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Conosco, em direto, está Gaspar Ramos, histórico dirigente do Benfica. Boa noite, Gaspar Ramos.
Boa noite.
Como é que acolheu esta declaração do novo presidente do seu clube?
Este é um discurso de circunstância curto, naturalmente, e que no fundo é o essencial, é aquilo que realmente nesta altura ele poderia dizer. A mim deu-me a sensação de que o Rui Costa estará numa ideia, que deve ter sido naturalmente partilhada por todos os seus companheiros de direção, de que esta situação será transitória, porque o Benfica tem naturalmente neste problema grossas situações para resolver no âmbito desportivo, no âmbito financeiro. E compreendo, de algum modo, a título transitório, que o Rui Costa apareça proposto para presidente, na medida em que os assuntos principais são de natureza desportiva e ele foi um companheiro de Luís Filipe Vieira, portanto era o homem da situação. Estava ao corrente dos assuntos e certamente é a pessoa indicada para continuar a desenvolver um trabalho que é necessário fazer agora, com muito cuidado, para que se possa ultrapassar estes problemas que o Benfica tem pela frente.
O Gaspar Ramos quando diz que esta é uma situação transitória, é a sua convicção que a direção do Benfica vai demitir-se para permitir que ocorram eleições antecipadas?
A partir da altura em que os problemas principais do clube estiverem orientados, e até paralelamente, eu não vejo outra alternativa senão exatamente a convocação de eleições. Para isso, naturalmente, há duas situações que podem ocorrer: ou o Luís Filipe Vieira acaba por se demitir, ou serão naturalmente os dirigentes que terão que o fazer para se poderem exatamente realizar as eleições. Eu acho que, neste momento, os próprios dirigentes que estão em funções têm que se mentalizar que vão prestar um grande serviço ao Benfica. Desenvolvendo o trabalho que é necessário agora e prepararem as eleições exatamente com vista ao futuro do Benfica.
Gaspar Ramos, qual é o timing ideal para a realização dessas eleições, tendo em conta essas necessidades que põem em evidência de preparação da nova época, das diferentes modalidades do clube e prepará-lo para essas eleições. Qual é o timing?
Eu acho que tudo vai depender do trabalho que for necessário fazer neste período transitório, mas eu acho que no fim do verão, portanto digamos que no princípio de outubro, o mais tardar, deverão ter lugar as eleições. Portanto, a preparação para esse ato deve ser feita já, em paralelo com aquilo que é o trabalho que tem que ser realizado para ultrapassar os problemas que o Benfica tem a resolver neste momento, para que em tempo devido e sem perda de tempo, com vista ao futuro, se possam criar condições para os sócios poderem ter a sua palavra.
Depreende das declarações de Rui Costa que é essa a vontade dos membros da direção?
Não depreendi no todo. E li algumas notícias em que me deu a sensação de que alguns dirigentes gostariam de terminar o mandato. Eu acho que isso não é bom para o Benfica e também não é bom para eles próprios, porque se isso viesse a acontecer, certamente haveria os benfiquistas a tomarem posição. Provavelmente iriam requerer uma assembleia geral com o objetivo de os destituir, o que seria penoso para estes homens. Porque é evidente, todos nós sabemos, benfiquistas, que eles tiveram ligado a um processo. Uns mais do que outros, tiveram ligados exatamente às decisões que Luís Filipe Vieira tomou. Mas, no fundo, há uma situação de descrédito. Temos que reconhecer isso, que é global. Isto só se resolve com novas pessoas, pessoas credíveis, que possam estar no Benfica com paixão e que possam levar a cabo a recuperação da imagem do Benfica, que foi muito degradada nos últimos anos.
Essa é uma questão que presumo que gostasse de ver esclarecida por parte do presidente, que assume funções de forma provisória no Benfica, se é de facto intenção dos membros dirigentes demitirem-se para provocar eleições ou não. Há outras questões que gostasse de ter visto esclarecidas nesta declaração de Rui Costa?
Eu gostaria, nomeadamente desta, de que sim, senhor, ele iria assumir a função de presidente neste período transitório, com vista a preparar as coisas para se poder fazer uma assembleia geral no sentido de promover uma nova eleição. Era isto, sobretudo, que eu gostaria que fosse dito peremptoriamente, porque é isso que os sócios do Benfica neste momento desejam. Porque se me perguntarem a mim: "Mas Rui Costa tem preparação para ser presidente do Benfica?" E eu poderei dizer: eu conheço muito bem Rui Costa, como toda a gente calcula. Eu estive na vida desportiva do Rui Costa no Benfica, desde praticamente o início até à sua saída para Itália. E, portanto, dou-me muito bem com ele e conheço. O Rui Costa foi um excelente jogador e isso ninguém pode pôr em causa. Agora, eu não lhe reconheço preparação para ser presidente do Benfica. Eu sou dirigente do Benfica desde 1974, quando deixei a minha atividade desportiva. Comecei como dirigente das juventudes amadoras, fui dirigente das instalações sociais, fui vice-presidente das instalações sociais e, mais tarde, fui dirigente do futebol, como toda a gente sabe, durante muitos anos. Durante 10 anos, à volta disso. E, portanto, eu sei o que é necessário, qual é a capacidade necessária para um presidente exercer as suas funções no seu todo, globalmente. E, portanto, eu não reconheço a Rui Costa a capacidade para poder ser presidente do Benfica.
E para assumir essas funções durante um período transitório necessário até à convocação de novas eleições?
Sim, eu admito perfeitamente. É isso que eu exatamente disse. Num período transitório, eu admito perfeitamente. Porque, senão, vejamos, já como dirigente do futebol, como sabem, eu fui um contestatário da forma de gerir o futebol. Desde há bastante tempo que eu contesto Luís Filipe Vieira relativamente à forma como o futebol tem sido gerido. E o Rui Costa estava encostado a eu. O Rui Costa estava identificado com aquelas situações, porque senão certamente teria confrontado o presidente e, em última instância, até se teria demitido, mas nunca o fez. Logo, eu também percebo que ele não tinha tanta capacidade para poder ser dirigente mesmo do futebol, quanto mais do Benfica, do grande Benfica, de um Benfica mundial.
E o Gaspar Ramos, tendo em conta este contexto muito particular da vida do clube, está disposto a regressar a cargos de direção no Sport Lisboa e Benfica?
Não, de forma nenhuma. Esse, para mim, é um assunto absolutamente fechado. Eu continuo a viver os problemas do Benfica, porque eu vivi profundamente o Benfica por dentro, com paixão e, portanto, tudo aquilo que diz respeito hoje ao Benfica, eu continuo a vivê-lo e a manifestar o meu sentimento, porque eu, felizmente, posso falar livremente, porque sempre tive independência, mesmo quando gestor no Benfica. E sempre fui capaz de dizer o que pensava, independentemente de as pessoas gostassem ou não. E, portanto, é a mesma função que eu neste momento exerço. Eu sou um crítico, sou um crítico no sentido positivo, é esse que me conduz, é criticar no sentido de apoiar as decisões que eu considero que são boas para o Benfica e mais nada. Não quero absolutamente mais nada.