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Qual é o cenário, neste momento, em Moçambique?

O cenário é aterrador, assustador e grave, porque nós vemos a impotência do Estado de garantir ordem e segurança pública. Vemos que, literalmente, o poder nalgumas regiões do país, caiu na rua. Isso incluindo na capital do país, que é a cidade de Maputo, mas também, o que é algo atípico, em Chibuto, que é a alma-mata do regime, em Gaza, em Xai-Xai e noutras províncias. Portanto, é uma crise generalizada em todo o país. O caso aqui da província da Zambézia, nós tivemos um tribunal que foi incendiado, literalmente. A sede do partido Frelimo, em Murrumbala, foi incendiada. A fronteira com o Malawi, em Milange, ficou encerrada desde anteontem. Em Alto Molócuè, a Estrada Nacional nº 1 ficou encerrada por várias horas. A sede da Frelimo, em Alto Molócuè, foi tomada e foi retirada a bandeira da Frelimo e hasteada a bandeira do Podemos, na sede da Frelimo. E, portanto, temos visto um pouco por todo o país. Aliás, em Pemba, diz-se que foi colocada uma cancela e que me parece que a estátua da pessoa que alegadamente disparou o primeiro tiro, o senhor Chipande, eu ainda não tenho confirmação disto, mas há informações segundo as quais a estátua foi destruída. Os aviões, algumas linhas aéreas tiveram que parar os voos internacionais para Maputo e há dezenas de pessoas a dormir no aeroporto de Maputo, na esperança de poderem encontrar a primeira saída para poderem abandonar o país.

Isso quer dizer que o país está paralisado?

Uma boa parte do país está paralisado, está com as instituições a não funcionar. Os exames não decorreram em mais de 20 a 50 escolas secundárias, não puderam realizar os seus exames. Nalguns locais, alguns professores contratados à última hora para conduzir os exames, tiveram que entrar para as salas saltando o muro, porque os outros não permitiam. Nalguns locais, onde os professores estavam em greve, a polícia tentou impor a ordem e foram os próprios estudantes que saíram com os exames na mão, portanto, recusando fazer exames, solidarizando-se com os professores que não recebiam os seus salários e outros que não recebiam os subsídios de horas extras. Nós temos um Estado, ou seja, temos um setor público que, em média, está há quatro, cinco meses que não recebe os seus salários. Os próprios elementos das forças de segurança, da polícia, do exército, os professores, os médicos. O Estado está a dever a todos e quando se deve a todos, perde-se o respeito e também perde-se a autoridade. São várias crises que se juntam na crise eleitoral e que acabam retirando legitimidade ao próprio governo. Aliás, o próprio governo não demitiu-se, portanto, não se ouve ministro algum. Até parece que essa situação interessa ao próprio governo, e na minha forma de ver, é porque me parece haver uma estratégia de deixar o caos, de deixar o poder na rua, para então poder-se depois instaurar um estado de emergência, que iria suspender as liberdades fundamentais e permitir a continuação do presidente Nyusi no poder, que é um dos seus mais grandes sonhos, porque isso vai impedir que a Justiça internacional, especialmente os tribunais de Londres e dos Estados Unidos, possam julgá-lo. Ele ainda precisa da imunidade presidencial para poder se manter longe dos tribunais.

Ou seja, o que me está a dizer é que a situação se vai arrastar e que vai piorar?

A minha leitura, infelizmente, fazendo um acompanhamento no terreno, é que a situação vai piorar antes de melhorar.

Como assim?

Nós ainda estamos na fase quatro. E parece-me que vêm mais fases aí à frente. É a primeira vez, mesmo no tempo da guerra civil, nós nunca tivemos uma situação de cancelamento, entre aspas, do Natal. Isto também surpreendeu-me um pouco, porque o próprio Venâncio é cristão e é pastor. Um pastor cancelar a celebração do Menino Jesus parece ter sido um contrassenso, mas ele deve ter as suas razões, também o fato de ter cancelado, entre aspas, as festividades do fim do ano, também parece afastar um pouco a classe média e também a classe dos artistas, os músicos, porque muitos músicos já têm os seus contratos firmados para o fim do ano e vivem desses biscates. Foram duas medidas que podem afetar também algumas classes, mas como o próprio Venâncio Mandianza disse: "Todos temos que nos sacrificar para conseguirmos um bem maior". Parece ser um sacrifício a curto prazo para aquilo que ele vê como um bem maior a longo prazo. Vamos ver qual será a reação da Igreja Católica, a reação do Vaticano, mas também a reação de outras Igrejas que veem a sua maior festa depois da Páscoa, tem sido o Natal. Não sei se vão aceitar ou se haverá um afastamento dos crentes e das próprias igrejas. Mas ainda temos tempo.

Sim, mas dizia que vai piorar, por isso vêm aí mais fases de protesto. Mas disse vai piorar antes de melhorar. Mas isto pode levar a uma guerra civil, por exemplo?

Claro, porque com o estado de emergência, as liberdades fundamentais estão suspensas. Ou seja, toda aquela luta que Afonso Dhlakama fez durante 16 anos, que era para termos democracia. A democracia fica suspensa. Ora, ficando suspensa a democracia, estamos literalmente numa guerra das instituições contra o povo e o povo, essa é a minha análise, não vai aceitar tomar uma pejada. Eu acho que nós vamos ter uma possível insurreição. Aliás, nós já temos guerra em Cabo Delgado. Algumas pessoas vão começar a ponderar se não faria sentido juntarem-se aos insurgentes, especialmente na zona costeira, Angoche, Nacala, Ilha de Moçambique, que são zonas islamizadas e que, por exemplo, mesmo lá em Palma, em Quionga. Quionga só passou para o domínio português depois da Primeira Guerra Mundial, sempre dependeu de Zanzibar. Há aí uma insensibilidade que é preciso ter em conta e isso pode levar à desagregação de Moçambique como o conhecemos hoje. Este mapa que nós temos é um mapa com fronteiras bastante ténues e nós podemos correr o risco de o mapa de Moçambique, como o conhecemos, vir a sofrer algumas mutações.

Por causa desta insurreição existente.

Eu acho que não será só uma, podem ser várias insurreições em várias regiões do país, com interesses dispersos e díspares, mas que de fato vão se aproveitar da situação, da fraqueza e da ausência do Estado, porque de fato, um Estado de direito democrático, uma das premissas é que, não só do Estado de direito democrático, mas também de qualquer Estado, é que há um monopólio do exercício da violência. Neste momento, não há monopólio. A violência está na rua e qualquer sujeito argura-se ao direito de exercer e de fazer justiça pelas suas próprias mãos.

E aí está o perigo, não é?

O perigo está aí, e eu estou a ver que, provavelmente no dia 23, se for esse dia em que o Conselho Constitucional declarar, se os resultados não forem ao encontro das expectativas da maior parte dos moçambicanos, eu acho que esse vai ser o rastilho que vai acender a pólvora.