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Um estudo do Instituto Superior Técnico a que a Agência Lusa teve acesso e que partilhou hoje, diz que Portugal está a atingir o pico da atual vaga da pandemia. Um dos responsáveis pelo documento é o professor Henrique Oliveira, do Instituto Superior Técnico. Professor, eu pergunto-lhe se Portugal já atingiu este pico e o que é esperado nas próximas semanas.

Bom dia. Eu penso que o pico provavelmente já está a ser atingido. Eu digo provavelmente porque há sempre algumas incertezas, nomeadamente o facto do índice de positividade dos testes estar muito elevado. Está em 92%, nunca esteve tão elevado e continua a subir. De modo que uma estimativa, apenas olhando pra incidência, diz-nos que o pico da incidência, vendo os números oficiais, já está a ser atingido e nos próximos dias, provavelmente, já vamos ver uma descida. O pico da gravidade da doença já passou. Foi no dia 25 de janeiro. O pico que nós medimos no Técnico com o indicador multicritério com cinco pilares, que inclui também o efeito da vacinação, nomeadamente, que inclui a severidade da doença, a morte, os cuidados intensivos, os internamentos, o RT e a incidência. Este pico, que é um indicador muito expressivo do que vai acontecer no futuro, atingiu o seu máximo no dia 25 de janeiro, com 106 pontos. A partir daí, nós acreditamos que a doença já está na fase descendente, pelo menos olhando para todos os critérios em conjunto, não apenas pra incidência, que é uma coisa que preocupa muito as pessoas, mas que no nosso entender é importante, mas tem uma relevância reduzida face aos indicadores de gravidade da doença, que são muito mais expressivos.

Professor, e se já passamos esse pico de gravidade, quando é que se verifica a tendência de descida? Vai ser acentuada? Vai ser já nas próximas semanas?

Vai ser nas próximas semanas. Isso é garantido, não há a menor sombra de dúvidas. Por quê? Por causa dos mecanismos de propagação das doenças infecciosas. Isso já se conhece há muito tempo, pelo menos desde 1927, que há estudos científicos muito fortes, a teoria foi fundada nessa altura, que se sabe perfeitamente quando uma doença infecciosa se propaga desta forma, o que acontece? O que acontece é apenas a análise da saturação dos suscetíveis disponíveis na sociedade portuguesa. As pessoas já foram ou vacinadas com a terceira dose, sobretudo os mais vulneráveis e muitos outros. Praticamente quase toda gente que queira vacinar com a terceira dose, pode, está quase ao seu alcance. E depois temos a questão da infecção. A infecção já cobriu grande parte da sociedade portuguesa e, portanto, já não há árvores na floresta pra arder. Quer dizer, ainda há algumas, mas há cada vez menos. E nós quando saímos de casa e estamos infecciosos e encontramos pessoas, muitas dessas pessoas já não são suscetíveis de serem infectadas. Isto faz com que os números a pouco e pouco, por saturação, se reduzam. Ora, aqui é uma situação muito diferente, radicalmente diferente. Aqui que é o ponto-chave da questão, de fazer reduzir os casos devido a medidas. As medidas reduzem os casos de forma artificial, ou seja, reduzimos os contatos, aumentamos a dificuldade de transmissão do vírus com máscaras boas, e isso reduz muito a progressão da doença, mas mal abrimos um pouquinho a porta, a doença espalha-se outra vez, como se fosse um fogo. Agora estamos numa situação em que já é a própria sociedade, já são as próprias pessoas, os indivíduos, que não estão suscetíveis. De modo que as medidas já não fazem tanto efeito. O que faz efeito é mesmo a saturação dos casos. O declínio da doença é natural. Isso é muito importante, é uma fase nova da doença, é um novo paradigma. E podemos até pensar que se alargarmos agora as medidas, se libertarmos algumas medidas restritivas que ainda estão em vigor, isso, quando muito, atrasa um pouco a descida da doença, mas já não vai ter um efeito significativo, um efeito pesado na diminuição dos casos. E por isso que nós garantimos que, a não ser que venha uma variante severa, nova, que iluda completamente a vacinação, que evada a vacinação, na situação presente, nós vamos ter uma descida drástica do número de casos até o final de fevereiro. E depois, finalmente, vamos ter o número de óbitos a descer a partir do dia 10, 12 de fevereiro. Os óbitos andam atrasados. A pessoa adoece e não morre logo. Quer dizer, infelizmente, ou se não sei. O óbito é sempre uma situação trágica. Mas não morre logo e, portanto, passa 10, 12 dias até declarar o óbito, desde o registro da doença até o óbito. Ontem estivemos até por alguns instantes mais tarde a fazer essas contas e chegamos à conclusão que a distância entre a declaração do caso e o óbito anda por 10 dias, neste momento. E, portanto, só passado 10 dias do pico da incidência é que nós vamos começar a ver os óbitos a descer de forma também primeiro ligeira, a pouco e pouco, e depois muito significativa. Nós tínhamos estabelecido um máximo de 50 óbitos por dia, em média há sete dias, pra janeiro, e não foi quebrado. Houve dias, claro, com mais óbitos, mas a média há sete dias, que é o que é importante, não foi quebrada. Nós tínhamos também um desses relatórios, chama-se Relatório Rápido. É um relatório de análise, é um estudo, de facto, que faz a análise dos números recentes da pandemia. E é um relatório eminentemente matemático, embora também tenha algumas componentes epidemiológicas, mas analisa sobretudo os números e os indicadores. Nós tínhamos visto precisamente a situação de que os óbitos não iam subir acima de 50 por dia, em média há sete dias, e que o número de óbitos em janeiro, primeiro, a nossa estimativa de dezembro era de 1200 óbitos, no máximo, teto absoluto, não iria ser furado nunca, o que tranquiliza, de certo modo, as autoridades Fizemos uma segunda estimativa já no início de janeiro, que punha o teto em 1000 óbitos. Isso por quê? Porque a letalidade tem descido muito com o aumento da vacinação da terceira dose, sobretudo nas camadas mais idosas. Isso fez reduzir a nossa estimativa de óbitos, o que foi muito bom. A vacinação funcionou muito bem. A nossa última estimativa era o teto absoluto de 1000 mortos e, com uma certeza muito grande, de 95%, abaixo dos 900. Nós tivemos 814 óbitos, se as contas não me falham, em janeiro. Não foi um número muito significativo, foi até inferior a algumas epidemias de gripe sazonal muito severas que houve nos últimos anos. As doenças respiratórias reduziram muito, todas graças às medidas anti-Covid. De modo que o número de óbitos por doença respiratória Covid em janeiro foi muito limitado. As pessoas não podem pensar que esta fase da batalha não foi ganha. Foi realmente ganha. A vacinação resultou. Houve muitos casos, houve muitas pessoas internadas, houve algumas pessoas em cuidados intensivos, 170, o número andou por aí, estabilizou, mas esta fase final em que se confiou muito na vacinação resultou em pleno.

É possível saber, durante o pico da incidência, o pico que estava a descrever, quantas pessoas terão sido infectadas? Eu pergunto-lhe isto porque estou aqui a ler no relatório, diz que o pico da incidência atingiu um valor real de 130 a 150 mil infeções. Isto terá sido os casos durante este pico mais grave?

É verdade. Isso é muito difícil de estimar por causa dos testes. A saturação dos testes foi muito grande. Imagine, por exemplo, agora os testes estão a 20%. Nós, se quisermos apanhar 100 mil pessoas, temos que testar 500 mil. Isso não se consegue. Se quisermos apanhar 120 mil pessoas, tínhamos que testar 600 mil. É muito difícil. Nós não temos capacidade para fazer isso todos os dias e, portanto, não conseguimos apanhar os casos através dos testes. Os casos são muito suaves, a maior parte deles. Por outro lado, há aqui uma relação com os testes que inverte um pouco a conta, que é o fato de atualmente estarem a servir muito para confirmar o teste positivo que se fez em casa. Já não são testes propriamente aleatórios. Mas, de qualquer modo, nós não conseguimos testar mais do que aquilo que não temos capacidade. O sistema público e privado, como farmácias, laboratórios, não têm capacidade para testar mais gente. E por consequência, nós não conseguimos passar dos 60, 70 mil casos. O que aconteceu? Houve um dia que estivemos acima dos 60 mil. Estivemos próximos dos 60 mil casos, foi visto no teto. Claro que a média a sete dias, que é o que importa, nunca passamos dos 60 mil. Nunca. Nunca conseguimos realizar testes suficientes para detectar mais de 60 mil, em média, a sete dias. Por quê? A média a sete dias é muito importante, são dias em que não se fazem muitos poucos testes, que são os sábados e os domingos. E portanto, nós temos que olhar para a média de toda a semana. Finalmente, isso consegue-se estimar de uma maneira: se o pico da pandemia tivesse sido mais tarde, o pico da incidência, os números já estão a descer. Tivesse sido mais tarde, imagina, 20 de fevereiro, isso significava que tinham sido infectadas menos pessoas por dia. Como o pico foi mais cedo, um pouco, o pico foi acelerado muito por duas medidas: pelo fato das crianças na escola infectadas não isolarem a turma toda. Vai só a criança infectada pra casa e a campanha eleitoral. Isso acelerou muito os contágios. Até o nosso primeiro-ministro ficou infectado, provavelmente terá sido, creio eu, embora não haja certezas, durante a campanha eleitoral. Na campanha eleitoral houve realmente uma aceleração dos contágios. Isso antecipou o pico, que naturalmente estaria previsto para um pouco mais tarde. Nós estávamos a prever o pico, entretanto, até 12 de fevereiro, entre o início e 12 de fevereiro, e o pico começou a aparecer mesmo no início de fevereiro. Isso significa o quê? Significa que houve mais contágios do que aqueles que são reportados. Porque já saturamos os contágios, já estamos a descer. Eu não queria estar aqui a tirar o número pro ar, mas com a vacinação e os contágios, digamos, quase 100% da população portuguesa já tem algum tipo de imunidade. Isto é muito claro. Mais de 90%, certamente, já têm imunidade. Eu posso fazer essas contas com mais rigor, mas anda por aí. À vontade, 95%. Isso faz com que o número desça. Isso só se consegue com os tais 130 mil casos por dia a certa altura, ou seja, atingir esse pico para depois começarmos a descer. Isso só se consegue explicar olhando para as equações. Não se consegue explicar assim na rádio, com facilidade. Mas olhando para as equações, nós chegamos à conclusão que era impossível estarmos a descer agora se não tivéssemos tido esse número de casos. E portanto, por exclusão de partes, por uma análise mais detalhada das equações e dos números, chegamos à conclusão que tivemos mesmo esse tipo de contágios, esse número de contágios ao longo do final de janeiro. Interessante é que em janeiro de 2020 também tivemos, embora os números oficialmente tenham sido sempre muito mais baixos, porque ainda tínhamos menos capacidade de testagem. Mas aqueles 303 mortes que houve em certos dias de janeiro, eu creio que houve duas vezes, atingiu-se o número de 303 mortes no mesmo dia, significa que o número de contágios na altura também foi extremamente elevado, muito mais do que o reportado. Não é novidade, isso chama-se under reporting, há estudos sobre isso. O Instituto de Higiene e Medicina Tropical de Londres tem uma série de estudos muito interessantes sobre isso, com a equipe do professor Timothy Russell, epidemiologista matemático. E nós sabemos que, de fato, under reporting é subestimativa. Existe uma enorme subestimativa de caso em todo o mundo. Isso não é novidade nenhuma em Portugal, não estamos a acusar ninguém. Mas é impossível, por quê? Porque matematicamente não se consegue chegar lá com os recursos do sistema.

Professor, o que o senhor está a explicar é que se houvesse capacidade de testagem, poderiam sido identificadas 120 mil pessoas, creio que o professor disse.

Claramente. Imagine que toda gente fazia um teste diário automático, que tinha o relógio de pulso. Isso é impossível, não é? E o relógio mandava um sinal pra base de dados. Nós íamos apanhar esses números, certamente. É claro. Há outra razão que faz com que esses números não se atinjam. É o fato de haver uma camada muito significativa de pessoas que estão assintomáticas ou muito levemente sintomáticas, que nem sequer se testam. E portanto, há aqui dois fatores: há uns que têm leves sintomas e não se testam porque não há capacidade e há outros que não têm sintoma nenhum e nunca se testariam sequer. E portanto, esse número nunca vai ser apanhado, mas estão a contagiar e contagiaram durante alguns dias. E há inúmeros relatos disso, não é novidade nenhuma também.