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Está agora em direto conosco o jornalista João Gabriel Lima. Bom dia, João Gabriel. Lula da Silva tem insistido muito na necessidade de se fechar o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Nesse sentido, estas viagens a Portugal e agora a Espanha podem dar frutos?
Bom dia. Sim, eu acho que sim. Essa viagem de Lula da Silva à Europa tem dois propósitos muito claros. Originalmente, na verdade, tinha dois propósitos. O primeiro propósito era justamente destravar o acordo União Europeia e Mercosul e também aprofundar as relações comerciais. No caso de Portugal, por exemplo, Lula enfatizou aqui que gostaria muito de ter empresários brasileiros e portugueses trabalhando juntos, mais ou menos na linha do que o presidente Marcelo Rebelo de Sousa sempre disse. O presidente Marcelo sempre falou que a aproximação entre empresários, deixar os empresários trabalharem juntos livremente dentro do contexto de uma moldura constitucional é favorável, um bom ambiente de negócio, era mais importante do que apoios comerciais. E no caso da Espanha, a Espanha é o segundo maior investidor direto no Brasil. O primeiro são os Estados Unidos. Então Lula conta ter uma parceria comercial grande com a Espanha, e a partir daí aprofundar com outros países da União Europeia também. Eu acho que o segundo sentido era o sentido simbólico, porque o ex-presidente Jair Bolsonaro não teve uma relação boa com a União Europeia. A União Europeia é importante pro Brasil tanto quanto os Estados Unidos, que é o maior investidor direto, e quanto a China, que é o principal parceiro comercial. Mas Bolsonaro não fez visita de Estado a nenhum país europeu, nem a Portugal, que tradicionalmente todos os presidentes visitam, nem Espanha, nem França, nem Alemanha. O único país da União Europeia que Bolsonaro visitou foi a Hungria, por causa da afinidade ideológica com o primeiro-ministro Viktor Orbán. Então os propósitos da visita de Lula eram esses. Simbolismo de reatar relações com a Europa e a questão comercial. Entrou, por causa de uma gafe dele, a questão da Ucrânia dentro da conversa e isso foi cobrado aqui em Portugal e está sendo cobrado na Espanha também.
Lula já teve que explicar novamente o que pretendia dizer em relação à Ucrânia. Entretanto, Jair Bolsonaro, no Brasil, vai hoje depor na Polícia Federal por causa da sua alegada intervenção na invasão em Brasília a oito de janeiro. O que pode sair daqui, João Gabriel Lima?
Na verdade, por coincidência, duas operações jurídicas vão começar no mesmo dia. Uma é o próprio depoimento de Jair Bolsonaro na Polícia Federal. Ele está sendo acusado de ter patrocinado os atos golpistas e de vandalismo que houveram no Brasil no dia oito de janeiro. E outra é uma CPI, uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que também vai abrir hoje. Comissão Parlamentar de Inquérito no Brasil é quando o Congresso Nacional investiga alguma coisa. Os próprios deputados pedem documentos para fazer uma investigação. É muito interessante isso, a CPI é até mais importante do que a questão da Polícia Federal, porque o depoimento da Polícia Federal vai ser hoje, depois do depoimento da Polícia Federal, vai ser analisadas provas, o decorrer das investigações. Agora, no caso da CPI, é algo que pode durar meses. E essa CPI é interessante porque os apoiantes de Jair Bolsonaro queriam abrir uma CPI pra investigar uma eventual participação do governo dentro dos atos de oito de janeiro. E o governo não queria abrir essa CPI. Mas, na semana passada, apareceu um vídeo mostrando que o chefe do gabinete institucional de Lula foi conivente com a invasão. Essa conivência com a invasão acabou causando a demissão desse general, o general Gonçalves Dias, que era o chefe do gabinete institucional de Lula. E aí o governo não teve alternativa a não ser abrir essa CPI. Ora, existe uma teoria conspiratória dos bolsonaristas que foram esquerdistas infiltrados que invadiram os palácios. Isso não é verdade, isso é uma teoria conspiratória, porque se sabe que a invasão foi feita por apoiantes de Jair Bolsonaro, que há muitos dias, desde o final da eleição, pedia um golpe militar. Mas que houve alguma conivência de algumas pessoas do governo, parece um fato. Então a CPI vai investigar essas duas coisas. E o que Jair Bolsonaro tem a ver com tudo isso? Bom, não existe nenhuma prova concreta que Jair Bolsonaro tenha instigado os acontecimentos do dia oito de janeiro pessoalmente e diretamente. Durante muito tempo no mandato dele, ele questionou as instituições, falou mal do Supremo Tribunal Federal, e existe um documento que é um documento muito importante e que também vai provavelmente vir a tona hoje no depoimento, até pra finalizar isso. Vai entrar hoje no depoimento da Polícia Federal, que foi encontrada na casa do Ministro da Justiça de Bolsonaro, que chama-se Anderson Torres, uma minuta de um decreto. E nesse decreto, o Ministério da Justiça pediria uma interferência no Tribunal Superior Eleitoral pra anular o resultado das eleições. É uma minuta, ou seja, o rascunho de um decreto. Anderson Torres foi preso por causa disso. E, obviamente, sendo ministro da Justiça, Jair Bolsonaro tinha conhecimento disso. Então isso é a única prova concreta que liga Bolsonaro diretamente aos atos golpistas. E isso vai aparecer na polícia e na CPI.