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Vamos chamar também à conversa Jorge Rodrigues, é coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Bem-vindo, Jorge Rodrigues, e obrigado por se juntar a esta emissão especial da Rádio Observador, em que estamos a acompanhar estes acontecimentos que nos chegam da Venezuela. Jorge Rodrigues, encontra alguma explicação, alguma lógica nesta ação norte-americana hoje na Venezuela, na detenção de Nicolás Maduro e da mulher? E esta nota que também sai das declarações recentes de Trump que os Estados Unidos estão agora a ver o que é que se segue, quem é que fica a liderar o país.

Boa tarde, Ricardo. Ora bem, a lógica é Donald Trump. Se é que isso é lógica ou ilógica, mas a verdade é que o seu estilo agora numa administração 2.0 realmente sem os mesmos checks and balances que tinha antes na primeira, e da qual se livrou agora para esta segunda administração, naturalmente dá-lhe uma margem de projeção de poder em detrimento da aplicação do direito internacional e de uma forma exacerbada. Ele deixou bem claro quando no National Security Strategy se focou na preocupação com a sua near neighborhood, portanto com uma preocupação em desenvolver o que no tempo da Guerra Fria era designado por esferas de influências, em que vai buscar referências como a Doutrina Monroe, completamente anacrônica para a atualidade, acrescentando um corolário Trump, seja lá isso o que for, mas que verdadeiramente atribui um direito de intervenção aos Estados Unidos, quando esse direito de intervenção deveria ser considerado apenas em situações completamente enquadradas pelas Nações Unidas. Ora bem, isso é perfeitamente evidente que o faz, mas por que o faz? Há aqui basicamente duas grandes linhas, dois grandes vetores, se conseguirmos aglutinar tudo isso. Naturalmente que há um fator econômico direto, seja pelo petróleo que já vimos que tem algumas características muito próprias, mas são as maiores reservas mundiais, seja pelos minerais, baixito, ouro, ferro, etc. Mas julgo que é particularmente importante também a questão do vetor político, seja vetor regional, e aí sim, como vinha em linha com o que eu vinha dizendo, o controle de toda a vizinhança dos Estados Unidos e com isso assegurar uma esfera de influência de total controle dos regimes que estão na sua proximidade. Mas um segundo ponto que não é despiciendo, que é a nível global. Nós sabemos que Maduro os últimos com quem falou foi com uma delegação chinesa, nós sabemos que há contatos regulares da Rússia, portanto há aqui uma tentativa de marcar posição face a esses adversários que considera a nível global. Portanto, quer sinalizar que aqui ninguém mexe, esta é a minha proximidade geográfica e portanto aqui os Estados Unidos é que vão mandar. E, por outro lado, deixa algumas mensagens em aberto para evitar ser visto como um taco, ou seja, always chicken out, e portanto marcar bem quem realmente vai intervir em determinados momentos, criando o que ele adora, aquela imagem de loucura que ele considera extraordinária dentro da pressão negocial que gosta de desenvolver a nível internacional.

Jorge Rodrigues, também aproveitando a sua experiência militar. A ação a que hoje assistimos, ainda não conhecemos grandes pormenores, terá sido uma ação das chamadas Forças Delta das Operações Especiais Norte-Americanas. É preciso ter um elevado grau de competência e de preparação para fazer uma ação destas, aparentemente sem causar vítimas mortais. Como é que se faz uma ação destas?

Ora bem, vamos começar por um ponto. Dá a sensação de ter havido algum tipo de negociação.

Exato. Ajuda de dentro.

Sim, definitivamente dá isso, porque realmente mesmo com as melhores forças armadas do mundo e as tropas especiais extraordinárias e meios, etc, não haver grande resposta demonstra que há qualquer coisa que não foi normal. Por outro lado, foi dirigida a Chávez, mas não envolveu outros grandes atores do regime como Diosdado Cabello ou Vladimir Padrino, etc. Portanto, há aqui qualquer coisa que demonstra ter havido ali algum tipo de acalmar, ou seja, levem lá Maduro que o regime depois tenta se reorganizar e vamos tentar falar um pouco. Não sabemos ainda se foi assim. Relativamente à pergunta feita, pelo que nós sabemos neste momento, e a informação é muito escassa, poderá ter sido mesmo a Delta Force, uma força especializada neste tipo de ações diretas, em que há um enquadramento de recolha de informação prévia, uma recolha de informação de acordo com o sistema ISTAR, que envolve a vigilância, o reconhecimento com a permanente recolha de informação digital, mas também humana, ou seja, no local, de alguma forma assegurando com uma sobreposição de meios que a informação é fidedigna e que ele está naquela hora, naquele local. Depois há um enquadramento Normalmente utilizado pelos Estados Unidos com um grande desenvolvimento do vetor aéreo e por vezes naval de apoio de forças para alguns locais que são determinantes. Esses locais neste tipo de situação seria naturalmente o comando e controle e comunicações, ou seja, evitando uma qualquer resposta por parte das forças venezuelanas. E depois a ação em si ou por forças já infiltradas em território, ou seja, já dentro da Venezuela à espera de um momento para poder avançar, ou então infiltradas através, por exemplo, de helicóptero, como seria o mais lógico numa situação destas em que realmente são colocadas bem próxima do alvo e depois são exfiltradas para uma zona mais segura. Claro que isto envolve, e no caso dos Estados Unidos é perfeitamente evidente, enormes meios, enorme capacidade humana, muito treino, muita tentativa de realizar em ambiente mais próximo da realidade para prever situações extraordinárias e controlar qualquer tipo de ação de terceiros que possa vir a afetar. O sucesso, isto é uma missão que não poderia falhar, por vários motivos, mas o impacto político seria extraordinário de um erro que levasse, por exemplo, à morte de Nicolás Maduro ou mesmo à incapacidade de capturar. Não podia falhar e por isso para avançar era porque os Estados Unidos tinham grande garantia da probabilidade de sucesso. Nesse sentido, seria das missões mais complexas que podem existir, porque naturalmente há muitos fatores que podem surgir que não são controláveis. De qualquer maneira, esta força é especializada neste tipo de ações, já foi desenvolvida em vários teatros de operações, está a treinar em permanência para este tipo de missões e portanto teve todos os meios, seja de informações, como eu dizia há pouco, seja mesmo operacionais para a desenvolver.