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Sabemos agora que um homem morreu e que há, pelo menos, um ferido ligeiro neste incêndio na Serra da Lousã. Neste momento, não tem informação de mais bombeiros feridos?
Não, não há mais nenhum bombeiro ferido. Há, infelizmente, a contabilizar um bombeiro morto com 55 anos, um chefe com 39 anos de experiência, um homem bom, um homem efetivamente muito competente. E todos nós sabemos que a vida de bombeiro é uma vida de alto risco, de risco permanente. Muita gente, às vezes, não entende isso ou não sabe a dimensão do que é ser-se bombeiro nas mais variadas atividades. Todas elas são de risco, mas os incêndios florestais ou rurais, como queiram chamar, escondem sempre a traição, o ataque pelas costas. Numa floresta complicada e numa zona do pior que há, em termos de geografia, no nosso país, a Serra da Lousã, o Trevim, mesmo em dias normais, tem ventos terríveis a velocidades incríveis, quanto mais numa tempestade, trovoada, da forma que ela está a desenvolver-se nesta região, também em Vila Nova de Poiares, mas que não se compara a nada. Estamos a poucos quilómetros do Trevim, mas a amplitude da serra também torna o combate a um incêndio muito mais complicado. E há projeções que vão a centenas e a milhares de metros de distância. Nós sabemos que esse inimigo traiçoeiro como é o fogo, de repente os ventos mudam, a velocidade é incrível. É a natureza zangada, é a força da natureza contra a capacidade do homem, e muitas vezes o homem soçobra perante essa terrível força da natureza. E foi o que aconteceu a este homem, este bombeiro, este homem bom, que no cumprimento da sua missão de defender o património do país, o seu amor à pátria, a sua entrega, um bombeiro voluntário, mas competente. O voluntariado em Portugal não é sinónimo de amadorismo, é sinónimo de conhecimento, de saber, de competência, elevado ao patamar mais profissional que haja na Europa e no mundo. Mas mesmo muito competentes que sejamos, e somos, muitas vezes não temos o antídoto necessário que possa efetivamente lutar de armas iguais, porque não são iguais. E por isso, muitas vezes, vence o inimigo tenebroso. E assim, vencendo, apanha traiçoeiramente estas mulheres, estes homens e, neste caso concreto, este bom homem de Miranda do Corvo, que soçobrou perante esta realidade terrível de uma floresta complicada, difícil. E depois, quando surgem estas situações, é assim, as coisas acontecem. Só posso dizer: paz à sua alma, que Deus o guarde, que ele bem merece estar junto aos bons, porque era um homem bom.
E foram estas condições meteorológicas adversas que provocaram esta morte, na sua opinião. Tínhamos tido o aviso de trovoada seca. Terá sido essa a causa que começou este incêndio?
Durante a tarde, eu até estava com um ou dois bombeiros junto a mim e falei disso: "Olha, tem esta trovoada terrível que está aí, seca, não vem trazer chuva, mas vem trazer incêndios." É assim que foi. Isso é normal, nestas serranias aqui próximas. Também às vezes é o que tem acontecido em Vila Nova Poiares, na Serra de São Pedro de Dias, mas na Serra da Lousã é muito mais complicado. É uma cordilheira, não vai no seguimento desta serra que eu lhe falei. E muitas vezes isto acontece, muitos incêndios que acabam por eclodir com raios que efetivamente chegam à terra, apanham estes matos secos e efetivamente, muitas vezes não é só um incêndio ao mesmo tempo, são vários incêndios que acontecem, como hoje aconteceu. E depois, isto tem também a ver com uma falta de planeamento da nossa floresta. Mas não vale a pena estar agora a falar nisso, porque já não traz de volta aquele homem que eu conhecia bem e que apagou muitos incêndios debaixo do meu comando e nessa zona terrível. Mas é assim a vida de um bombeiro em Portugal e no mundo. Mas nós em Portugal temos uma estrutura diferente de qualquer país da Europa e do mundo, que assenta essencialmente, numa maioria esmagadora, em bombeiros que pertencem às associações humanitárias, bombeiros voluntários. Também há profissionais, obviamente, há uma mescla, um misto. E voluntariado não é sinónimo de amadorismo, como eu disse, é sinónimo de muita competência, de muito saber, de muito profissionalismo levado ao mais alto patamar de conhecimento e de saber. Dos mais desenvolvidos da Europa e do mundo. Mas mesmo esse saber e tudo isso não chega. Para combater este inimigo traiçoeiro e complicado. Tem as armas todas, tem a força da natureza e tem aquilo que o homem muitas vezes descuida, que havia de fazer no planeamento e no ordenamento da floresta, que vai demorar anos. Há muitos anos que andamos a falar nisto, há 30, 40, 50 anos que andamos a falar nisto, dentro da nossa atividade de bombeiros e de autarca. Mas este não é o momento para estar a descapitalizar isto. É uma reflexão que devemos continuar a fazer.
Considera que se houvesse planeamento das florestas podia evitar este tipo de situações?
Não se evita, porque Portugal vai ter sempre incêndios, mas minorava-se o impacto e o desenvolvimento destes incêndios, não tínhamos dúvidas nenhumas. Em Paços, por exemplo, uma semana aquela, estava a bater linhas de corta fogo com centenas de metros de largura e muitas outras coisas e espécies efetivamente resistentes ao fogo. Se bem que ali é muito complicado, muito difícil, há muitos matos, mas por isso também não era de grande prejuízo. Era deixar arder. Mas eu sei por que as pessoas correm riscos, porque naquela zona o incêndio pode progredir no sentido da Castanheira de Pera, ou para Figueiró dos Vinhos, ou para Lousã, ou para Miranda do Corvo, ou para outro lado qualquer. Porque há projeções que vão a muitos quilómetros de distância e essas pessoas vão ao combate, vão enfrentar de frente o inimigo temeroso, brutal. Porque sabem do risco que pode acontecer, deixar fugir o incêndio daquela zona. Deve ter sido isso que aconteceu. Não tenho o pormenor, não estava no local. Agora vão se fazer as análises, os estudos sobre as razões e vai-se efetivamente estudar e ver o que é que correu mal. Se é que alguma coisa correu menos bem feita, que não acredito. O que é? É o fogo traiçoeiro. Tem as armas, como eu disse e repito, tem as armas todas. É a natureza zangada. Quando chega a uma certa altura, temperaturas altíssimas, baixas taxas de humidade, ventos ciclónicos, autenticamente ciclónicos, com o combustível ali à mercê, acontece isto.
Muito obrigada pela disponibilidade.
Obrigado eu pela oportunidade de poder efetivamente trocar algumas impressões sobre esta situação.