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Junta-se a nós, em direto, o presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa, José Miguel Trigoso. Bom dia. Obrigada pela disponibilidade.

Bom dia.

Que razões é que podem explicar que 10% dos acidentes mortais acontecem em apenas cinco estradas?

Vamos lá ver. De 2020 a 2022, nós temos uma diferença muito significativa, nomeadamente no que diz respeito aos anos de 2020 e 2021, por causa da pandemia, em que houve uma redução muito grande de tráfego em determinadas zonas e noutras não. E nós ainda não temos os dados definitivos, temos apenas os dados das mortes nos locais e não temos ainda acesso aos dados finais, como são contabilizados pela Europa, que representa os acidentes mortais a 30 dias. Por outro lado, não consta também nessas vias nada relativo ao volume de tráfego. Às vezes, ao longo do seu percurso, tem características muito diferentes dentro da mesma via. Por exemplo, estou-me a lembrar da NC25 ou do IP2, em que têm partes em que atravessam localidades, outras que são de via aberta, etc. Portanto, é difícil fazer uma comparação sem ter em detalhe os dados.

Portanto, estes dados não nos fazem um retrato muito preciso daquilo que podem ser considerados os pontos negros das estradas em Portugal.

Não, os pontos negros são pontos curtos, concretos, em que existem mais acidentes do que na média dos pontos semelhantes. Nós estamos a falar de estradas. Uma estrada não é um ponto negro. É uma via onde existem acidentes, há vias de muitos quilómetros, há outras de muito menos quilometragem, há vias com tráfego médio diário muito grande e outras com tráfego médio diário muito menor e nada disso está representado, tanto quanto eu sei, nesses dados que foram disponibilizados no jornal de notícias e que eu ainda não li, ainda não tive a oportunidade de ver.

José Miguel Trigoso, estes números surgem no dia em que vai ser apresentado aos deputados a nova Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária. Que expectativas é que tem para este documento?

Eu acho que o documento está bem feito e que se for aprovado e forem disponibilizados meios humanos, técnicos e financeiros para a aplicação das medidas que aí estão preconizadas, a sensação que tenho é que pode constituir um elemento muito importante para uma redução sensível de acidentes graves, de vítimas mortais e de feridos graves.

Quando fala em meios técnicos e financeiros, está a falar de quê?

Estou a falar de dinheiro para desenvolver as ações.

Sim, mas os meios técnicos passa também pela questão do dinheiro e do financiamento.

Pois, passa. E passa também por uma questão muito importante, que é meios humanos. Quem é que vai coordenar e ser responsável pela aplicação de cada uma das políticas que estão definidas nesse projeto e que têm que ser pessoas com experiência, com responsabilidade e com conhecimentos técnicos e científicos para desenvolver aquelas ações. Se forem disponibilizados esses meios, nomeadamente os humanos e os financeiros, acredito que sim. Se não forem, corre-se o risco de ser mais um plano que está bem desenhado e depois não leva a nada ou leva a pouco.

Esse plano, essa estratégia nacional, será muito diferente? Vai representar uma mudança muito grande na forma como olhamos para a segurança rodoviária neste momento?

Vai representar alguma diferença, sim. Nós temos, por exemplo, citou-me essas cinco estradas. São vias que, como disse, algumas têm travessia dentro das povoações, outras são autoestradas. Repare nas autoestradas, referiu-me sobretudo, se não me engano, a A1, não sei se há mais alguma dessas cinco. A1 é, de longe, a autoestrada com o maior volume de trânsito. Dizer-me que a A1, pela construção, é mais perigosa do que a A8, não é. A A8 é uma autoestrada, que como toda a gente sabe, por ser de curvas e com uma construção teoricamente menos segura, menores campos de visibilidade, etc. Mas tem muito menos acidentes nesse trecho do que o correspondente trecho da A1. Por quê? Por um lado, tem menos tráfego. Por outro lado, a sensação que dá e que transmite aos condutores é precisamente essa, de que é mais perigosa e, portanto, as velocidades médias praticadas são claramente menores. No entanto, por exemplo, não está aí representada nada no que diz respeito ao interior das localidades. E nós temos o problema mais grave, é o verificado em termos de sinistralidade no interior das localidades, em que temos taxas muitíssimo superiores às da média europeia, enquanto até fora das localidades, temos taxas de sinistralidade, mortalidade, ligeiramente inferiores. Tínhamos, até 2019. 2020, 2021 alterou muito as coisas. E nós ainda não temos dados.

Como aqui até nos explicou.

De 2020, já existem. De 2021 e 2022, lamentavelmente, ainda não estão disponíveis os dados detalhados relativos aos acidentes e aos danos