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Junta-se agora a nós Isabel Alçada, escritora e antiga ministra da Educação, para comentar os resultados de um novo estudo da OCDE, " Leitores do Século XXI: Desenvolver Competências de Leitura num Mundo Digital". Isabel, um dos resultados deste inquérito fala sobre a leitura para os jovens e a relação entre os professores e a leitura. Quão importante é que os professores incentivem à leitura?

Essencial. É absolutamente essencial que os professores incentivem a leitura, porque só assim é que se atinge todas as crianças. Porque algumas têm a sorte de ter em casa incentivo, pais que leem, que gostam de ler, que leem com eles quando são pequenos, que lhes oferecem livros, que os encorajam a olhar para os livros e a ler. E que, de alguma forma, são modelos de interesse pela leitura. Quando isso não acontece, a escola é absolutamente determinante na diferença entre uma pessoa que vem a ser leitor e uma pessoa que vem a ser não leitor. E eu quando falo em leitor, falo em duas acepções. A primeira acepção é uma pessoa ganhar a competência de ler bem, ser capaz de seguir as frases de um texto e imediatamente compreender as mensagens que o autor ali incluiu, que o autor pretendeu incluir. E também ter uma outra coisa que acontece sempre que lemos, que além de compreender o que ali está, também atribuir uma interpretação pessoal. As pessoas mesmo dizem que tem que se estimular o espírito crítico. Todas as pessoas interpretam quando leem, não é só uma compreensão linear. Compreendem à luz daquilo que é a sua própria experiência, o seu conhecimento e as suas referências. Enfim, há toda uma série de fatores que levam a que cada pessoa leia de maneira diferente o mesmo texto, porque precisamente tem um mundo interior diferente. E portanto, essa competência de ser capaz de ler aquilo que está escrito e ser capaz de olhar para um texto com a confiança de que o vai entender, adquire-se na escola. Adquire-se a partir da escola, se os professores fomentarem a leitura desde muito cedo e ensinarem a ler, naturalmente, no primeiro ciclo. Isso é essencial. Aprender a ler bem logo nos primeiros anos de escolaridade é absolutamente essencial. Que os professores sejam capazes de conseguir que todos os seus alunos, e quando eu digo todos, é todos, sem exceção, fiquem capazes de decodificar, de compreender os textos, de se relacionarem com os textos com confiança. Mas para isso, como as pessoas são todas diferentes, é preciso que alguns tenham mais apoio do que outros. Nem toda a gente aprende ao mesmo ritmo.

E perguntava-lhe também, porque Portugal é um dos 14 países destes 77 que estão neste resultado, em que o estímulo dos professores para a leitura não está associado com o desempenho para a leitura. E eu perguntava-me por que acha que isto acontece? Por que os alunos são levados a ler e depois-

No nosso país temos tido várias situações. Eu há bocado estava a falar da competência da leitura, mas depois há o gosto pela leitura, há o interesse pela leitura, que geralmente nós dizemos que são os hábitos de leitura. Quando falamos em leitores, são as pessoas que têm o hábito de ler, que a leitura faz parte da sua vida. É claro que uma pessoa só adquire o hábito de ler, se ler bem, naturalmente. Mas, o que se passa é que no processo da aquisição da competência plena de leitura, a prática é muitíssimo determinante. Só lê bem quem lê muito na infância e na adolescência, ou seja, quem é capaz de, para além daquilo que são as atividades escolares obrigatórias, ser levado a usar a leitura como uma forma de compreender aquilo que se passa à sua volta ou até de se divertir. E portanto, essa ideia do leitor é uma pessoa que consegue ler bem porque teve várias experiências de leitura, passa muito pela escola. E o que é que acontece? Se os professores, para além de ensinarem a ler, lerem em alto na aula quando os meninos ainda não sabem ler, e lerem alto para eles livros que sejam sedutores e que os levem a querer ler sozinhos. Porque repare, um livro é como se fosse uma caixa que está fechada à chave quando a pessoa não sabe o que lá está dentro e não tem a chave. E a chave para gostar de ler, em grande medida, é ouvir ler. A pessoa quando ouve ler, e quando ouve ler bem, fica a perceber que aquilo é uma revelação. Eu tive essa sorte na escola e sempre tentei fazer isso como professora e quando lancei o Plano Nacional de Leitura, era precisamente isso que eu pretendia. Era que os professores todos colaborassem nesse processo, não só de ensinar a ler, mas também fazer gostar de ler, abrir a porta para a leitura, lendo com eles em voz alta e estimulando-os a ler depois autonomamente, escolhendo aquilo que mais lhes agradou entre aquilo que é apresentado nas aulas. E na verdade, isto aconteceu durante uns anos. Mas depois houve da parte do Ministério da Educação uma orientação que foi Que veio criar um corte com isso ao impor leituras obrigatórias, porque no Plano Nacional de Leitura, os professores podiam escolher ler com os alunos aquilo que lhes parecia que era mais adequado pra idade, pra competência e pro gosto da sua turma. Quando a certa altura, e agora já não está assim, felizmente, se impuseram leituras obrigatórias em cada ano, o que aconteceu? Vai se obrigar as pessoas a lerem, mesmo que não gostem daquilo que estão lendo. Os professores não gostam, mas têm que ler aquilo, os alunos não gostam, mas têm que estudar aquilo. E quando a leitura é uma área, é um espaço de total liberdade, do meu ponto de vista. E há tanta diversidade de livros, de autores, de temas, de estilos, etc, que é absurdo nós fecharmos em meia dúzia de livros e dizer: "estes são os bons e os outros ficam de lado." Portanto, eu acho que houve uns anos, e ainda há resquícios disso, recentemente, que essas leituras obrigatórias desde muito cedo, desde o primeiro ciclo, foram matar aquilo que o Plano Nacional de Leitura estava a fazer no nosso país.

Muito bem, e aproveitava aqui pra avançar pra outra questão, que é: os alunos que leram livros impressos acabaram por ter melhores notas e uma melhor performance. Isto mostra a importância do que é ter um livro físico e ter, de fato, o papel nas mãos, em vez de ter um ecrã?

Sim, sem dúvida. O ecrã é muito sedutor, porque o ecrã não é só pra ler, é para ir buscar outras informações e até pra divertir, pra ver coisas que são curiosas. As pessoas com um ecrã têm um acesso realmente a algo de incrível, mas é muito dispersivo. Uma pessoa está a ler e, de repente, pode saltar pra outra coisa no ecrã, até mesmo a própria sugestão da leitura leva a ir fazer outra coisa. E o que isso vai trazer? Isso está estudado, há realmente investigação sobre este assunto, é que a dispersão leva a que as pessoas não aprofundem tanto a sua capacidade de compreender. E o papel, o fato de ser fixo e o fato de se criar uma intimidade e da pessoa se recolher naquela atividade da leitura de um livro, leva a que a pessoa compreenda melhor e mergulhe melhor, porque o que o livro proporciona ao leitor que compreende o que está a ler, é uma espécie de mergulho numa atmosfera alternativa. E essa atmosfera alternativa tem que o envolver. Há mesmo correntes da investigação sobre a leitura que chamam a atenção para essa questão. O importante na leitura é que ela crie envolvimento. E esse envolvimento leva a uma maior compreensão, a um maior aprofundamento daquilo que se está a descobrir com o que se lê e, sobretudo, depois, a pessoa ser capaz de gerir a forma como ler com muito mais facilidade. Tão depressa lê rapidamente se quer tirar uma informação, mas sabe ir imediatamente buscar qual é a frase, o conjunto de palavras que lhe dão a informação essencial, ou vai ler de uma outra forma para perceber profundamente aquilo que está a ler ou para sentir profundamente um poema ou para ir investigar um assunto sobre o qual tem interesse. As últimas situações, o ler um poema ou ler um artigo científico, exigem, da parte do leitor, uma experiência que a leitura no ecrã muitas vezes não proporciona.

E pergunto também, neste índice feito para este estudo de ler por prazer, diz que a leitura diminuiu entre 2009 e 2018, de forma natural, digo eu, mas questiono, porque este índice indica também que alunos com estatuto socioeconômico mais elevado leem melhor do que os alunos com estatuto socioeconômico mais baixo. Isto combate-se pela escola ou também há outras ferramentas?

Sim, sem dúvida. E não só se combate pela escola, como está provado que a escola pode combater essa diferença. Há situações em que se tem verificado que o trabalho da escola, o trabalho dos professores, e a possibilidade dos professores escolherem e adequarem o ensino aos seus alunos, é essencial para se reduzir a zero o efeito da origem socioeconômica. Nós estamos sempre presos por isso, mas o que é verdade é que a escola consegue combater o efeito da origem socioeconômica, no sentido em que as pessoas que têm, à partida, uma situação menos favorável, o que a escola lhes dá e os benefícios que a escola lhes dá podem compensar. E se nós não acreditarmos nisso, e nós vemos que há realmente muitas situações, evidentemente, que quando isso não acontece, é porque a escola não está a atuar como pode atuar. Uma das coisas que, por exemplo, também está demonstrado, é que a escola funciona tanto melhor, quanto menos segregar. A OCDE tem isso mais que demonstrado. Se nós tivermos, por exemplo, escolas em territórios muito desfavorecidos, essas escolas vão ter muita dificuldade em ter bons resultados com seus alunos. Se os alunos das escolas de territórios desfavorecidos estiverem integrados em escolas muito mais heterogêneas, os professores dessas escolas vão ter muito mais facilidade em trabalhar com os alunos que vêm de meios desfavorecidos. Por quê? Porque o efeito da interação entre os jovens leva a que os que vêm de meios que não têm tanto estímulo, recebam esse estímulo Posso te dar um exemplo. Isto pra mim foi uma revelação: um miúdo que foi à casa de um colega e disse que na casa do seu colega havia livros numa parede do chão até o teto. Ele nunca tinha visto aquilo. Está a ver?

Sim.

E a mãe do colega disse: "Eu estou a ver que tu estás muito interessado nos livros. Olha, tu podes cá vir e ler o que tu quiseres." Isso foi uma revelação pra aquela criança. Se o mantiver num ambiente onde não há essa possibilidade de experiências, mesmo fora da escola, o fato de eles estarem integrados em grupos heterogêneos permite experiências muito diferentes. E eu acredito que nós podemos fazer muito pra melhorar a situação da aprendizagem, da leitura, se conseguirmos alterar essa circunstância de termos ainda escolas em territórios desfavorecidos. Portanto, haver uma maior inclusão. Isso vai um bocado contra o senso comum. As pessoas pensam: "Consegue-se ajustar melhor o ensino se tivermos turmas mais homogêneas." Errado. As turmas têm que ser heterogêneas pros miúdos com mais dificuldade serem puxados pra cima.

Uma última pergunta, que não se prende tanto com a leitura, mas gostava também que pudesse deixar aqui a sua opinião. Um dos principais focos desta análise foi que menos da metade dos jovens consegue distinguir fatos de opiniões. Como é que isso se combate?

Isso tem que ser de uma forma sistemática e, mais uma vez, a escola pode ter um papel importante. E a leitura também. A leitura, a análise daquilo que a informação fornece às pessoas. Quando digo leitura, também é a leitura de jornais, leitura de periódicos. É muito importante que as pessoas se habituem a ler e distinguir aquilo que é uma afirmação fundamentada e não, mas isso é um processo em que, realmente, se não haver uma mediação de quem está alerta pra essas questões, é muito fácil das pessoas serem ingênuas. É uma ingenuidade de quem não está habituado a questionar aquilo que aparece. E muitas vezes nós vemos isso, que as pessoas veem uma notícia e imediatamente tomam como verdade uma coisa que pode ser até uma opinião, e nessa altura é uma opinião, e se for até o próprio comentador ou o ensaísta apresentá-la como uma opinião, mas a pessoa não reparar. E então toma como um fato. E pior é quando há coisas que são mesmo falsidades deliberadas e as pessoas, como não têm espírito crítico, ingenuamente, tomam a falsidade como verdade. Isso é realmente um problema que nós temos que tentar superar com uma intervenção, mais uma vez, da escola. A escola tem um papel também muito importante, tanto no debate entre as colegas da escola, entre os alunos à medida que vão crescendo, os grupos que se organizam debatem entre si, mas se houver essa atitude do questionamento, da dúvida, percebe? A dúvida é uma coisa importante, e até o próprio duvidar da sua conclusão. Isso é um processo que se pode ajudar, é um processo que se desenvolve e as atividades que se fazem na área do ensino da língua, mas noutras também, por exemplo, na área da educação pra cidadania, é muito importante que isso se faça. Porque a área da educação pra cidadania permite precisamente criar esse questionamento sistemático acerca da informação, daquilo que nos rodeia, da forma como nós temos acesso ao que conhecemos, ao que sabemos, até o questionamento das conclusões da ciência. Hoje em dia, eu estou convencida que com a pandemia, com o fato da ciência ter tido uma presença mais constante nos meios de comunicação, que as pessoas hoje já olham pra ciência de outra maneira, com mais confiança por um lado, mas por outro lado também com mais questionamento e percebem que a ciência não dá uma verdade absoluta. E isso é muito importante, atingir esse nível de entendimento das coisas, eu acho muito importante e a escola realmente pode ter um papel essencial. Claro que as famílias também têm. Nós conhecemos famílias em que isso é constante, em que as pessoas estão sempre a debater, sempre a analisar, etc. É um privilégio ter isso. É ótimo, é belíssimo e é de incentivar que as famílias o façam. Mas aqueles que não têm a sorte de ter na família, têm que o encontrar na escola.