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Recebemos neste jornal das 16h o infectologista Fernando Maltês. Boa tarde, obrigado pela disponibilidade. Já no dia 19 de maio, a DGS tinha emitido uma nota a dar conta de que se ia reforçar a vigilância do vírus Ebola em Portugal, após a Organização Mundial da Saúde ter declarado o surto na República Democrática do Congo como uma emergência internacional de saúde pública. Hoje é conhecida esta diretriz da DGS, já com hospitais de referência. Pergunto-lhe por que isto acontece nesta altura. Trata-se de um procedimento normal?
Muito obrigado, em primeiro lugar, pelo convite para eu participar neste vosso programa. É um procedimento normal. Portanto, a Organização Mundial da Saúde declarou a emergência deste surto como uma emergência de saúde pública internacional. Não tanto pelo medo que ela possa descambar, passe a expressão, e que o vírus possa vir a transmitir de uma forma alargada e chegar mesmo ao Ocidente, causando uma pandemia grave, porque se eventualmente eles chegarem ao Ocidente, rapidamente se tomarão as medidas para isolar as pessoas infectadas e prevenir qualquer transmissão mais alargada, mas sim, sobretudo, para chamar a atenção para o epicentro da epidemia. Isto é para mobilizar recursos para o epicentro da epidemia na África Centro-Ocidental.
Portanto, é apenas prevenção.
Exato. O risco de uma pandemia à escala global, a pandemia é sempre uma coisa à escala global, é mínimo. O risco de chegarem cá casos, eu diria que até é muito pequeno. Mas, de facto, isto obriga que nós estejamos também preparados nos nossos locais de trabalho e nos nossos países, a termos a preparação necessária para a eventualidade de virmos a receber algum caso. E, portanto, este alerta da Direção-Geral de Saúde tem exatamente o objetivo que os centros de referência, como aliás já tem sido habitual com o Centro Hospitalar de São João e com o Hospital Curry Cabral, serem os centros de referenciação.
Aliás, é uma nota bastante parecida àquela que foi também divulgada pela DGS por causa do hantavírus.
Exato. Normalmente, são os procedimentos habituais para outras emergências que têm ocorrido de há umas dezenas de anos a esta parte. Eu lembro desde 2004, desde a SARS, que este plano de centros de referenciação já está estabelecido e tem-se repetido com as pandemias que têm surgido ao longo deste tempo. E portanto, o alerta tem fundamentalmente o objetivo de estes centros estarem preparados no que diz respeito a recursos humanos, no que diz respeito a recursos técnicos, a fazerem treinos na utilização de equipamentos de proteção individual. Estamos a lidar com uma doença para a qual não existe terapêutica eficaz, para a qual não existe uma vacina eficaz e, portanto, temos que tomar medidas de suporte e medidas de isolamento adequadas e, portanto, requer treinos na utilização de equipamentos para os profissionais não se infectarem e, portanto, as normas da Direção-Geral de Saúde são também uma chamada de atenção para essa necessidade.
Fernando Maltês, não posso deixar de lhe perguntar sobre o Mundial de Futebol, porque a seleção da República Democrática do Congo vai enfrentar Portugal na fase de grupos. Muito rapidamente, pergunto-lhe se há aqui algum risco de contágio entre jogadores ou adeptos, ou a Organização Mundial de Saúde não vai deixar que isso aconteça, vai tomar as medidas preventivas necessárias?
Eu penso que não haverá qualquer tipo de risco, na medida em que as pessoas que vierem da República Democrática do Congo, sejam eles desportistas ou não, jogadores ou não, de acordo com aquilo que foi determinado pela Organização Mundial de Saúde e por se tratar de uma emergência de saúde pública internacional, de acordo com aquilo que foi decretado pela Organização Mundial de Saúde, todas as pessoas que saírem neste momento por qualquer tipo de fronteira da República Democrática do Congo, do Uganda ou de qualquer outro país que neste momento ainda não, mas que possa vir a ser também afetado pela epidemia, terão que ser objeto de rastreio à saída dos respectivos países e, portanto, deverá ser respeitado, com certeza, também o período de incubação adequado para que os que cheguem aos Estados Unidos da América não estejam a correr qualquer risco de poderem estar infectados e, portanto, não haverá risco para as pessoas.