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Abrimos agora este espaço especial para falar sobre a violência que se tem registado em Moçambique. "O Observador" falou com uma mulher que esteve nas manifestações de ontem, em Maputo. É Mavanda, nome fictício, aqui por razões de segurança, moçambicana, residente precisamente na capital moçambicana, defensora da democracia, participou na grande marcha de protesto de ontem em Maputo, foi ameaçada pelas autoridades. Está conosco em estúdio a editora-executiva do Observador, Dulce Neto, que tem acompanhado este tema. Boa tarde, Dulce. Que relato é este?
Este relato que nós vamos ouvir trechos, é um relato que foi divulgado nas redes sociais, por isso esta mulher, esta senhora, depois de participar na marcha e ter vivido aquela situação aflitiva, ela dá o seu testemunho, que está a ser muito partilhado nas redes sociais, faz uma gravação e eu depois conversei com ela e com um outro manifestante, também, que esteve com ela. É um relato que nos mostra muita coisa do que está ali a passar. E eu retenho uma frase que os dois me disseram, que é: "Quando ser branco é uma bênção e uma maldição".
Estamos 15 pessoas num canto de dois metros, uns por cima dos outros. Quando começamos a ouvir umas vozes, eram polícias a chegar. Aparece um fulano vestido à civil com uma AK-47. Nós parecíamos 15 galinhas contra o canto. O homem aponta para nós com uma raiva danada e eu juro que naquele momento eu pensei que nós 15 íamos ser assassinados ali pela AK-47. Estávamos todos em pânico. Entretanto, aparece um da UIR, com uma arma de gás lacrimogéneo a apontar para nós. Pensei: "Pronto, não vamos morrer da AK-47, vamos morrer do gás, vão meter aqui gás até nós irmos embora". Entretanto, aparece um polícia vestido de azul-escuro e começam os três a berrar conosco, a ameaçar-nos: "Vocês querem morrer, vocês vão todos morrer". Eu não me lembro o que é que eles diziam, diziam este genre de coisas.
É um relato mesmo muito visual aqui, Dulce. Como é que esta situação depois se desenrolou?
Eles vão para o beco, só para dizer, porque eles já estão a fugir, porque eles iam cair numa armadilha, porque uns polícias muito simpáticos indicavam-lhes um caminho e uma vizinha atrás de uma janela, uma senhora, que disse: "Não vão por aí, porque essa é uma armadilha". E então eles escondem-se atrás de muros. Ela diz que é alta e por isso tinha que ir curvada, porque ouviam uns tiros atrás deles e eles vão para o beco porque acham que estão protegidos. Só que outras pessoas viram que eles foram para lá, que estavam a fugir e eles também foram e a polícia acaba por chegar lá. São momentos de muita tensão, sobretudo com o homem que tem a Kalashnikov. Era o mais bruto, digamos assim, o mais agressivo, o mais violento, é esta a palavra, mas que depois acaba por se resolver, porque uma das pessoas que estava no grupo, aquela era a casa dela. E ela diz: "Esta é a minha casa, eu tenho aqui as chaves". E sempre que esse homem da Kalashnikov saía, eles tentavam convencer os outros dois para os deixarem libertar, que só queriam ir para casa, e foi isso que aconteceu.
Eu acho que o facto de eu e mais duas pessoas ali sermos brancas, ele teve, vamos dizer, algum respeitinho, algum medo, algum receio de se calhar estar a ferir estrangeiros ou qualquer coisa e não lançou nenhuma bala.
Então, o que acontece aí é que essa jovem consegue convencer este elemento da polícia e da UIR. UIR é a Unidade de Intervenção Rápida, e ela a determinada altura diz: "Eu estou aqui com os meus amigos, são os meus amigos". E ele pergunta-lhe: "Então, quem são os teus amigos?" E ela diz: "São os brancos".
Quando nos levantámos, tentei dar uma força aos outros que ficaram ali apavorados a olhar para nós, a pensar por que nós não somos brancos também. E quando passámos pelo UIR e pela polícia, rogámos, dissemos: "Eles só querem ir para casa, por favor, somos irmãos, deixe-os ir para casa, eles têm família, eles querem ir para casa". E então acho que eles nos ouviram, porque eu, entretanto, entro na casa, todos nós a tentarmos esconder e começo a ver que o pessoal foi libertado. Então aqueles 15 que iam sendo mortos ou gaseados, ou batidos, ou presos, detidos, não sei o que nos ia acontecer, passou-me tudo pela cabeça. Acabámos todos saindo, pelo menos até àquele momento.
E ela depois diz-me aquilo que eu te há pouco estava a dizer: "Eu fui salva por ser branca e vou ter para o resto da minha vida, eu e os meus amigos brancos, este peso", que não é uma culpa, porque também foi por isso que todos os outros foram salvos. E ela dizia: "Sim, mas é uma bênção, uma maldição", porque aquele da AK-47 sempre que desaparecia, uma das vezes dizia: "Eu quero aquele branco", que era o namorado de uma das que estava no grupo e que se tinha dispersado deles. Por isso ele diz: "É uma bênção quando nos liberta, é uma maldição porque somos alvo de perseguição". Mas isto retrata bem os momentos de violência, de medo, de perseguição que ontem se viveram nas ruas de Maputo.
Obrigada, Dulce Neto, a editora-executiva do Observador, que esteve à conversa com esta mulher, Mavanda, que esteve nas manifestações de ontem em Maputo. Estivemos nos últimos minutos a analisar estes confrontos e estamos a acompanhar tudo em observador.pt. De resto, esta história da Dulce Neto está mais desenvolvida no nosso site.