção “meramente figurativa” com a qual o grupo “não concorda nada”. Justificou os aplausos ouvidos com o “sentimento” por trás das declarações. “O vídeo é verdadeiro, eu estava cá. Estava a fazer mesa, ou seja, a controlar as inscrições. Uma pessoa inscreveu-se, como de costume”.
Depois, “a pessoa diz o que quer”. “Nós não temos controlo nenhum sobre isso e, portanto, é normal que haja intervenções com as quais nós concordamos muito e com as quais não concordamos nada. E esta é uma das claras em que nós não concordamos”, afirmou.
Ainda assim, João Silveira diz que “isso não significa” que a organização irá “mandar alguém calar”: “O objetivo é mesmo que todas as opiniões sejam mandadas à mesa. E nós simpatizamos com o sentimento do companheiro (…) porque as palavras que ele proferiu não magoam nem um milésimo do que magoaram as bastonadas do dia anterior.”
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Sobre os aplausos que se seguiram à intervenção, o porta-voz rejeitou ao Observador a leitura de incitamento à violência e justificou que a reação do público se prendeu com o “sentimento” por trás das palavras: “É verdade que o pessoal aplaudiu, mas sobretudo o sentimento e não as ações. Há uns anos também houve várias palavras de ordem aqui no Porto sobre ocupar a casa do Rui Moreira. Isso obviamente nunca passou à prática. É uma palavra de ordem. É meramente figurativo. Nunca seria para ser levado à prática.”
O porta-voz deixou ainda críticas a Luís Montenegro, acusando o Governo de tentar criar um “espantalho”: “É o senhor primeiro-ministro a querer, de facto, armar um espantalho à nossa volta, a querer que nós percamos a nossa integridade, quando a nossa integridade está perfeitamente intacta. Para além de que mais, se fosse preciso invadir uma casa do senhor primeiro-ministro, seria preciso escolher qual das 54.”
João Silveira garante que o movimento continua a ser “pacífico e ordeiro”.
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Advogado reconhece que discurso inflamado pode “prejudicar a imagem do movimento”
Tal como João Silveira, também o advogado Tiago Machado, em representação do movimento “Acampada”, demarcou o coletivo das declarações do manifestante: “Não estamos em nenhum momento de acordo com esse tipo de declarações. Repudiamos veementemente.”
O representante explicou ao Observador que o movimento costuma “respeitar quem fala” no modelo aberto de assembleia, mas rejeita que o grupo seja responsabilizado por intervenções alheias: “Já vieram aqui pessoas falar coisas que nada têm a ver com a nossa manifestação e com a nossa causa. Se houver alguém a dizer aqui coisas que são contra aquilo que nós defendemos, ou dizer barbaridades, nós evidentemente apenas aceitamos a vinculação da pessoa às suas próprias declarações”, frisou. Tiago Machado assumiu que a situação pode “prejudicar, de certa forma, a imagem do movimento”, mas garantiu que o foco da luta continua a ser exclusivamente a questão da habitação.
“O que é importante dizer-se é que o movimento não está em nenhum momento de acordo com isso. Temos palavras de ordem e slogans com o único e exclusivo objetivo de colocar em discussão o direito à habitação (…) É evidente que nunca iríamos passar um cheque em branco a frases e a discursos dessa natureza”, afirmou ainda ao Observador.
Na reação, antes da divulgação deste vídeo por parte do gabinete do primeiro-ministro, Montenegro disse ter “toda a compreensão para as pessoas que queiram respostas” na habitação e que “possam expressar a sua indignação sobre aquilo que, no entender delas, possam ser omissões das políticas ou um alinhamento menos condizente com essas ideias”.
“Nós temos todo o respeito pela expressão de indignação, de preocupação, de opinião política sobre todos os assuntos, e naturalmente sobre o assunto da habitação, que não é um assunto novo no nosso debate político, nem é um desafio novo no nosso país”, explicou, citado pela Lusa.
[Annie conhece o ministro do Interior de Cuba há muito tempo, mas a paixão que os une é relativamente recente. É justamente nessa altura que Zé Manel, como ela lhe chama, vai ser implicado num dos maiores escândalos da liderança de Fidel Castro. O “Caso Ochoa” envolve droga, fuzilamento, prisão e o narcotraficante mais conhecido do mundo: Pablo Escobar. Já pode ouvir o quinto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]