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No Jornal das 10 da Rádio Observador temos a oportunidade de conversar agora com o eurodeputado do PSD, Paulo Rangel. Bom dia, obrigado por se juntar a nós. De que forma a Europa pode gerir este êxodo russo?
Muito bom dia. É de facto uma questão complexa, difícil sob vários pontos de vista. Como sabe, os países bálticos, a Polónia, a Finlândia e mais um ou outro país têm sido muito convictos na ideia que se devia banir por completo a entrada de cidadãos russos. Aquilo que foi aprovado a nível europeu para já, e no meu ponto de vista bem, foi não dar nenhum regime preferencial, ou seja, até agora os vistos tinham algumas facilidades adicionais relativamente aos cidadãos de Estados terceiros, portanto havia um acordo. Esse foi suspenso, mas isto não impede, cumpridos todos os trâmites normais para qualquer cidadão de qualquer país do mundo poder entrar na União Europeia, que os russos entrassem. Esta parecia-me, sem dúvida, a melhor solução, porque eu acho que nós não podemos começar logo à partida a excluir todo e qualquer cidadão russo de sair da Rússia ou de visitar o Ocidente, embora eu compreenda que há aí questões complexas, desde logo à cabeça de todas, a ideia de que pode haver agentes infiltrados, etc. Mas a questão que temos agora é diferente, porque agora o que nós temos é um êxodo em números relativamente altos de cidadãos russos que diretamente querem fugir do regime de Putin. Uns porque se aperceberam que a guerra passou por uma nova fase, deixou de ser uma operação especial, passou a ser uma guerra pura e simples, e são dissidentes e discordam de Putin. Outros porque não tendo tido essa posição no passado, estão agora em risco de serem mobilizados e portanto querem encontrar um refúgio, um exílio, porque não concordam com a guerra, porque não querem ser obviamente carne para canhão nesta operação ditada por Putin. E aí sinceramente, eu acho que a Europa tem de encontrar uma solução para acolher estes refugiados. E parece-me que esta posição da Finlândia, como aliás de outros países, é talvez uma posição demasiado dura do ponto de vista humanitário. Quem conhece os países bálticos, a Finlândia, a Polónia, a sua relação com a Rússia, e especialmente a forma como ela se desenvolveu nos últimos seis, sete meses, compreende este tipo de atitude mais dura, diria eu. Mas eu penso que há soluções alternativas. Estes países poderiam deixar entrar esses cidadãos russos que estão claramente em fuga, que se regressarem ao seu país, se não conseguirem entrar, irão sofrer enormes represálias.
Entretanto, Paulo Rangel, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, afirmou numa entrevista que foi publicada hoje, que é a favor de que a União Europeia abra as portas aos cidadãos russos que são objetores de consciência e que ignorem o apelo do presidente russo. Foi numa entrevista publicada no jornal político, na versão norte-americana. Esta pode ser uma solução? Como é que se faz também esta triagem? Como estava a dizer, isto é tudo muito complexo, mas é preciso, de facto, haver uma solução e ela tem que ser posta em prática o mais rapidamente possível.
Com certeza que vai haver alguns riscos. Sempre assim foi, quando houve êxodos em massa de bandadas de cidadãos a fugirem de guerras, a fugirem de perseguição política, a fugirem de perseguição religiosa ou de outro tipo de perseguição. Quando é em massa normalmente o motivo tem muito a ver com a eclosão de alguma guerra ou com uma perseguição política em massa. Quando isto acontece, evidentemente que nós temos que encontrar remédios e portanto, o que eu digo é: eu admito que haja países como a Polónia, que está extremamente sobrecarregada com os refugiados ucranianos, que obviamente estarão em tensão natural com eventuais refugiados russos, ainda que estejam de acordo em tudo, mas há uma desconfiança que temos de compreender uma coisa desta. Mas há outros países em toda a Europa, nomeadamente mais no Ocidente, que tinham condições de receber estes refugiados e portanto de se fazer aqui um acordo que a entrada tem de se fazer eventualmente por países sem a fronteira com a Rússia, portanto seja uma entrada terrestre, até porque do ponto de vista aéreo, como nós sabemos, não há os voos para o Ocidente. Há para a Sérvia, que actualmente não é um Estado da União Europeia e era um velho aliado da Rússia.
E depois de certa forma distribuí-los pelos Estados membros como se fez com os ucranianos, talvez. Mas há aqui uma questão que é: quando houve a crise migratória, essencialmente dos países do Norte de África e do Médio Oriente, vimos como a União Europeia não soube organizar nem ser solidária. Não podemos assistir a uma situação semelhante?
Esse foi um momento muito complexo, muito difícil e muito duro, que aliás tem consequências hoje em dia até no nosso panorama político. Por exemplo, o golpe que está a passar em Itália tem a ver com essa falta de solidariedade europeia nesse momento crítico de 2015. Agora, a verdade é que nós temos já um outro exemplo muito mais bem-sucedido, embora ainda seja cedo para medir os efeitos que ele alcance, que é justamente os refugiados ucranianos, onde houve uma enorme mobilização de todos os países para ajudarem. Todos os países que antes não ajudaram ninguém, estou a pensar nomeadamente neste caso na Polónia, mas com o mesmo tipo de pressão, nós temos uma Eslováquia, uma Hungria, uma Roménia, a própria Finlândia, os países bálticos que têm o mesmo tipo de pressão, e todos os outros países se organizaram para ajudarem a dar essa resposta. E aqui, se estes países, por razões históricas e por razões que têm muito a ver com a presente conjuntura, não estão disponíveis para acolher estes refugiados em termos de curto, médio prazo, a verdade é que outros países estariam, porque é fundamental que os opositores russos, os objetores de consciência, os dissidentes, possam vir para o Ocidente. Isto, de resto, fará parte, do meu ponto de vista, de uma das maneiras, não apenas por razões humanitárias, que essas são sempre decisivas, mas também uma das maneiras de nos posicionarmos também neste conflito entre dois modos de ver.
Fica essa ideia, Paulo Rangel.
Podem fazer pressão para a situação interna que se vive na Rússia