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Neste jornal está agora em direto ao telefone João Jonas de Melo, do GEOTE, o Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente, é presidente da Mesa da Assembleia Geral. Jonas de Melo, bom dia e obrigada.
Bom dia.
Temos ouvido muita desilusão por parte das pessoas que vivem no local ou que acompanharam o que aconteceu depois deste incêndio. O que se passou? O que efetivamente mudou, se é que mudou alguma coisa?
Eu diria que mudou muito pouco. Essa desilusão dos moradores locais espelha a ausência de medidas estruturais a nível nacional. Há um aspecto positivo, se assim podemos dizer, que é um alerta maior para quão grave este problema pode ser. Só que, infelizmente, isso não se traduziu em medidas estruturais. Continuam a faltar uma quantidade enorme de quase todas as ferramentas de ordenamento e de gestão que permitam garantir que isto não volta a acontecer. Posso citar questões básicas, como por exemplo, haver um cadastro em condições, haver um inventário florestal em condições que permitam um planeamento a sério. Os planos de ordenamento florestal têm que ser participados e têm que ser eficazes, têm que ter meios no terreno pra atuar. Precisamos ter investigação a longo prazo que nos diga quais são as melhores soluções pra usarmos e precisamos ter ensaios piloto sobre essas soluções. Precisamos ter, para o uso em geral da floresta, modelos de negócio novos que, por um lado, remunerem os proprietários, porque estão a prestar, em muitos casos, um serviço. Uma floresta bem gerida está a prestar um serviço público, está a produzir água limpa, está a produzir controle de cheias, está a produzir biodiversidade. Precisamos de apostar a sério também na regeneração do território.
Mas esse caminho não está a ser feito, porque o diagnóstico foi traçado há cinco anos ou pouco tempo depois destes incêndios. Por que nada saiu ainda do papel ou pouco saiu do papel?
Temos diagnósticos fantásticos e até temos planos interessantes. Só que são coisas difíceis de implementar, que implicam, pra já, uma vontade política a sério de mudar o paradigma. O paradigma até agora tem sido votar o interior do país ao abandono. Essa é que é a realidade e, portanto, aquilo que se passa no terreno, em muitos casos, é decorrente, pura e simplesmente, do abandono. Tem que haver uma gestão proativa do território. E tem que haver uma gestão proativa, eu diria, em dois sentidos fundamentais. Um é que temos de regenerar os próprios recursos. Nós hoje em dia temos grandes áreas com os solos extraordinariamente degradados, e pra nós recuperarmos essas áreas, tem que haver medidas ativas de regeneração. É preciso restaurar os ecossistemas, não é apenas plantar árvores. É preciso restaurar o ecossistema todo. E isso há meio de projetos-piloto espalhados pelo país, mas não se está ainda a encarar isso como uma coisa estratégica e fundamental. Esse é o aspecto, se quiser, da base de recursos e ecológica. Depois temos outra dimensão, que é a dimensão socioeconômica. Tem que haver modelos de negócio que funcionem, que os proprietários dos terrenos tenham alguma esperança de ter desses terrenos algum rendimento, que hoje em dia não acontece, por isso é que estão votados ao abandono.
A questão do eucalipto está bem resolvida?
Não, a questão do eucalipto não está nada resolvida. O eucalipto tem sido usado como uma coisa supletiva, quando alguém não sabe o que fazer do seu terreno. "Olha, põe lá o eucalipto, se aquilo não arder, entretanto, a gente ganha uns trocos, porque ele cresce mais depressa". O eucalipto é uma espécie como outra qualquer. Nós usamos muitas espécies exóticas em Portugal, incluindo a nossa alimentação. Então o eucalipto tem o seu papel. Agora, como qualquer outro espaço, os espaços que têm eucalipto têm que ser bem geridos e se calhar instalou-se eucaliptos em sítios onde não se devia. Há áreas que deviam ser áreas dedicadas à proteção, dedicadas ao controle de cheias, à recuperação de áreas naturais, em que se calhar estão com eucalipto e não deviam estar. Agora, o problema não é a árvore eucalipto, o problema é como é que os espaços florestais e seminaturais são geridos ou não são geridos. Esse é que é o problema. E não há nenhuma receita. Nós temos um território extraordinariamente diverso, de norte a sul, do litoral pro interior. Temos paisagens extraordinariamente diversas, temos climas muito diferentes de uma ponta à outra do país. Portanto, as soluções têm que ser adaptadas a cada região ou a cada território em concreto. Isso não está feito. E, portanto, é preciso esse esforço de gestão do território, que passa, por um lado, por políticas nacionais, mas também passa por haver agentes no terreno, por exemplo, associações de produtores que funcionem efetivamente, que também tenham apoio público pra conseguirem funcionar, porque é uma tradição que existe pouco em Portugal.