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No fundo, este relatório dá conta de uma grave crise na União Europeia no setor da saúde. Em 2022, o setor registou uma falta de mais de 1,2 milhões de profissionais entre enfermeiros e médicos. E isto é, Nuno Rodrigues, um fator que vai ser agravado pela reforma de vários médicos, certo?

Precisamente. Neste momento, a Europa no seu global enfrenta esta escassez de profissionais de saúde, o que vai levar a uma maior pressão também sobre o SNS. Ou seja, nós, no fundo, vamos estar a competir com os outros países da Europa, que como todos sabem, têm maior poder de compra que Portugal, por estes profissionais. E por isso é necessário implementar medidas desde já para que o fluxo, tanto de médicos como de outros profissionais, para o estrangeiro não seja tão grande. Ele vai sempre existir devido à diferença de condições, mas queremos que, se houver uma melhoria estrutural em Portugal, tanto nas condições de trabalho como nas remunerações, e não estamos a falar obviamente das remunerações do centro da Europa, mas remunerações adequadas à diferenciação técnica dos médicos em Portugal. Recordo que a grandíssima maioria dos médicos faz toda a sua formação às expensas próprias, por exemplo, e temos de fixar estes médicos e estes profissionais cá. E portanto, tem de haver um sinal claro por parte do Ministério da Saúde de que é importantíssimo ver, não só a perspectiva nacional, mas que neste mercado global estamos a competir realmente com os outros países por recursos escassos.

Outro tema também abordado neste relatório é a despesa de saúde por cada habitante. E este relatório dá conta que Portugal, por exemplo, tem uma despesa abaixo da média da União Europeia e que fica muito longe de países como a Alemanha. A despesa neste momento de Portugal é cerca de 2.800 € por pessoa. Este desinvestimento em Portugal aos utentes nota-se em comparação com outros países da União Europeia?

Nota-se em muitos fatores, como, por exemplo, no investimento, que temos também referido que é importante fazer, em condições técnicas, em equipamentos, na renovação do material que existe e por isso também se nota este desinvestimento. Aliás, se formos ver os orçamentos todos dos últimos 10 anos, tudo o que estava previsto para investimentos, nem metade foi executado. Portanto, temos de ter essa noção de que realmente, apesar das verbas previstas, elas não foram executadas e depois sucedem situações como a que acontece atualmente no INEM, em que o investimento em ambulâncias e outros meios técnicos que eram necessários não foi feito e por isso a situação a que se chegou. Neste caso, apesar de tudo, Portugal continua a apresentar bons resultados em termos de saúde, em termos de esperança média de vida, por exemplo, em termos de prevenção de mortes por causas evitáveis. E por isso nós temos a garantia que a qualidade dos profissionais está lá. Precisam é, de facto, de ter um investimento em saúde adequado à sua qualidade.

E há aqui mais um dado que lhe queria também perguntar. Apesar deste problema de escassez de médicos e de enfermeiros, no geral, de profissionais da saúde, este relatório alerta também que o setor emprega hoje mais trabalhadores do que em qualquer outra altura. O que isso significa? Há mais médicos, mais enfermeiros, mas parece não ser suficiente.

Isso decorre devido à transição demográfica que nós estamos a ter. E, portanto, com populações mais envelhecidas, é natural que sejam necessários mais profissionais para dar resposta às necessidades das pessoas. Falo, por exemplo, de uma área que tem sido sistematicamente subvalorizada em Portugal, que é a área dos cuidados continuados e também dos cuidados paliativos, em que de facto é preciso maior resposta. Todos nós sabemos que a resposta a esse nível é insuficiente e por isso, com esta transição demográfica, vai haver sempre necessidade, neste momento, de mais profissionais, realmente, porque há uma multimorbilidade das pessoas. As pessoas chegam a uma determinada idade e não têm só uma patologia, têm várias patologias, que são patologias complexas e que precisam de mais tempo e dedicação dos profissionais de saúde para as tratar.