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Sim, bom dia, Carla. Eu começaria por dizer que eu todos os dias tenho que fazer esse esforço, precisamente fazer esse exercício, porque uma análise que procura ser uma análise boa e rigorosa daquilo que está a acontecer, obriga-nos exactamente a usar uma grelha de racionalidade que é completamente diferente da nossa. Mas eu acho que sim, para responder diretamente à sua pergunta, eu acho que há aqui duas componentes do discurso que importa destacar. Uma primeira componente é a componente da narrativa, que já podemos depois falar dela, mas a segunda componente é, de facto, há aqui uma ameaça. É uma ameaça que não é assim tão velada quanto isso, apesar do próprio presidente não falar propriamente de armas nucleares, e antes dizer que a ameaça nuclear que paira vem do Ocidente. Lá está, nos obriga a fazer o tal exercício de racionalidade, porque ficamos perplexos com essas afirmações.

A chantagem nuclear do Ocidente.

Chantagem nuclear e do ponto de vista material, se nós procurarmos nos discursos políticos e nas notícias, de facto, afirmações desse gênero vindos do Ocidente, é impossível, nós não encontramos. Mas acho que a lógica nuclear é uma lógica do ponto de vista do emprego deste tipo de armas, que é completamente diferente da lógica subjacente ao uso de armamento convencional. E a primeira coisa que importa é, desde o princípio, levar muito a sério a possibilidade das ameaças associadas a um processo de escalada. Por quê? Porque exatamente a possibilidade do emprego de armas deste tipo foge muito à tal racionalidade comum que nós estamos habituados a usar do emprego das armas convencionais. Portanto, é muito difícil aqui controlar, porque é mais difícil que haver uma escalada progressiva. A capacidade de destruição das armas nucleares é de tal ordem, quer sejam as armas estratégicas, isto é, de longo alcance, quer sejam as armas táticas, ou seja, de emprego de teatro, portanto, com um emprego mais limitado, com um efeito mais limitado. O seu potencial de destruição é tão elevado, que falarmos aqui de uma lógica progressiva é muito difícil, não há praticamente espaço para isso acontecer. E portanto, eu acho que antes de mais, as autoridades ocidentais, evidentemente, tenho certeza que isso acontece, em particular em contexto da NATO, levam muito a sério isto e essa disponibilidade da liderança russa e das lideranças militares russas de porem sobre a mesa, de facto, a possibilidade de uma questão como a questão da Ucrânia, e não estou aqui a tirar importância à questão, a questão é relevantíssima, mas do ponto como ela o originou, que possa em sete meses, oito meses, nove meses, acabar por desencadear o emprego de armas desse tipo. Portanto, pelo menos logo aí, temos que levar isto com muita atenção e com muito rigor e tentar simultaneamente não claudicar a esta chantagem, mas sobretudo também não entrar numa lógica de medo absoluto e de dizer: "Então vamos já fazer imediatamente o que o senhor está a dizer, porque de facto essa chantagem cria-nos muito medo". Eu acho que a reação acertada aqui é sem grande retórica, desenvolver uma lógica de dissuasão com aquilo que é a capacidade nuclear que o Ocidente tem, que é de facto superior à da União Soviética, só que estamos a falar de destruições tão elevadas de um lado e do outro, que também é um bocadinho indiferente isso. Mas sobretudo usar, de facto, a possibilidade que nós temos de dissuadir a Rússia com a nossa capacidade militar, da Rússia usar a dela, essa é a parte mais importante. E para os ouvintes que nos estão a seguir, dissuadir significa exatamente isso. Muitas vezes nós não gostamos de pensar que existem armas nucleares e por que os países, nomeadamente democráticos, têm armas nucleares. Mas este é um exemplo acabado pela qual é importante o Ocidente, países democráticos e livres continuarem a ter capacidade nuclear. Não é para usarem, mas é para dissuadirem os outros, ou seja, para convencerem os outros de usarem a sua capacidade nuclear com racionalidades que são completamente racionalidades vindas de universos paralelos, como ainda agora estávamos a conversar.

Nessas narrativas de que fala, Lívia, hoje em Nova Iorque esperam-se intervenções importantes. Serão todas, obviamente, mas hoje, nomeadamente com Joe Biden, Lavrov também vai lá estar, vai haver uma mensagem de vídeo do Zelensky. Obviamente que estas ameaças de Putin vão ter resposta. O que é que poderá acontecer?

Sim, eu acho que vai haver aqui, tanto hoje como amanhã, momentos importantes. Provavelmente, Zelensky já teria, pelo menos, pré-gravado a sua mensagem e eu suponho que agora estará a preparar uma nova versão, tendo em vista a intervenção do presidente russo de hoje de manhã e o mesmo acontece com o presidente norte-americano. Portanto, eu acho que vamos seguir com muita atenção e ver o tom da resposta. Eu acho que, no essencial, a resposta tem que ser esta, tem que ser que independentemente do discurso que foi feito hoje de manhã e do seu conteúdo, nomeadamente do ponto de vista das ameaças, a Ucrânia continuará a fazer aquilo que lhe compete, que é reconquistar os seus territórios, que são seus de acordo com o direito internacional, e o Ocidente continuará a fazer aquilo que lhe compete, que é apoiar a Ucrânia no sentido de observação do direito internacional e da legalidade internacional. Eu acho que é isso que deve ser o essencial dos discursos destes dois presidentes. Sem grande alarmismo. Eu acho que não é necessário subir a parada do tom propriamente. O segundo momento, que eu acho que vai ser muito importante, acontecerá amanhã, já estava marcado, é uma reunião ao mais alto nível no Conselho de Segurança das Nações Unidas O Conselho de Segurança, como sabemos, é o órgão decisório principal da organização, não é o órgão onde estão presentes todos os países membros, isso é a Assembleia Geral, mas é o órgão que tem capacidade de decidir coisas sobre paz e guerra. E já estava agendado que essa reunião seria precisamente sobre a questão da Ucrânia. É absolutamente certo que o discurso que foi feito hoje de manhã pelo presidente da Rússia e depois também a mensagem gravada do ministro da Defesa Shoigu, vai ser obviamente analisado e discutido nesse contexto do Conselho de Segurança e são dois momentos importantes que nós temos que ver qual é o impacto e, nomeadamente, nos trabalhos do Conselho de Segurança, o que é que aparece como resultado. Porque o Conselho de Segurança pode tomar resoluções, muitas delas aliás, têm um caráter vinculativo e mesmo na sua dimensão de declaração política, são sempre muito importantes. Portanto, vamos ver com atenção o que é que é dito.

Vamos ver, sim.

Sim. Ó Carla, já agora deixa-me só terminar dizendo isto, até porque, por exemplo, em relação à mensagem do presidente Zelensky hoje, como nós sabemos, vai ser por via digital, o regulamento da Assembleia Geral não permitia que mensagens destas acontecessem. E houve uma votação, e a votação que aconteceu há relativamente pouco tempo, o resultado foi muito expressivo, 101 países foram a favor da autorização desta intervenção através deste modo, por razões óbvias, o presidente é um presidente de um país em guerra, e só houve sete votos contra. E países como, por exemplo, a Índia, que noutras votações se tinham abstido ou tinham votado, por exemplo, até do lado da Rússia, aqui claramente votou autorizando, defendendo que de facto o presidente Zelensky deve ser autorizado a falar. E só a Rússia e mais seis países que são os suspeitos do costume é que votaram contra. Isso mostra bem também aquilo que a Helena estava a falar há bocadinho. Nós às vezes pensamos no resto do mundo, como o resto do mundo, sobretudo não ocidental, estando dominado pela narrativa russa, mas não é necessariamente assim. E esta votação eu acho que já exprimiu bem isso e vamos ver se essa maré, de alguma maneira, se reflete também nos trabalhos que se vão realizar amanhã no Conselho de Segurança.