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A reação a mais uma das personalidades que temos estado a ouvir sobre esta escolha de Luís Montenegro. Junta-se agora a nós em direto João Leão, antigo ministro das Finanças, esteve com a pasta de 2020 até 2022. João Leão, bem-vindo, obrigado por ter aceitado o nosso convite para estar aqui conosco. Gostava de lhe perguntar, em primeiro lugar, sobre o perfil de Maria Luísa Albuquerque. Muitas das pessoas que temos ouvido têm dito que não conhecem o pensamento europeu, mas que conhecem o pensamento econômico financeiro de Maria Luísa Albuquerque. Nesse sentido, é um bom nome para ficar com uma dessas pastas mais financeiras como comissária europeia?

Parece-me uma escolha natural de um governo PSD, portanto é da exclusiva responsabilidade do governo fazer esta indicação. É uma pessoa com bastante experiência na área do Ministério das Finanças. Foi minha antecessora no Ministério das Finanças, também foi secretária de Estado nas Finanças e com outras funções na área das finanças. É uma pessoa que pode ter perfil para uma das pastas na área econômica, quer ser como comissária na área da economia ou dos serviços financeiros, ou outra pasta na área da economia. Eu penso que o perfil que tem e o fato de ser mulher, quando agora a própria Comissão Europeia está com dificuldade em atingir um equilíbrio entre as escolhas de homens e mulheres, pode ajudar a obter uma pasta com algum peso na área da economia.

João Leão, a maioria dos partidos mais à esquerda ou das vozes mais à esquerda, tem sido bastante duro com esta escolha. Até algumas pessoas têm dito que é uma péssima escolha, que é uma das piores escolhas de governação tomadas por Portugal. Gostava de lhe perguntar também, sendo também alguém que esteve mais à esquerda nos papéis que representou, se também vê a escolha de Maria Luísa Albuquerque como uma má escolha ou se tem esperança que possa ser uma escolha acertada de Luís Montenegro.

Do ponto de vista técnico e de experiência na área financeira, enquanto governante, quer como ministro, quer como secretário de Estado, é uma pessoa com perfil e com experiência relevante e adequada pro cargo em questão. Agora, uma dimensão importante é que é verdade que aos olhos dos portugueses e do país ficou muito associada ao período difícil da troika e nesse sentido gera naturalmente esse tipo de reações. Agora, também vai ser relevante aqui o tipo de pasta que assumiu, mesmo sendo na área econômica, se ficar com a pasta da área da economia, é muito diferente de ficar com a pasta, que também é muito importante, da área dos serviços financeiros. Na área dos serviços financeiros tem reformas importantes a tentar conseguir e atingir, reformas que já estão há muitos anos para ser concretizadas, em particular a integração do mercado de capitais na União Europeia, que é uma das grandes reformas que tem sido difícil de implementar e de aprovar. Se tiver a pasta de economia por outro lado, é uma pasta muito diferente, aí já está mais associada à dimensão de acompanhamento e da aplicação das regras de governação econômica dos diferentes países. Se ficar com essa pasta, terá um papel muito importante, e é importante aí que interprete bem esse papel, porque vai aplicar as novas regras de governação econômica num período em que a União Europeia está com alguma dificuldade do ponto de vista das finanças públicas e da dívida, em que vai ser um período muito sensível nessa área de como é que se vai conseguir trazer os países para a convergência do ponto de vista económico e de cumprimento das regras que temos até agora. É preciso uma pessoa que saiba interpretar bem essas novas regras, que dão muita margem de discricionariedade à Comissão Europeia, ao contrário das regras anteriores, que eram mais rigorosas. E portanto, vai ser importante que essa pessoa consiga interpretar isso de uma forma não rígida, mas com flexibilidade e inteligência para conseguir o melhor para a União Europeia e para os diferentes países, evitar situações mais difíceis de austeridade.

Gostava de lhe perguntar precisamente sobre a austeridade e sobre um dos pontos que já mencionou aqui, que também foi mencionado por vários dos elementos que já ouvimos, que é a Maria Luísa Albuquerque chega à Europa com esse vínculo ou com essa imagem de alguém muito ligado ainda aos tempos da troika, uma era europeia também difícil, uma altura difícil, ou esse rótulo acaba por já ter sido esquecido com os anos que passaram?

Eu penso que com os anos que passaram, entretanto, esse rótulo já se desativou. É verdade que é importante que a União Europeia mudou muito a sua visão de como fazer a governação econômica e financeira de há 10 anos para cá. E é importante que essa alteração para uma visão de tentar atingir o cumprimento das regras econômicas e financeiras, mediante o déficit de dívida, uma forma que não prejudique o crescimento e o investimento, seja conseguido esse equilíbrio. Essas novas regras de que falei são mesmo com esse objetivo. Dão muita margem de discricionariedade à Comissão Europeia e é importante que seja interpretado e aplicado no bom sentido. Do ponto de vista externo e do país, também essa leitura é diferente. Em Portugal, a imagem da troika foi muito dura e muito difícil. Na Europa, como um todo, evoluiu-se muito no sentido de mudar essas regras e termos uma interpretação mais flexível dessas regras. Mas é verdade que há uma parte dos países da União Europeia que ainda são defensores de regras mais rígidas e de mais ortodoxia. Portanto, nem sempre é mal visto esse papel nos outros países. Embora a Europa tenha mudado muito a forma como vê a governação econômica e financeira e por isso mesmo mudou as próprias regras. É importante, se ficar com essa pasta, que é a pasta da área de economia, que vai ter um cargo muito importante e de grande sensibilidade, até porque neste momento os principais violadores dessas regras são dois grandes países, como a França e a Itália, e portanto, vai ser de grande sensibilidade essa gestão, mas é importante fazer essa gestão de forma flexível, com equilíbrio, para não prejudicar a economia e o crescimento e o investimento na Europa.