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Temos agora em direto ao telefone Manuel Lemos, presidente da União das Misericórdias. Bom dia, muito obrigada por se juntar a este jornal. Os idosos são os mais vulneráveis a esta pandemia e só ontem, nas últimas 24 horas, tivemos estas notícias sobre dois lares com utentes ou funcionários infectados.

Pois, infelizmente, isso aconteceu e infelizmente também tudo aponta que venha a acontecer em mais casos. Sendo verdade que os idosos são o grupo de maior risco, sendo verdade também que no caso das Misericórdias, mas também nos outros casos, por instruções da Direção-Geral de Saúde, nós limitamos ao máximo as visitas. A verdade é que continua a haver pessoas que entram e saem dos lares, naturalmente, que são os trabalhadores que têm as suas famílias e, portanto, precisam de, no fim dos horários de trabalho, sair.

E se olharmos para este caso de Famalicão, como é que se consegue tratar 33 idosos com apenas três pessoas a fazer este trabalho?

Isso é completamente impossível. As pessoas não vão ser bem tratadas, nós sabemos que é assim. Temos que encontrar uma fórmula de, ainda que as pessoas estejam infectadas, se não tiverem grandes sintomas, portanto, se tiverem leves sintomas, conseguirem com os equipamentos de proteção individual, continuarem a fazer uma parte do seu serviço para ajudar estas pessoas. Eu não sou especialista, não sou médico. Tentei inteirar-me junto dos especialistas para o caso de isso ir acontecer nas Misericórdias. Ouvi opiniões díspares, uns dizem que as pessoas devem parar imediatamente, outros dizem que esse risco é muito pequeno.

Mas deveriam ser feitos testes aos trabalhadores que estão em quarentena?

Isso com certeza. Isso não tenho a menor dúvida. Ainda hoje de manhã, a primeira coisa que eu vi foi na NBC, uma notícia de que a FDA, que é a maior autoridade no mundo para certificação de material médico, teria dito que tem a possibilidade de fazer testes, ou que aprovou um modelo de testes que dá resultados em 45 minutos, o que é completamente diferente dos atuais testes, que precisam, no mínimo, de 24 horas e às vezes mais.

E neste caso, já passaram algumas horas. E deveria também haver mais algum apoio por parte da Câmara de Famalicão, para além das refeições?

Tenho pronto a falar com o senhor presidente da Câmara. Agora, a minha questão é outra: nós precisamos urgentemente, mas desesperadamente, de equipamentos de proteção individual, porque tudo o que eu acabei de dizer não faz sentido nenhum se as pessoas não tiverem equipamento de proteção individual. As pessoas têm que, antes de entrar em serviço, mudarem de roupa e equiparem-se fortemente, porque não sendo possível, não sendo viável, não sendo sequer razoável, quebrar a ligação dos trabalhadores com as suas famílias. Isso não faz muito sentido, a não ser em casos completamente excepcionais. Nós temos que acautelar o mais possível os trabalhadores e os utentes e depois também as famílias. E isso só pode fazer-se com equipamentos de proteção individual, os EPIs, com abundância. Neste momento, Portugal tem uma falta muito grande e as instituições, desde o momento em que o vosso jornal me contactou até agora que estou a telefonar para aqui, já recebi duas chamadas de instituições a pedirem desesperadamente EPIs, porque estão sem equipamentos e temem que possa repetir-se o caso sobre o qual estamos agora a conversar.

E essas instituições, já agora, são quais? Ficam em que região?

São muitas, porque é generalizado. É generalizado, não vale a pena estar a dizer, mas é uma situação generalizada. Ontem recebi várias chamadas e, portanto, estamos a tentar tudo. Aliás, vale a pena dizer uma coisa, é que ontem seria 1 h da manhã, eu recebi um telefonema do senhor provedor da Santa Casa da Misericórdia de Macau, isso sim, tenho todo o gosto em revelar, a dizer que a Santa Casa da Misericórdia de Macau tinha adquirido na China um milhão de máscaras para oferecer às Misericórdias portuguesas. E esse é um dado extremamente positivo de solidariedade dentro do movimento mundial das Misericórdias, que vale a pena salientar, porque ele telefonou-me para dizer: "Olhe, conclui agora a aquisição de um milhão de máscaras". E isso é que é verdadeiramente fantástico, porque uma instituição lá do outro lado do mundo, nos antípodas, se preocupou com as pessoas aqui que estão a sofrer. Ele viu as notícias. É uma misericórdia com capacidade financeira e telefonou-me para me dizer isso. Isso é que é verdadeiramente novo e verdadeiramente interessante, sendo certo que enquanto elas chegam e não chegam, e um milhão não vai chegar, não é, com certeza, mas pelo menos vai aliviar aqui a pressão. E há outros equipamentos de EPI que são absolutamente fundamentais, como o gel, como as luvas, como aquela proteção para os sapatos, para as pessoas funcionarem. E nomeadamente quando há pessoas infectadas, a proteção tem que ser total. Não há outra forma, porque senão não vamos conseguir responder a todos os casos que vão aparecer.

E os casos têm aumentado a olhos vistos.

A curva, como a senhora ministra bem referiu, a senhora ministra da Saúde, e ela tem estado atenta a essa questão, com certeza, nós vamos ter um ciclo evolutivo. Seria extraordinário. Como isso aconteceu em todos os países do mundo, era impensável que não acontecesse aqui no setor social, solidário e dos idosos ou no setor privado, porque aqui não podemos fazer distinção nenhuma entre o setor privado e os outros setores. São pessoas, são portugueses, claro que são, e nós precisamos de os ajudar de todas as formas que nos for possível, porque a nossa responsabilidade é global, no sentido nacional da questão. Portanto, não podemos fugir a isso.

Manuel Lemos, muito obrigada por se ter juntado a este jornal, o presidente da União das Misericórdias Portuguesas.